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Histórias

61 anos do: “Templo do amor, sensibilidade e devoção”

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
28.maio
2019

O Centro tinha seu habitual vai-e-vem de uma sexta-feira ensolarada: pessoas indo de um lado a outro, umas com pressa, outras olhando as promoções de lojas anunciadas em cartazes amarelos com letras grandes, comerciantes gritando suas ofertas, cachorros deitados na sombra de uma árvore e senhores que conversavam sentados em um dos bancos da Praça do Ferreira, em frente ao Cineteatro São Luiz.

Eu li na revista, macho.
Que revista?
Mas pior mesmo foi as Torres Gêmeas, lascou tudo.
Desde quando tu sabe alguma coisa sobre isso?
Num tô dizendo, eu li…

Alguns passos à frente, antes de passar pelas portas douradas com grades pretas, vamos voltar, rapidamente, para a o fim da década de 1950, quando o então esperado cinema de rua “mais bonito do Brasil” foi inaugurado no espaço que antes era ocupado pelo Cine Polytheama. A espera de 20 anos para a abertura do espaço, devido a pausas na construção por causa da Segunda Guerra Mundial, foi marcada com a estreia do filme Anastácia, uma princesa perdida que contou com a presença da elite cearense e de autoridades governamentais.

Apesar das expectativas, não se podia imaginar que após a inauguração em 26 de março de 1958, o Cine São Luiz – como ficou popularmente conhecido – faria parte da memória afetiva de gerações de cearenses.


Fotos Arquivo Cineteatro São Luiz 

Memórias tão importantes que estão reunidas no próprio site do Cine. Foi no quarteirão entre as ruas Guilherme Rocha e Liberato Barroso que Fausto Nilo começou a construir uma das suas primeiras memórias com o cinema. Ele recorda de estar na praça naquele dia, observando do lado de fora, com a “turma do sereno”, toda a movimentação da estreia. Meses depois, após ter um terno, pôde finalmente conhecer a estrutura encantadora do cinema, que durante anos ficou marcado como um espaço que apesar de modificar a história da cultura cinéfila cearense, era restrito à uma parte dos fortalezense.

Rachel também lembra do depoimento de outros artistas cearenses também colecionam memórias afetivas com o Cine São Luiz, antes mesmo de pensarem em se apresentar no palco do cineteatro. Fagner, por exemplo, começou seu show no Cine com uma cena do filme Marcelino Pão e Vinho e depois entrou cantando a música da animação muito emocionado, revelando que quando pequeno foi o primeiro filme que assistiu no cinema de rua, e que muitas vezes não conseguia entrar por não ter a roupa adequada.

Ao voltar para 2019, depois de passar pelas portas douradas com grades pretas, o grande salão de mármore com lustres, que fazem você se perder na quantidade de brilho que um objeto pode ter, se apresenta grandioso, e é quase inevitável evitar um suspiro. Ali, Rachell Gadelha, que está à frente da gestão do São Luiz desde que ele reabriu oficialmente em 2014, explica que tem trabalhado para “destruir o muro simbólico” entre a população e o teatro.

Com 61 anos de existência, o São Luiz está reconstruindo o seu papel diante da sociedade. “Quando bebemos do passado, percebemos que o Cine foi um espaço muito simbólico, quase todo mundo tem uma memória afetiva aqui. Teve o primeiro namorado, viu o primeiro filme, se encantou, memórias de infância… Não trabalhamos só para aqueles que gostam de cultura, mas para todos que passam por aqui, pela pessoa que mora na Praça, que trabalha no Centro, que vem ao Centro rapidamente, pra pessoa que nunca vem ao centro…”

E para reforçar essa nova identidade do Cineteatro, que deixou de ser apenas cinema de rua para se tornar espaço para a “difusão das diversas artes”, é oferecida uma programação variada para atender aos fortalezenses. “Fazemos programação para a juventude, para o idoso, pra quem tem o hábito de consumo, pra quem não tem e assim vamos mesclando e tentando fazer essa composição. Colocamos artistas da periferia, Mestra Cacique Pequena, tocador de rabeca do interior, um violinista, então é esse caldeirão, somos essa ressignificação do São Luiz e dos seus espaços. E aqui não existe o artista nacional ou o artista internacional, aqui existe o artista.”

O Cineteatro tem 1.050 lugares e cerca de 70% da sua programação é feita por artistas cearenses. E apesar de ser um espaço físico antigo, Rachel reflete que ele nasceu de novo. “O São Luiz está se reinventado e a população está se reconhecendo nele. Respeitando o que já viveu e construindo novas narrativas. A ideia é que o universitário diga que gosta do cineteatro, mas que o trabalhador que mora do outro lado da cidade também tenha esse sentimento.”

Em poucas palavras Rachel define o Cineteatro São Luiz como um espaço que inspira arte e é templo de amor, sensibilidade e devoção. E que todos os passos para ressignificar o Cineteatro giram em torno de um objetivo: que as pessoas digam que precisam desse espaço cultural para que dessa forma ele nunca mais seja fechado.


Fotos Arquivo Cineteatro São Luiz 

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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