Vós

menu
Perfil

A direção que aproximou a Broadway do Ceará

Com André Gress Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
06.jul
2017

Para uns, teatro é uma forma de entretenimento e diversão; para outros, arte e contemplação. Para André Gress é sinônimo de viver, respirar. O produtor e diretor de 27 anos, apesar da pouca idade, já carrega no currículo algumas realizações de gente grande. Porque se permitiu sonhar.

“Me vejo como um sonhador, nunca vou deixar de sonhar e espero nunca deixar de sonhar. Sonhar é muito lindo. Mas sonho e faço, corro atrás. E pra correr atrás é preciso acreditar que é possível.”

E ele sempre acreditou. A primeira vez que tem lembrança foi quando assistiu, ainda criança, o musical “The Phantom Of The Opera” (O Fantasma da Ópera), em Nova Iorque. “Pra mim foi muito real. Aquilo realmente mexeu comigo, tanto que, quando cheguei no hotel, quis dormir com os meus pais, impressionado. Lá eu fui entender o que era teatro e, desde aquela época, ficava ouvindo o CD da peça compulsivamente para tentar lembrar daquilo que vivi. Daí que vem a minha história do cearense louco por musicais”.

Do encantamento com o teatro, veio a vontade de fazer parte, de estar no palco, mas ele logo percebeu que seu lugar era no backstage, fazendo tudo acontecer por trás das cortinas. De ator, virou diretor, experimentou, estudou, montou peças, espetáculos, fez parte da equipe criativa das quatro cerimônias das Olimpíadas Rio 2016, trouxe um pedacinho da Broadway para o Ceará, abriu uma escola de teatro.

“É importante ressaltar que não fiz nada sozinho. Tudo o que fiz foi com a ajuda da minha equipe, com os meus amigos que primeiro acreditaram que era possível e depois começaram a agregar outras pessoas”.

Entrevista

Vós – Como surgiu o seu interesse pelo teatro?

André Gress – O meu batizado foi ter assistido “O Fantasma da Ópera”. Eu também estudei no Christus desde pequenininho [colégio conhecido por ter ações voltadas ao teatro] e como ator, sempre adorei estar em cima do palco, sempre adorei um holofote, até que percebi que gostava também de criar. Com 15 anos dirigi um espetáculo pequenininho e vi que gostava daquilo e a questão de ser ator não ficou mais em primeiro plano. Depois, quando fiz intercâmbio nos Estados Unidos, com 15 pra 16 anos, trabalhei como ator e ganhei um prêmio como melhor ator das High Schools e pude trabalhar como ouvinte num grupo de teatro de uma universidade de Indiana e, de lá, as coisas começaram a se abrir pra mim. Fui pra Nova Iorque assistir a um musical, numa excursão e achei que seria “Chicago” ou “O Fantasma da Ópera” de novo, mas acabei vendo Rent, sem saber o que era e me apaixonei, pois é um espetáculo totalmente alternativo. A partir daí, comecei a estudar um pouquinho mais do teatro musical da fonte, nos EUA. Voltei pra Fortaleza, cursei Publicidade e não Teatro, porque ainda não sabia se era isso que iria seguir para a minha vida mas, dentro da universidade, abri um grupo de teatro e pesquisa, o .Com, e comecei a tentar experimentar coisas, a ensaiar e a trabalhar com o pouco que sabia naquela época. Com 18, junto com o pessoal do meu grupo, nós montamos o musical Rent em português, todo errado, desafinado, mas com muita vontade de acertar [risos]. Mas faltava muito estudo ainda, muita estrada pela frente.

Vós – Como foi a decisão de trocar a atuação pela direção?

André – Acredito que cada um tem um talento. Então, qual o meu talento? Eu consigo fechar o olho, estudar o espetáculo e visualizar o show como se fosse uma pintura. Acho que esse é o meu talento: a minha maior realização é a de ver aquilo que eu imaginei acontecendo. Foi experimental. Foi quando eu dirigi pela primeira vez que eu vi que conseguia fazer algo diferente e me realizava mais vendo algo que eu concebia fora do palco do que estando em cima dele.

Vós – Quando começou a sua parceria com o Allan Deberton (sócio e produtor)? 

André – Em 2012, montei um espetáculo que foi um fiasco depois de alguns que haviam seguido com um certo nível. A partir daí, decidi que, se fosse fazer algo, seria do jeito certo. Foi quando eu conheci o Allan. A gente se juntou e pensou “vamos tentar conseguir um espetáculo licenciado da Broadway”. Olha… Dois jovens, com 22 anos na época, quem diria que seria possível? Compramos os direitos do “Avenida Q”, Deus sabe como, e depois ainda conseguimos a aprovação da Lei de Incentivo à Cultura.

Vós – Quais foram os principais desafios de montar o “Avenida Q” em Fortaleza?

André – Depois que conseguimos comprar os direitos, o desafio foi saber como vender. Foram quase quatro anos recebendo só “não”, “não vou te patrocinar, porque vou patrocinar uma banda de forró”. De repente, a gente se inscreveu num último edital, o dos Correios de 2012. Nos olhamos e dissemos que se não conseguíssemos aquele, desistiríamos. E foi aprovado! Conseguimos com os Correios 80% do valor do espetáculo, o restante com operadores locais, e Fortaleza se tornou a terceira cidade do Brasil a montar um espetáculo licenciado da Broadway, o “Avenida Q”. No decorrer do musical, lançamos alguns vídeos de making-of para as pessoas entenderem que foi feito aqui; não é porque por ser um espetáculo licenciado da Broadway que é igual, uma cópia. Muitas pessoas confundem, porque a questão não é de americanizar, mas de misturar as duas coisas. Se você for ver o show na Broadway, é completamente oposto do que é apresentado aqui, apesar de contar a mesma história. É outra estética, outro figurino, a produção foi completamente abrasileirada, “cearensada”. A gente brincou muito até pra trazer uma identidade e uma identificação maior com o público. E não foi só um caminho de flores, porque o mesmo espetáculo havia sido montado, em 2009, em São Paulo, com R$ 3,4 milhões e nós montamos com R$ 700 mil em 2015! E muitas pessoas gostaram mais da nossa versão, muito mais humilde. A gente ainda teve uma surpresa enorme que foi a vinda do Jeff Marx, o autor do espetáculo. Devido aos vídeos que a gente lançou na internet, ele veio pra Fortaleza por conta própria assistir à estreia, o que foi uma coroação gigantesca pro nosso trabalho. E ele também se emocionou bastante.

Vós – O Avenida Q já foi apresentado aqui por duas temporadas. Há planos para uma terceira?

André – Nós temos o projeto inscrito em alguns editais para uma terceira temporada, pois dependemos desse tipo incentivo pra montar o espetáculo porque a estrutura que é muito grande. Mas a gente tem vontade de fazer.

Vós – Além do “Avenida Q”, outro projeto seu é o Broadway Brasil…
André – O Broadway Brasil é um projeto pioneiro iniciado em 2013, antes mesmo de ter conseguido captar recursos para o “Avenida Q”. A gente queria capacitar as pessoas aqui em Fortaleza para que elas pudessem atender ao mercado que a gente queria começar, então o BB trazia profissionais de fora do Brasil e do Sul e Sudeste para que a gente fizesse esse intercâmbio com o pessoal daqui. Até agora, já tivemos três edições – 2013, 2015 e 2017 – e já tem mais um planejado para 2018.

Vós – Por que você quis trazer esse projeto pra cá?

André – Em 2014, eu trabalhei com a Broadway Dreams, como assistente de direção e, quando voltei, a gente estava atrás ainda de conseguir a aprovação do Avenida. Então, falei com o Allan que a próxima vez que a gente fosse continuar o BB, eles deveriam ser as pessoas que nós deveríamos nos filiar. Porque, na primeira edição, eu trouxe só um professor meu de Nova Iorque – temos até um documentário falando como foi trazer o projeto pra cá. A Broadway Dreams, pra mim, abriu muitas portas: fui assistente de seis diretores de lá durante os seis meses. Fui o primeiro selecionado internacional a trabalhar com eles, nos EUA, e daí eu quis retribuir um pouco, trazendo eles para que as pessoas aqui também pudessem ter outras oportunidades. Foi aí que eles vieram para cá e a gente reformulou o projeto.

Vós – Qual o objetivo do Broadway Brasil?

André – O projeto 100% gratuito que sempre é reformulado quando acaba, então ele sempre fica diferente em determinados aspectos. A ideia é entender como um aluno, em sete dias, pode conseguir o melhor proveito dentro desse workshop. E vem gente do Brasil inteiro. Mas por que essas pessoas vêm? Só pra ter aula com fulano e sicrano, trabalhar pra conhecer o grande ídolo que viu na série Glee? Não! É pela ideia de ser capacitado através de uma maneira 100% prática. A gente tem as oficinas de montagem, nas quais eles vão ser selecionados para números e já vão estar sendo preparados para um show que acontece no final de semana, o Cabaret Show. No primeiro dia tem uma audição e as pessoas são selecionadas para os números que vão participar e, a partir daí, se tem um cronograma diferente para cada participante, que vai depender do perfil, da voz, do talento. E os alunos sempre têm as duas vivências, de oficina de montagem e workshop, com o conhecimento compartilhado pelos artistas do Brasil e de fora para que eles sempre consigam aprender alguma coisa.

Vós – Além do Broadway Brasil, em que outros projetos você está envolvido atualmente?

André – Estou preparando um novo espetáculo, meu e do Allan. Chama-se “A Hora da Estrela”, uma adaptação original nossa de Clarice Lispector, um musical autoral, com músicas autorais, 100% novo e que a gente vai estrear agora no final do ano. Também estou com a escola, The Biz, que é um novo desafio, tenho um projeto de teatro, que não é musical, sobre o holocausto, pois descobri que também adoro contar histórias reais, e mais alguns projetos que eu ainda não posso falar [risos].

Vós – A The Biz é um escola nova de teatro. Qual a proposta dela?

André – A escola tem cerca de dois meses e a proposta é que você viva a arte de uma maneira diferente. Mas o que é isso? Que você mergulhe dentro do que você ama fazer, seja cantar, dançar, atuar, ou fazer os três ao mesmo tempo. A ideia da escola é que você entre aqui e esqueça que existe um mundo lá fora, que ela lhe propicie essa experiência de arte, para crianças e adultos, porque aqui a gente tem aluno de 8 e de 58 anos de idade.

Serviço

The Biz – Escola de Artes
Endereço: Av. Washington Soares, 909 – loja 105 – Edson Queiroz
Telefone: 999.129.505
Facebook: /thebizarts
Instagram: @thebizarts

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar