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Histórias

A casa do Rock ainda resiste

Com Márcio Alves Por Mariana Amorim, Igor de Melo
02.fev
2018

No coração do centro de Fortaleza, a Galeria do Rock ainda guarda tesouros dos seus tempos dourados. Responsável pela melhor parte desse acervo, Márcio Alves e sua loja Planet CD’s resistem às mudanças na forma de consumir música

No vai e vem movimentado do Centro da cidade de Fortaleza, sábado pela manhã, cabem muito sons. Carros, buzinas, vendedores a plenos pulmões tentando chamar a atenção dos passantes, barraquinhas reproduzindo todo tipo de ritmo popular, do axé ao forró. É neste ambiente tão plural que Márcio Alves guarda um tesouro para os amantes de rock. À frente da Planets CD’s há 20 anos, ele conta sobre a cidade que viu se transformar ao redor de sua loja.

“Cheguei aqui em 1997, em um espaço bem menor do que tenho hoje”, explica o proprietário com um sorriso simpático atrás do balcão. A loja, que fica situada no terceiro andar da galeria Pedro Jorge, também conhecida como Galeria do Rock, é referência para quem procura artigos exclusivos de música e cultura pop. De fundo, Stones para embalar a nossa conversa sobre sons, andanças e transformação.

Filho de servidores públicos e nascido no interior, em Iguatu, Márcio veio para a capital no fim da década de 1980. Sempre ligado à música, o jovem de apenas 16 anos mudou-se para Fortaleza para estudar. “Eu vim para cursar o ensino médio e faculdade. Morava com meu irmão. Tempos depois eu entrei na faculdade de Administração”. Nunca concluiu o curso. Percebeu ainda cedo que a vida acadêmica não era pra ele. O visual do empresário parece ter saído de um filme dos anos 1980. Sempre de tênis e ostentado uma banda de rock na camisa, Márcio é a cara da Planet CD’s. A simpatia no sorriso deixa claro o prazer em trabalhar com aquilo que gosta.

Pouco depois, resolveu usar aquilo que sabia para administrar seu próprio negócio. “Comecei a trabalhar em uma locadora de vídeos, que ficava na Rua Lauro Maia. Tempos depois, eu comprei o local. Eu e meu irmão entramos juntos nessa. Era um negócio pequeno e não durou muito tempo, mas já serviu de experiência e eu percebi que queria ter meu próprio empreendimento”. A loja já está movimentada e o som da banda australiana ACDC toma o espaço quando Márcio me conta como chegou ali.

Construído no início da década de 1950, o prédio só se tornou Galeria Pedro Jorge cerca de vinte anos depois. Antes o local abrigava uma agência do Banco do Nordeste. Com cerca de 600 salas distribuídas em quatro andares, a construção localizada entre as ruas Senador Pompeu e General Sampaio chamava a atenção pela quantidade de espaços disponíveis para locação por um valor razoável.

Após se tornar um centro comercial, a galeria passou a ser ocupada por escritórios de contabilidade e consultórios de dentistas. Foi só na década de 1980 que o rock encontrou morada na Pedro Jorge. Nas escadas escuras e no vão mal iluminado da Galeria, o mercado underground de Fortaleza encontrou abrigo. A Galeria do Rock foi palco da efervescência da cena rock no Ceará.

“Quando eu abri a Planet CD’s, o espaço já era conhecido como Galeria do Rock. A Opus foi a primeira, em 1984, e foi de muita importância para a cena roqueira em Fortaleza”. A loja – que fechou as portas em 2015, após 30 anos de atividades – foi referência para a Galeria. Localizada no segundo andar, o espaço reunia um material muito raro para aquela época, desde discos de bandas famosas como Led Zepelim e Black Sabbath até peças de vestuário, como camisas e bonés.

Ao lado dele, uma equipe de mais quatro funcionários faz a Planet CD’s acontecer, todos com o mesmo estilo: camisa de rock, jeans surrado e tênis. Tudo conversa com o cenário. Os clientes entram e saem sem muita cerimônia, o ambiente é informal e acolhedor. O bate-papo vai desde música – o carro-chefe – até o cenário atual da política. Tudo com muito bom humor.

No inicio dos anos 1990, o andar já estava tomado por lojas do mesmo estilo e, no fim daquela década, chegaram os primeiros tatuadores e lojas de camisas voltadas para o público skatista. “Depois da Opus, veio a loja do Chakal e a do Carlinhos, a Darkness. E por fim, chegou a gente. Eu falo de lojas de discos, né? Lojas que eram voltadas para atender esse público alternativo que procura mídia física de rock aqui. Não era fácil encontrar isso em Fortaleza”.

Hoje a galeria tem espaço pro rock, para os amantes de tatuagem e piercing, e até para os evangélicos, além de lojas de cosméticos, concertos de roupas e moda praia. “O aluguel já não é mais tão barato e muita coisa mudou por aqui. Das lojas de discos da ‘época de ouro’, só restou eu”. No início dos anos 2000, com a popularização da internet e da música em MP3, o mercado de discos já sentia as primeiras mudanças. Pouco tempo depois, os CD’s já não eram os produtos principais nas prateleiras. “A Opus mesmo tinha um acervo fantástico e foi mudando. Quando menos se esperou, já não tinha mais discos. Vendia camisas e outros produtos”, lembra Márcio.

Durante toda a conversa, o vai e vem dentro da loja é constante. A Planet é um dos últimos redutos de discos na Galeria (no térreo, a Disco Mania também é parada obrigatória). Quando questiono Márcio sobre a resistência dele e da Planet CD’s na Galeria do Rock e no mercado de discos, já é Led Zeppelin que permeia a trilha sonora. A resposta é bem simples e vem do mesmo desejo que o fez abrir a loja. “Eu sempre quis fazer isso. É como um hobby mesmo. A ideia não era viver disso, mas foi o que aconteceu”.

Apaixonado por música desde criança, Márcio sempre sentiu dificuldade de encontrar aquilo que gostava de ouvir. Fã de rock, principalmente dos clássicos, no interior as coisas demoravam a chegar. “A gente ouvia o que chegava, o que alguém trazia da capital. Tinha um cara em Iguatu que tinha uma espécie de locadora de discos. Eu sempre ia por lá atrás de alguma novidade”, lembra entre risadas. “Até o início dos anos 1990 era muito difícil encontrar lojas mais alternativas aqui em Fortaleza. Foi assim que a Galeria se firmou tão rápido. E é por isso que eu abri a loja e insisto nela. Vendo aquilo que gosto de escutar”.

Márcio conta que foi se adaptando para não fechar. Atualmente, a Planet CD’s oferece desde jazz, choro e bossa nova até o pop de Lady Gaga. “Quando abri, vendia particularmente rock. Quem frequentava a Galeria do Rock, na maioria, eram jovens, adolescentes, fãs da cena underground. Hoje eu já tenho até o pop”. O forte da loja é o grande acervo de CDs e DVDs, com muitos itens importados. Porém, nas prateleiras, além da música, há uma infinidade de outros produtos, como canecas, pulseiras, patch, bottons, camisetas, bonecos.

Na lista dos mais procurados, estão desde os discos dos Beatles até jovens fãs de cantoras norte-americanas. “Eu tenho desde box do Roberto Carlos a um acervo legal de jazz e MPB. Não acho nem que seja apenas música do nível ‘AA’ de qualidade, mas é um acervo diferenciado”, orgulha-se.

Em uma rápida volta pela loja é possível encontrar todo tipo de tesouros, como a coleção luxuosa de George Harrison – Living in the Material World. Márcio conta que tem fornecedores na Inglaterra e nos Estados Unidos, e que está sempre garimpando novidades. Apaixonado por viagens, de cada destino que visita traz um pouco para a loja. “Ainda é mais fácil e mais barato encontrar este tipo de produtos lá fora, sabe? E é muito bom tirar um tempinho em um país diferente para procurar discos. É uma caça ao tesouro”.

A Planet CD’s tem um acervo gigantesco de itens para colecionadores. Edições especiais de vinis do Television, Jimi Hendrix e The Beach Boys. “Eu gosto de trazer esses colecionáveis porque meu público é segmentado e curte. E assim, o que tem aqui raramente é remarcado. Ou seja, tenho discos raríssimos por um preço bem mais em conta que o do mercado”.

 

A loja de discos na era Digital

 

A Planet CD’s enche os olhos pela quantidade de mídia física disponível. É possível tocar, abrir, mexer. Coisa que a era digital não pode proporcionar. O heavy metal já toma a loja quando eu e Márcio chegamos ao streaming. Curiosamente, a loja é cercada de discos. Porém, no computador atrás do balcão, é o Spotify que dita a trilha sonora. “Não é mais uma ameaça direta. Acredito que nos adaptamos. É claro que perdemos espaço e isso aconteceu lá atrás, quando baixar música se tornou um hábito. Porém, o público daqui é bem cativo e fiel. E isso não mudou muito”. Márcio diz que escuta música de todo jeito, em todo canto, por qualquer plataforma.

Quando falamos em público, ele explica que os principais frequentadores são aqueles que se firmaram anos atrás. “O público se renova. Porém, muito pouco. Nosso boom mesmo passou. Hoje temos uma clientela fiel e que nos procura porque sabe que ainda seguimos a linha de lá de trás”. O desafio está no público mais jovem. Segundo uma pesquisa feita pela Jovem Pan São Paulo, em 2016, os jovens de hoje não costumam se definir pelo estilo musical. A maioria se afirma como “eclético”, consome música principalmente pelas plataformas de streaming e pagando para utilizar esse serviço. “Acredito que isso acontece pela facilidade de ter tudo ao alcance muito rápido”. Para ele, o fato de o vinil ter voltado a ser produzido e artistas como Céu e Cícero terem lançado seus trabalhos em mídia física faz com que o mercado se mexa novamente, mesmo que em uma escala menor. Ele explica que, para se manter, é preciso estar atento ao que o mercado dita. “O meu público é, em sua maioria, o mesmo que começou a Planet nos anos 1990. E ele se renova devagar. Mas trazer esses nomes da nova geração da música atrai os jovens. Fortaleza ter entrado na rota dos shows internacionais ajudou a gente aqui. Ano passado, no show do Iron Maiden, o fluxo aqui se tornou intenso”.

Questiono Márcio sobre o futuro, já que esse público se renova tão devagar. Ele me responde que não pensa muito nisso. Por hora, a loja ainda é um bom negócio e resiste às transformações impostas pelo tempo. “Mudou, é claro que mudou. Mas, não é o fim. Pelo menos ainda. É que a galeria tem essa aura, essa magia, sabe?”.

Serviço

Planet CD’s

Rua Senador Pompeu, 834 sala 207 – Centro

Contato:  (85) 3253-3981

Facebook /planetcds

Colaboradores

Mariana Amorim

Mariana Amorim

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Quase jornalista, metida a cronista e envolvida com música. Romântica além da conta, acredita que uma bela canção pode mudar o mundo. Coleciona livros, discos de vinil, imãs de geladeira e blocos de anotação. Poderia morar em um sebo. Apaixonada pelos garotos de Liverpool e pelo rapaz latino-americano.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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