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Histórias

A memória farrista do Benfica guardada no Buraco do Reitor

Com Sr. Andrade Por Jonathan Silva, Igor de Melo
09.set
2019

Era 21 de abril de 1960 quando o ex-presidente Juscelino Kubitschek inaugurou Brasília, a nova capital federal e sede do governo. Naquela mesma data, o comerciante Manuel Andrade troca Massapê, no interior do Ceará, pelo bairro Benfica, na capital, disposto a inaugurar um bar próximo à FEAAC – Faculdade de Economia, Administração, Atuária e Contabilidade da Universidade Federal do Ceará. Um lugar que nunca teve um nome e nem placa, mas que, como ficava próximo ao antigo prédio da reitoria da UFC, foi batizado pelos próprios estudantes de Engenharia da forma mais escrachada possível: surgia assim o Buraco do Reitor.

Foto: Google Street View

O estabelecimento seguiu durante anos com a mesma estrutura, na rua Senador Catunda, número 329. Duas entradas com portas pretas de enrolar e uma fachada com platibanda de cor azul claro. Uma vez lá dentro, o visitante podia ser atendido pelo Sr. Manuel, enquanto aguardava sentado num tamborete ou cadeira em frente ao balcão. As paredes, amareladas com o tempo, sustentavam prateleiras com bebidas, pôsteres de times de futebol e quadros com piadas. Uma simplicidade que movimentou gerações de clientes universitários.

Atualmente, a rotina do Buraco do Reitor segue um clima caseiro em outro número da mesma rua, na casa 347, num misto de barzinho com bodega. Agora é a Confraria do Andrade, sobrenome do aposentado Raimundo Andrade Filho, irmão de Manuel. O antigo proprietário, atualmente com 85 anos, deixou o comércio de lado e hoje aproveita a vida caminhando com a esposa pelas ruas da terra natal, Massapê. Já o novo “proprietá” abre as portas da confraria diariamente para receber a nova e velha guarda do Buraco, que não chega só para beber.

Não há clima que impeça a vinda dos bebedores, faça chuva ou sol. “Aqui a gente conversa sobre os mais variados assuntos”, relata Raimundo, mas pode chamá-lo de Sr. Andrade ou “Barrigudo”. Sim, não é só o bar que tem apelido. Manuel é o “Neli”. Junto de Sr. Andrade há o “Belém” (que sempre dá uma “bicada” às 10 da manhã) e o “Mão Branca” (dono de uma funerária, daí o apelido). São ex-estudantes universitários que nunca abandonaram a camaradagem que cultivaram durante os anos de academia e boemia.

E essa é só uma parte do folclore que cerca o Buraco do Reitor. A história mais famosa envolve os requisitos necessários para fazer parte da confraria, que sofreu uma mutação: de bar, o Buracou se transformou em algo muito próximo a uma associação. “Se chegar uma pessoa querendo tomar uma eu infelizmente não posso vender. Só quem é daqui mesmo. Eu chamo de SPA, ‘Só Pros Associados’ (risos).” É preciso estar acompanhado por alguém que já frequenta o espaço para ser um novo visitante.

Entre os antigos frequentadores, há alguns inadimplentes. E direcionado a eles o Sr. Andrade dá um recado sutil. Na prateleira ele risca com giz branco o valor do débito de cada um. Codificado, para que só o devedor saiba. “Só coloco o apelido. Aquele que passa do período de pagar é cortado quando é colocado no vermelho. Só volta a beber quando liquidado o débito.”

Parte da memorabília do antigo prédio é mantida na segunda sala, onde funciona a bodega. Biscoito, xilitos e garrafas de bebida estão lado a lado com rádios velhos, cordéis, bonecos, chifres, estátuas de santos e muitos quadros com fotos dos encontros realizados anualmente pelos frequentadores.

Andrade vai mostrando os registros dos EBEMs e EBANs. O primeiro é a sigla de “Encontro dos Bebedores do Manuel”, que acontecia de 1980 até 1990, ano que entrou Sr. Andrade e o evento mudou para  “Encontro dos Bebedores do Andrade”. A fala precisa e curta do Seu Andrade se expande na hora de falar desses encontros.

“Começou em 80, quando teve pela primeira vez. Esse era da Engenharia [Andrade aponta para o quadro], que era o Dr. Austero Brandão. Foi ele que deu o início, que nos levou à churrascaria para dar início à brincadeira do encontro. Aí que deu certo.” Na primeira edição do EBEM, “umas oito ou dez pessoas” compareceram. Um ano depois, os encontros passaram a ser registrados em fotos e devidamente emoldurados, com o nome de todos os envolvidos. Só em 1983 é que houve a única anulação do EBEM: um integrante vindo de Russas iria participar pela primeira vez, só que sofreu um acidente de moto que, por pouco, não resultou em morte.

Observando o comportamento de todos no meio da bebedeira, Sr. Andrade teve a ideia de premiar com troféus os “bonequeiros” e “comilões” do EBAN. “(O troféu) Bonequeiro é pro cara que comete o boneco durante o ano, mas é descer o boneco mesmo, e o Ferradura é o mais comedor.” E sim, os laureados recebem de prêmio um boneco e uma ferradura.

Com o boca a boca e indicação dos amigos, o número de integrantes foi aumentando. Em fevereiro de 1990, houve a saída de Manuel do bar. Andrade substituiu o irmão após pedir demissão do antigo Fininvest, onde era chefe de cobrança, e ter um investida mal sucedida sendo dono de um escritório de cobrança. Agora como EBAN, a clientela pegou até a estrada pelas cidades do Ceará em encontros que somavam dezenas de pessoas. Homens, na maioria.

Na comemoração dos 50 anos do bar, um evento a céu aberto foi montado do lado de fora. Música ao vivo, churrasco, clientes e muita bebida. O Buraco do Reitor tinha sobrevivido ao teste do tempo ao completar meio século de existência com um público cativo unido. Anos depois, porém, veio a ressaca.

Faltavam poucos dias para o aniversário de 54 anos do Buraco. Com precisão da data, Sr. Andrade lembra do fato que encerrou o primeiro ciclo do bar. “Foi em 19 de março de 2014. Foi um incêndio criminoso. Entraram por trás e, quando foram assaltar, acho que acenderam algum fósforo para clarear e, como tinha muita coisa inflamável, pegou fogo.” O estrago só não foi maior pois estava chovendo na hora. O que sobrou foi guardado na casa onde hoje é a confraria, que antes era propriedade do “Marechal Mozart”, sogro de Andrade morto em 2004.

Aproximando-se dos 60 anos de existência, até o momento nenhum reitor foi conferir o Buraco. Mas a classe acadêmica de Fortaleza (e, de acordo com Sr. Andrade, até políticos) frequentou e ainda continua frequentando o espaço. São engenheiros, médicos, advogados, empresários, professores e seus alunos que são associados seletos de Raimundo Andrade. Ele não dá sinais de fechar tão cedo. “Acabar aqui só quando eu me acabar também”.

O repórter agradece a indicação dos antigos associados Newton Queiroz e Altino Farias pela oportunidade de adentrar no Buraco do Reitor.

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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