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Histórias

[Álbum de Família] - A memória particular de um arquivista

Com Miguel Ângelo de Azevedo, o Nirez Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
03.jan
2018

Alguns nomes são mais famosos do que o rosto ou a história de quem os carrega. Muitos já ouviram falar, mas nem todos conhecem de fato a pessoa por trás do nome. Um exemplo é Nirez, Alcunha de Miguel Ângelo de Azevedo, 82, um dos maiores arquivistas de Fortaleza. É difícil achar quem nunca tenha ouvido falar do Arquivo Nirez: o “álbum” de fotografias mais famoso da cidade.

O acervo, sediado na própria casa do arquivista, no bairro Rodolfo Teófilo, possui mais de 141 mil itens – contagem desatualizada, pois foi feita em 2007 – e contém imagens históricas sobre a música e o futebol brasileiros e a capital cearense.

A coleção começou por acaso, aos 20 anos de idade. “Foi uma coisa puxando a outra. Comecei com disco, mas não era coleção. Me deram de presente um toca-discos e fui comprando os discos para o meu deleite.” Do interesse pelas canções surgiu a curiosidade por informações sobre música e sobre a imagem dos cantores. Nesse meio tempo, apareceram também fotografias da cidade, que foram arquivadas e catalogadas em seus devidos lugares. Assim, fez-se o Arquivo.

 

Mas e quanto às suas memórias? O que o arquivista guarda sobre a sua própria história?

A primeira fotografia de família de que tem lembrança foi tirada na casa onde morava com os pais, Tereza Almeida de Azevedo e o poeta Otacílio de Azevedo, e os irmãos, Rubens, Consuela e Sânzio.

“Eu morava naquele quarteirão onde é hoje a Praça Luiza Távora. Ali tinha o Castelo do Plácido de frente para a Santos Dumont e, no fundo, que dá hoje para a Costa Barros, ficava uma casa no pé do muro, uma espécie de sítio que tinha mangueira, pé de umbu, murici… Toda fruta que você pensasse tinha lá. Meu pai era fotógrafo. Ele deve ter tirado muitas outras fotografias que eu não lembro, mas essa eu tinha cinco anos. Foi a primeira foto que ele fez. Agora a primeira foto que ele bateu da família e que eu possuo, já tinha meus 15 anos.”

 

Da infância Nirez tem poucas imagens; a maioria fora perdida após o falecimento do pai. Então, muito do acervo pessoal que ele tem foi conseguido junto a outras pessoas da família. Além disso, naquele tempo, lá pela década de 1940, “bater foto” não era coisa simples ou barata como é hoje. “Fotografia era realmente uma arte. O pessoal comprava os químicos, tinha as receitas pra revelar… No lugar do filme, era a chapa de vidro.” A fotografia era um evento, um verdadeiro registro da passagem do tempo ou de eventos únicos. Como um eclipse solar.

“Teve um no dia 8 de maio de 1945. Meu irmão, que era astrônomo, reuniu todo mundo para assistir no quintal da nossa casa, na Rua Jaime Benévolo. Na foto tem umas pessoas que são conhecidas até hoje, como o Eduardo Bezerra Neto, Darcy Costa e Alba Frota. Eu quis aparecer e não conseguia, e inventei por onde.” Nirez está camuflado na fotografia; ele é “a cabeça” em cima do homem de gravata no centro da imagem.

 

Afora o malabarismo para aparecer na foto, o arquivista também guardou na lembrança outras impressões da noite: “Na hora que começou o eclipse, escureceu tudo. Foi um eclipse total. As galinhas subiram no poleiro pensando que era noite. Todo mundo quis ver, e fizeram fila pra olhar na luneta. Ela tinha um filtro, porque não se pode olhar diretamente pro sol.”

Passando imagem por imagem – todas digitalizadas -, sinaliza as que aparecem a namorada, Maria Zenita de Sena Rodrigues, com quem viria a casar e ter quatro filhos: Terezinha, Otacílio, Nirez e Mário; e o cunhado, Francisco Rodrigues, de quem se tornou amigo devido a uma rifa de bicicleta.

 

“Sempre andei de bicicleta. Então peguei a bicicleta desse tempo, era 1953, e coloquei na rifa pra poder comprar outra, e ele comprou um papelzinho. No dia que correu a rifa, não apareceu o dono e eu continuei com ela. Mas, antes do sorteio, me encontrei com o meu cunhado lá perto da casa dele e ele perguntou: ‘Quando é que a bicicleta corre?’ E eu respondi: ‘Todo dia ela corre’. Ele achou graça e nós ficamos amigos.”

Nirez faz uma pausa quando encontra a fotografia na qual está no Viaduto do Chá, em São Paulo. O ano é 1959. Na época, era desenhista e não tinha emprego fixo, era freelancer; então decidiu mudar para a capital paulista atrás de emprego e uma melhor condição de vida. Não ficou nem três meses.

“Arrumei um emprego excelente como vitrinista ganhando três salários mínimos. Aí disse: ‘Pronto, tô feito’. Fui atrás de alugar uma casa e custava três salários mínimos. Ia comer o quê? E tive até sorte, porque tinha um reserva, e o cara que tava com a minha reserva na mão me arranjou uma passagem pra ir a São Paulo. Fui de boeing pela Cruzeiro do Sul, que nem existe mais. Só que eu pensei: ‘Vim de avião e vou voltar de ônibus ou de navio? Não dá!’ Botei meu freelancer pra funcionar. Peguei um serviço bom num café pra fazer umas placas. Fiz o dinheiro da passagem, comprei na mesma Cruzeiro do Sul e voltei de Convair. Fui no começo de agosto e voltei no final de outubro.”

 

De volta à Fortaleza, ele começou a escrever crônicas e enviar para os jornais da cidade, até ser convidado formalmente para ter uma coluna no Correio do Ceará. Foi quando começou a carreira no jornalismo.

Como jornalista, entrevistou várias personalidades importantes da música brasileira, como Humberto Teixeira, Roberto Silva, Altamiro Carrilho e Orlando Silva. O encontro com esse último, inclusive, ficou marcado pela expectativa da entrevista.

“Eu tinha uma impressão terrível desse cidadão. Todo mundo dizia que ele era pernóstico, mal-educado e se considerava melhor do que todo mundo. Então eu fui pro Premier Hotel com o pé atrás. Cheguei lá e disse que queria marcar uma entrevista. Ele perguntou onde eu estava e disse que ia descer pra falar comigo. Aí desceu ele e a mulher, Lourdes. Sentou, olhou primeiro o roteiro, respondeu tudo direitinho, muito bem-educado. Aí eu pense: ‘Agora, pronto! Vou entrevistar o Sílvio Caldas, que é um sujeito acessível que todo mundo gosta.’ Primeiro eu marquei um horário na Rádio Iracema e ele não foi. Por acaso, passei na Galeria Pedro Jorge e ele tava na barbearia e fui falar com ele. E ele disse: ‘Meu amigo, eu tô cobrando 3 mil cruzeiros pela entrevista’. Pra você ver como são as coisas e a fama.”

Foi também como jornalista que teve a honra de receber, na década de 1980, uma medalha de mérito da Fundação Joaquim Nabuco diretamente pelas mãos de Gilberto Freyre, devido à contribuição com uma matéria sobre o cangaço. Nirez olha a fotografia com humor, lembrando da gafe do escrito no momento da premiação.

“Eu todo satisfeito porque tava recebendo a medalha das mãos dele, mas ele devia ter ficado calado e não ficou. Porque foi o seguinte: ele fez questão de me entregar, chegou pro filho dele, que era o diretor, e apontou pra mim. Quando fez a entrega, olhou pra minha cara e disse: ‘Ah! Não é quem eu pensei, não. Pensei que era o João Cabral de Melo Neto’.”

Entre fotos com a família e visitantes do arquivo, de entrevistas, premiações e lançamentos de livros que mostram a trajetória de vida e profissional do arquivista, uma série de imagens se destaca: a comemoração dos seus 80 anos. Nelas, Nirez aparece pulando de paraquedas na companhia do cantor e amigo Waldonys.

“Telefonei pra ele, disse que estava perto do meu aniversário e que queria pular de paraquedas. Depois liguei de novo e ele disse pra retornar quando estivesse perto da data. Quando telefonei de novo, ele disse: ‘Rapaz, tu quer mesmo?’ E eu ia perder tempo telefonando pra dizer que queria fazer uma coisa e não fazer? Aí ele me deu o endereço e fui lá no Bom Jardim. No dia 15 de maio, meu aniversário, tava nublado e não deu pra saltar. Três dias depois, limpou o céu e aconteceu. E foi bom. Só é ruim na hora que a gente sai do avião pra pular no nada, né? Com cinco segundos que abre o paraquedas. Mas eu gostei. Quando completar 90, vou de novo.”

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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