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"É dose você ser o que é. Não é fácil"

Com Adísia Sá Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
03.mai
2017

Ontem, hoje e sempre

Atenta ao tempo, Adísia foi a primeira repórter do Ceará, é a “mãe da comunicação” do estado e sempre será essencialmente jornalista

Até agora, é meio século destinado à profissão, mas ainda contando. Porque, mesmo aos 87 anos de idade, Adísia Sá não consegue largar o jornalismo: já foi repórter de jornal, radialista, apresentadora de televisão, professora, ombudsman, escritora e hoje segue como comentarista de rádio. E não quer parar. “Gosto muito de jornalismo. E faria tudo de novo”.

Nascida em Cariré, veio para Fortaleza ainda criança. A família abriu uma pensão na Rua Senador Pompeu que, na época, era conhecida como a Rua da Imprensa. Talvez tenha sido o crescer vizinha a jornais que tenha despertado na menina a veia de jornalista. Ou talvez tenha sido apenas uma coincidência, pois Adísia acredita que a profissão já está dentro da pessoa.

“A coisa que exijo de quem quer ser jornalista é que queira ser repórter porque já é dentro de si. Porque não seria outra coisa se não fosse jornalista. Já me perguntaram um milhão de vezes o que eu seria se não fosse jornalista. Sempre respondo: seria infeliz”.

Direta, Adísia não gosta de rodeios. Também sabe a importância que tem e dispensa a falsa modéstia. Quando ouve que foi importante para a história da imprensa cearense, jornalista que é, se atém ao fato e logo corrige: “do Brasil”.

Mas a objetividade não a impede de fazer brincadeiras e ser bem humorada. Vaidosa, diz que adora dar entrevista, que quer contar sua história, ser eternizada, ter seu nome numa rua. “E volto pra apertar a garganta do prefeito que não botar!”, acha graça.

Não sente saudades, pois fez tudo o que tinha que fazer e viveu tudo intensamente. Também não tem arrependimentos, pois sempre foi fiel a si. “E é dose você ser o que é. Não é fácil”.

Entrevista

Vós – O que lhe instigou a entrar no jornalismo?
Adísia – Sempre vivi cercada de jornais e tinha meu jornal, né? Era o MABS – Maria Adísia Barros de Sá. Primeiro, eu fazia manuscrito, depois veio a máquina de escrever, que era daquelas máquinas enormes. Meus irmãos até mangavam de mim e perguntavam: “quantos quilos você escreveu hoje?”. E saía um palavrão que ficava por isso mesmo. Isso porque, quando comecei a escrever, não tinha papel, então usava o papel que embrulhava os pães.

Vós – E quando decidiu que iria seguir essa carreira?
Adísia – Foi quando o Jerônimo Vale me levou pra escrever no jornal O Estado, que era vizinho à minha rua. Depois passei pra Gazeta de Notícias, onde me profissionalizei e fiquei uns quinze anos, mais ou menos. Depois não parei mais! Fui pr’O Povo, fizemos um movimento pela criação da Faculdade de Jornalismo… Tinha até um grupo de colegas que dizia “Adísia, você é maluca! Vai abrir uma escola e formar gente pra tomar o nosso emprego”. Eles tinham medo da concorrência. Mas convivemos com as gerações, cada um tem seu talento. E, da minha geração, não tem mais ninguém. Uns já se foram e outros abandonaram a profissão. E não tinha mulher! A Geraldina Amaral já existia, a Jandira Carvalho, a Margarida Sabóia de Carvalho… Mas eram simplesmente colaboradoras, enquanto eu me profissionalizei imediatamente.

Vós – Antes mesmo de dar aula de jornalismo, a senhora já havia sido professora. Foi essa experiência que gerou a vontade de criar o curso?
Adísia – Foi! Durante muito tempo, fui professora de Filosofia. Mais na frente, a gente sugeriu de criar o curso de jornalismo para principiantes. Fizemos palestras e houve uma procura imensa. Foi uma correria. Ou seja, havia um potencial desejoso para o curso. Foi quando o pessoal disse que ia gerar concorrência, no que respondi: “Menino, toda geração tem que acrescentar algo”. E deu certo, porque me juntei com um grupo bom de professores da velha guarda e muitos profissionais foram pra lá. Tem até o livro contando essa história, o “Ensino de Jornalismo do Ceará” (livro organizado por ela, lançado pela Edições UFC em 1979 e atualizado em 2011).

Vós – Quais são as principais mudanças que a senhora vê de quando começou sua carreira e de agora?
Adísia – Ah, mas tá muito diferente! Quando comecei, primeiro que era manuscrito. Depois, máquina de escrever e agora o computador. Junto com isso, a vinda de novas técnicas e uma geração que queria ser jornalista. Porque, antigamente era uma vaidade, por conta do prestígio de onde chegava; era uma festa. Hoje é uma profissão valorizada, mas como outra qualquer.

Vós – A senhora começou como jornalista policial…
Adísia – Foi porque o Seu Olavo (Araújo) queria me testar, pra saber se eu era jornalista mesmo ou se só queria aparecer. E eu passei por um momento muito difícil quando tive que entrevistar um padrasto que violentou uma criança de dois anos. Tudo aquilo me abalou muito e eu disse pro Seu Olavo que não queria mais trabalhar com o policial. Aí passei pra redação propriamente dita, depois fui locada como repórter parlamentar, onde fiquei por muitos anos cobrindo Assembleia, Câmara…

Vós – E qual era a área que gostava mais?
Adísia – Gostava muito do noticiário diário. E do parlamento, do debate. Isso me enriqueceu muito porque, de repente, vi os contraditórios. E não há conhecimento sem o contraditório. Porque, senão, passa a ser um dogma, uma religião. E o jornalismo não é isso, ele é universal. Começaria tudo de novo!

Vós – Um detalhe que também chama atenção na sua trajetória é à respeito da sua escolha de não constituir família. Como foi ir contra um certo padrão social que ainda era bastante forte na época?
Adísia – Minha mãe era contra. Ela queria que eu fosse hoteleira, dizia que eu seria uma moça rica. Eu dizia que não queria ser rica; que queria ser feliz e que ela desse o hotel pra quem ela quisesse. Pra ser jornalista, tive o apoio do meu pai. Quando comecei ainda como colaboradora n’O Estado e depois passei pra Gazeta, a mamãe disse: “Não vai trabalhar, não, minha filha! Só tem homem nesse jornal”. Aí, meu pai, que era uma pessoa muito calada e a única coisa que se ouvia dele era “sim, senhora”, respondeu: “Como é a história? Deixa a minha filha viver a vida dela! Você quer ser jornalista? Então você vai ser jornalista! Primeiro, porque você é filha de homem. Outra coisa, o que você mais vê aqui, na pensão, é homem. E vai ter medo de homem? Ah, vai… Você vai ser jornalista!”.

Parece incrível, né? Sendo o homem a dar a força para trabalhar com homem. E eu só pensei: “E o meu pai fala? Eu pensei que ele só dizia ‘sim, senhora’” (risos).

Vós – E como era ser praticamente a única mulher dentro do mercado?
Adísia – Trabalhei durante muito tempo sozinha, com as colaboradoras. Eram poucas mulheres mas, em compensação, hoje em dia se você entrar numa redação, tem mais mulher do que homem. Porém não foi difícil pra mim, porque houve um fato que me tornou pública. Fui designada pelo Seu Olavo para entrevistar um inspetor chamado Cajazeira. Até então, nunca tinha entrevistado e ele saiu de lá com quatro pedras nas mãos. Fui direto pra redação chorando. No outro dia, Seu Olavo colocou na manchete: Jornalista agredida. Depois todo mundo foi querer saber quem era essa jornalista e isso me projetou muito.

Vós – O que é ser um bom jornalista?
Adísia – Primeiro, é não fazer escolha de matéria. Segundo, não se passar para a matéria. O fato é o fato e nada mais do que o fato. Você não tem o direito de acrescentar nada, salvo se você for comentar. Lembro de um episódio que aconteceu quando o Luiz Beltrão veio dar uma palestra pra gente e houve uma pancada do lado de fora. Todo mundo correu pra ver o que tinha acontecido e um cara disse que tinha sido um carro que tinha caído num buraco, no que o outro disse: “Não, senhor! Nós aqui temos denunciado todos os dias que, em frente ao nosso prédio, tem um buraco que nunca foi consertado”. Esse que era o jornalista! Tem que entrar na essência do fato. Eu digo sempre: a notícia é o ontem, o hoje e o amanhã. Não faça uma matéria sem pensar nessa tridimensionalidade, no que aconteceu, nas consequências e o que se espera que isso possa gerar.

Vós – A senhora foi jornalista por 50 anos. Apesar de não ter abandonado a profissão, porque ainda é comentarista, como é mudar de lado e deixar de ser a pessoa que faz a entrevista para a que é entrevistada?
Adísia – É muita emoção virar notícia! (risos) A gente vive de fazer e de repente vira… Me sinto inteiramente vaidosa. Quem não quer ser entrevistado? A pessoa que diz que não quer, é por dor de cotovelo porque nunca foi e tá doido pra ser. (risos) Quem é que não quer que os outros saibam da gente? Agora, não mascare o que é.

Vós – Seu nome muito importante na imprensa não só cearense, como na brasileira…
Adísia – (Interrompe) Eu sei que sou.

Vós – … como a senhora vê esse reconhecimento?
Adísia – Apenas é o reconhecimento de uma coisa que foi feita ontem e que não traí porque continuo fazendo hoje e com toda a certeza estarei fazendo amanhã. E é tão difícil você encontrar alguém que tenha um passado e que viva à sombra dele, porque você não se desvencilha dele. Acho isso uma coisa fantástica e ao mesmo tempo cruel. O tempo tanto lhe dá coisas agradáveis como desagradáveis. E não perdoa.

Vós – Na sua opinião, qual foi a sua maior contribuição?
Adísia – Ter lutado pela criação do curso de jornalismo. Foi o que me deu mais prazer, porque vi frutos, né? Aliás, tem frutos demais.

Vós – A senhora diz que sempre gostou de política. Isso fez com que levantasse alguma bandeira?
Adísia – Gosto de política porque fui comentarista durante muitos anos e vivi no meio deles. Mas nunca quis ser política. Nunca fui comunista, fascista, integralista, pessedista. Nunca fui de partido. Sempre o pessoal da esquerda dizia que eu era da direita e o pessoal da direita dizia que eu era da esquerda. Cada um interpreta o mundo pela sua ótica. Mas sabe o que sou? Adísia Sá! Se você tiver medo desses batismos que lhe dão, você não vive. Sempre fui o que sou e aquilo que acredito. Às vezes, a gente paga caro, mas não interessa. Acho que o ser humano veio pra vida pra ser feliz.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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