Vós

menu
Histórias

Aedes aegypti: o velho conhecido que ainda temos que combater

Por Luiza Carolina Figueiredo, Gabriel Gonçalves

Acredita em Vós

31.mar
2017

Dependendo da quantidade de anos que você já viveu, é bem provável que tenha pelo menos um “velho conhecido”. Alguém que, mesmo sem muita intimidade, há um certo domínio sobre algumas características, afinal, é um longo período de saber da existência e até, talvez, certa convivência. E não importa se é contínua ou constante, pois esse alguém, mesmo longe, tem uma presença marcante e sabe bem se fazer notar.

Entretanto, essa história aqui muda um pouco de rumo quando há finalmente o encontro com o velho conhecido. Em vez de festa e alegria típicos do reencontro de amigos e pessoas queridas, essa figura está mais para um penetra ou até mesmo um hóspede indigesto que se torna cada vez mais inconveniente. Chega o momento em que é preciso fazer algo a respeito.

Nessa breve analogia, o velho conhecido é o mosquito Aedes aegypti. Velho, porque já se fala dele no Brasil desde o final do século XIX, quando a principal preocupação era a transmissão de febre amarela. Ele foi controlado, mas há cerca de 40 anos, com o relaxamento das medidas de contenção do mosquito, ele voltou e a dengue ganhou destaque e, de uns dois anos pra cá, os riscos mais graves são os de contaminação com os vírus da zika e da chikungunya.

A fêmea do Aedes aegypti tem saliva anestésica e precisa de sangue para se alimentar e para maturar a casca dos ovos quando vai procriar. Se a fêmea pica alguém infectado com algum vírus, ela também é infectada, o vírus se reproduz dentro dela e ela o transmite para as próximas pessoas que picar, além de produzir ovos contaminados.

“O grande problema do mosquito é que tem fases do seu ciclo de reprodução que a gente não tem formas eficazes de combater. Por exemplo, o ovo do Aedes aegypti é colocado fora d’água, grudado na parede, com uma ‘cola’ muito boa, que não solta fácil. A fêmea tem a percepção que essa superfície vai ser coberta de água e aquele ovo pode ficar ali por mais de um ano. Você pode jogar inseticida, fumaceiro, o que for, que não vai acontecer nada e, se um ano depois, ali for coberto de água, em sete dias nasce um mosquito. Eis o problema: pra combater, ou você não deixa ser coberto de água, ou toca fogo, ou esmaga o ovo, que tem o tamanho da ponta de um lápis bem fininho”, explica o professor Ivo Castelo Branco, Coordenador do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Para além da dificuldade de encontrar uma maneira eficaz de interromper o ciclo do mosquito, o professor também alerta para o problema da mobilização sazonal no que diz respeito ao combate à doenças, apenas durante o período de chuvas. Ele também ressalta que a forma de combate deve variar de lugar para lugar, pois cada região tem suas diferenças e peculiaridades, além da importância do trabalho individual.

“Enquanto a gente não tiver a consciência de combater o mosquito do mesmo jeito que faz com rato, barata, formiga e mosca na casa da gente, a situação não vai se resolver. Porque essas ‘pragas’ a gente combate e não espera por Prefeitura, Estado ou Governo Federal. Temos que ter essa consciência, mas os nossos governantes também têm que fazer pesquisa, estudo e uma orientação mais direcionada para as peculiaridades de cada local, para ter uma efetividade, além de uma continuidade de combate de pelo menos dez anos, independente de estar tendo caso ou não”.

De acordo com Caio Cavalcanti, coordenador do Comitê Gestor de Políticas de Enfrentamento à Dengue, Chikungunya e Zika, o Governo já se mobilizou criando estratégias diferentes para controlar as doenças. “Por muito tempo, o setor da saúde ficou como o principal responsável por combater o mosquito, como de tratar os doentes. E de alguns anos pra cá percebeu-se que era necessário envolver outros setores tanto dos governos, quanto da sociedade”.

No Ceará, desde 2015, funciona o Comitê Gestor de Políticas de Enfrentamento à Dengue, Chikungunya e Zika, que é composto por secretarias estaduais e representantes municipais e do Governo Federal, discutindo e implementando ações conjuntas e articuladas para combater o Aedes aegypti.

“A gente trabalha fortemente com a visita do agente de combate às endemias. Só que é impossível o agente fazer visitas toda semana na casa de todos os moradores em todo o país. Se parar pra pensar, só em Fortaleza tem 2,5 milhões de habitantes. Por questões operacionais e de custo, não tem como, além de gerar uma dependência muito forte. Então, desde que foi criado o Programa Nacional de Combate à Dengue, são feitas, em média, seis visitas anuais a todos os domicílios, em todos os municípios, com apoio do Estado e do Governo Federal. Mas não basta, pois o ciclo do mosquito é semanal, por isso é importante que a população também se empodere”.

Uma das iniciativas realizadas pelo comitê foi a criação das Brigadas de combate ao Aedes aegypti, que realizam vistorias semanais nos prédios públicos para quebrar o ciclo do mosquito e evitar que ele nasça, eliminando os focos e criadouros. “E nós estamos levando esse conceito para outras instituições, como prédios públicos também de municípios, federais, instituições privadas, empresas, comércios e condomínios, incentivado a criação de brigadas sociais e comunitárias nas ruas, nos bairros, nas escolas, onde as pessoas se responsabilizam por essa fiscalização, mas recebendo o apoio dos agentes de endemia daquela região. É uma ação compartilhada. É um incentivo à participação da população”.

Responsabilidade compartilhada

Apesar dos seguidos anos de campanha de conscientização e de uma maior mobilização popular no combate ao Aedes aegypti, Caio fala que ainda há uma parcela da população que “não acredita que um mosquitinho daquele tamanho é capaz de causar uma doença que vai deixar, por exemplo, uma criança com problemas psicomotores, no caso da zika e da microcefalia. Muitas até sabem que isso acontece, mas elas não incorporaram esse combate à cultura. Entre saber e agir, atuar, incorporar no cotidiano, ainda é um desafio. Na verdade, a maior parte das pessoas ainda não faz esse dever de casa”.

Infelizmente, você fazer o seu “dever de casa” não garante a sua segurança. A auxiliar de serviços gerais, Regimere Gomes, 38, teve dengue há um tempo, então sempre foi atenta em casa para não deixar brechas para o mosquito procriar. Por sorte, seu vizinhos têm o mesmo cuidado. Mesmo assim, foi picada novamente pelo Aedes aegypti e, desta vez, foi infectada pelo vírus chikungunya.

“Peguei no trabalho. Eu e outras cinco pessoas. Trabalhei no dia 5 de dezembro e no dia 6 não conseguia mais nem andar, sentindo dor debaixo dos pés e com 39º de febre. Fui parar na UPA e eles começaram a tratar como dengue. Depois fui pro hospital e fiquei fazendo exame de dois em dois dias até que deu chikungunya aguda. Passei dois meses toda inxada, com dormência na boca, sem conseguir comer direito. Passei dias chorando. Andava me segurando nas coisas”.

Quatro meses depois, Regimere ainda não foi liberada pelos médicos para voltar ao trabalho devido às sequelas da doença: está com artrose nos dois joelhos e bursite no ombro, sendo acompanhada por um fisioterapeuta e reumatologista. “Os dias de chuva ainda me afetam muito por causa da frieza. Fico com os pés e os joelhos inchados”.

E se o mosquito já é uma grande dor de cabeça para quem se preocupa com a sua saúde, imagina para quem está grávida. Entrando no sexto mês de gestação, a assistente comercial Marianna Coelho, 30, não sai de casa sem um repelente. “Uma das primeiras coisas que eu fiz quando descobri que estava grávida foi comprar um de uma marca caríssima porque diziam que tinha que ser aquele. Até que falei com a minha médica e ela disse que poderia ser qualquer um; a diferença é o tempo de duração que eles têm e na quantidade de vezes que eu vou ter que passar de novo”.

E ela ressalta: é tão importante que o pai também deve ter os mesmos cuidados para se proteger de uma infecção pelo mosquito. “Eu insisto pro meu marido também usar repelente porque muita gente esquece, ou não sabe, que a zika também é sexualmente transmissível”.

Marianna também fala que conversa bastante e pede orientações à ginecologista, “para não ficar neurótica”. “Não me privo de muita coisa, como cor de roupa ou usar só peças longas, mas me preocupo em observar por onde ando. Prefiro ficar em ambientes fechados a abertos, porque são mais controlados, e sempre analiso se os locais parecem seguros ou podem ser focos de doença”.

Serviço

Na quarta-feira (29/03) foi lançado na UFC o aplicativo Aedes em Foco. O app segue a filosofia do engajamento popular através do mapeamento de possíveis focos residências ou vizinhanças, além de fornecer informações sobre como proceder ao longo do ciclo de vida do mosquito. O aplicativo também permite a comunicação automática com o poder público, que poderá tomar providências de forma mais ágil. A ferramenta, além das brigadas, disponibiliza notícias, denúncia, perfil, postagem, atendimento e mapa de ocorrências.

O aplicativo é gratuito e já está disponível para Android e iOS em aedes.ufc.br

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Gabriel Gonçalves

Gabriel Gonçalves

Ver Perfil

É fotojornalista desde 2008, tendo passado pelos três maiores jornais de Fortaleza. Trabalha com cinema, tenta ser músico, e à noite é facilmente encontrado servindo cerveja em alguns vários bares da capital alencarina. Atualmente atua como freelancer e em parceria com coletivos de produção audiovisual, ONG's, e entidades de direitos humanos. Acredita que a fotografia é meio e fim para a revolução social.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar