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[Afetos] - No carrinho do galego

Por Lua Santos, Moesio Fiuza
12.jan
2018

– Mãe! Estão tocando a campainha!
– Atende aí. Avisa que eu já vou descer. Deve ser o galego. Você viu aquela notinha que estava aqui em cima?
– Deve ser quem???

Lembro bem desse dia em que descobri o que era o tal do galego. Curiosa que só, avisei pelo interfone que já ia e fui procurar a tal notinha enquanto minha mãe calçava as chinelas para descer. Era um pedaço de papel no qual estava escrito “Francisco Gonçalves Galego”. Logo abaixo, o produto comprado – duas banquetas altas – e o valor, seguido de linhas numeradas. Entreguei o papel a ela e fiquei observando minha mãe ir atendê-lo pelo cobogó da escada. No portão, um homem de meia idade esperava. Próximo a ele, um carrinho cheio de bancos dependurados e banquetas dos mais variados tipos, além de vários espelhos de diferentes tamanhos. Ela entregou a notinha e o dinheiro; ele escreveu qualquer coisa e devolveu o papel. Quando ela voltou para casa, não resisti e perguntei: “Mãe, o que é galego?”.

Menina da cidade grande que eu sou, foi assim, na época com a “avançada” idade de dezesseis anos, que eu descobri a existência desse profissional do qual eu nunca tinha ouvido falar antes: o galego. Sim, “galego” é um vendedor, uma espécie de mascate, mas não qualquer tipo de ambulante. Ele não tem ponto fixo: é daqueles que vão de porta em porta, oferecendo as mais diversas utilidades: panelas de alumínio, bancos de madeira, espelhos, mesinhas, cabideiros… Quase uma versão fixa em uma só cidade do famoso caixeiro-viajante.

A versão mais recorrente conta que o termo vem do começo do século passado, quando assim foram chamados os turcos e árabes que trabalhavam com o comércio de porta em porta nas cidades cearenses em pleno crescimento. O comerciante vindo de fora, de pele clara, independente da nacionalidade, ali estava: era galego!

Parei para observar minha casa pouco antes de escrever este texto e ver o que havia sido comprado com galegos. As banquetas da sala, o espelho do meu quarto, o cabideiro da minha mãe… Várias eram as coisas que ela havia adquirido com estes vendedores pouco após virmos morar no Centro. Hoje em dia, topar com um galego é difícil, pelo menos um desses que andam com carrinhos ou bicicletas oferecendo seus produtos. Nunca mais os vi pelas ruas que ficam perto de onde moro. Provavelmente eles andem mais pelas periferias da cidade.

Mas, vejam vocês as coincidências da vida: neste exato momento, ouço um carro de som a anunciar que “o carro da economia está passando na sua rua”, oferecendo panelas de alumínio, potes de plástico, produtos de limpeza, borrachas para panela de pressão, desentupidores de fogão – e essa justa sequência de itens me despertou uma memória de infância, quando passava um homem na rua da casa da minha avó a entoar sua venda musicada “Vendo borracha para panela de pressão… Desentupidor de fogão…”. A mente é mesmo uma coisa curiosa, não?

O galego é uma daquelas profissões que nos remetem aos tempos em que imperava a confiança no lugar do automático “é crédito ou débito, senhor?” nosso de cada dia. Dos tempos em que ter o nome muito tempo escrito na notinha ou no caderninho da bodega era suficiente para causar vergonha no mau pagador. Tempos de um antigamente não tão antigo, mas que já foi vorazmente devorado pela liquidez: do tempo, do crédito, das relações humanas.

O carro de som anunciando panelas não seria, então, o novo galego? Que trocou o lento caminhar empurrando seu carrinho entre as ruas da cidade, anunciando seus produtos no gogó sob o forte sol de Fortaleza, pela Kombi velha e pelo alto-falante, estacionando em esquinas residenciais estratégicas? O caderninho fora trocado pelo dinheiro vivo; afinal, como confiar em tempos como esses que vivemos?

Aliás, voltando à minha história inicial, a notinha que o galego devolveu à minha mãe era de parcelamento. A cada visita, ele anotava o valor pago por ela e o quanto faltava. O valor não precisava ser fixo: pague o quanto você puder e ele fica passando semanalmente na sua casa até completar o preço do objeto comprado. A garantia de que você vai pagar? A sua palavra. Sim, o galego é uma profissão dos tempos em que a palavra de uma pessoa bastava. Tempo de inocência, alguns dirão. Eu prefiro as palavras de Chico Buarque: tempo da delicadeza.

Colaboradores

Lua Santos

Lua Santos

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Formada em Letras/ Literatura e Jornalismo, adora observar as pessoas e ouvir conversas em praças de alimentação de shoppings e locais públicos. Mentalmente, inventa histórias para cada uma que escuta e sonha em um dia contá-las. Está sempre anotando alguma coisa e tem um calo no dedo de tanto escrever.

Moesio Fiuza

Moesio Fiuza

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É um latino-americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo de Maracanaú, que ouve Belchior, BB King, James Cotton e Peg Leg Sam aos brasileiros que, nos anos 70, gravaram canções em um inglês horroroso - e que ama os Beatles e os Rolling Stones. Ilustrador, cartunista e diretor de arte.

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