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[Afetos] - O Sino

Por Jéssica Welma, Igor de Melo
09.jan
2019

“Vivos voco, mortuos plango”

(Chamo os vivos, choro os mortos. Antiga inscrição de sino de igreja)

Domingo, dez horas da manhã. Desço do ônibus e o movimento na Casa Paroquial em frente à igreja da Taquara é grande. Lugarejo que se preze não muda, pode ser em 1980 ou 2018, todo mundo sabe quando morreu alguém. Não tem jeito, aquilo vai mexer com a rotina do dia. Chego à casa dos meus avós, em frente à praça, a cinco casas da Casa Paroquial.

— Quem morreu, vó?

— Foi o Dé, filho do Chico Seguro, da Socorro.

— Morreu de quê? Era novo?

— Era. Diz que tinha uns 40 anos. Foi coração.

Domingo. Quase hora do almoço. As tias chegam.

— Quem morreu, mamãe?

— O Dé, filho do Chico Seguro, da Socorro.

— Valha, morreu de quê? Era tão novo.

— Diz que foi coração.

Domingo. Duas horas da tarde. Hora do cafezinho. Chega a vizinha, Titita.

— Ei, Selma, tu sabe que horas vai sair o enterro?

— Sei não. Não vi movimento da funerária ainda.

Domingo. Três horas da tarde. A igreja estava fechada.

— Vó, não vão levar o defunto pra rezar na igreja?

— Levam mais não. Fica tudo na casa paroquial.

Foi instalado o espanto. Como assim não levam o defunto para a igreja?! Isso significava certamente que o sino não seria tocado. Aquilo estava muito errado. O sino da igreja avisava quando vinha defunto, podia ser até um morto de outro país, mas era o mote para mobilizar os moradores. Era um clássico, um símbolo que conectava vida e morte.

— O sinal do defunto era dummmm, dummmmm — imita minha vó — Quando era um anjinho que passava, o Zé Batista era quem ia bater. Fazia dum, dum, dum, dum, dum, bem aperriado.

Zé Batista era o vizinho, pai da Titita, falecido há umas duas décadas. Fazia caixão para criança que morria quando coisa rara era alguém ser enterrado em caixão de madeira.

— Às vezes passava morto dentro de rede que chega dava gastura — relembra Titita, fazendo careta de quem viu o que as gerações com menos de 30 certamente não chegarão a ver (assim espero).

A maioria dos enterros chegava à igreja da Taquara por volta das 15 horas. A conta era somar uma hora de missa mais o tempo até chegar ao cemitério sem pegar sol quente no percurso. Da calçada da casa da minha avó dava para acompanhar todo o movimento. Há duas escadas na casa dela. Uma dá acesso à bodega (uma mistura de bar com mercearia, para os pouco habituados ao vocabulário cearense); a outra, à casa.

Na bodega, se juntavam os homens que se diziam pouco afeitos a rezas. Iam tomar uma cachacinha em memória do morto ou da morta, falar mal de quem se foi e lamentar que um dia chega a vez de todo mundo. Lá era o lugar certo de catar história sobre quem chegava dentro do caixão: tinha morrido de que, fazia o que da vida, era filho de quem…

Às vezes, sobrava para a escada da casa. De repente chegava alguém correndo atrás de álcool para acudir um parente desmaiado. Ou vinham pedindo para ir ao banheiro, para trocar a fralda de criança ou para pedir um copo d’água e ficar jogando conversa fora até o sino tocar.

Dummmm, dummmm. O sino avisava que o defunto ia sair. Quem acompanhava o cortejo seguia para a igreja. Os demais curiosos se amontoavam pelas calçadas. Era a hora também dos choros mais altos. Chorava o sino, choravam as pessoas.

— Isso é coisa desse padre. Daqui a pouco não vão mais querer que toquem o sino nem na hora da missa. Tem gente que reclama de tudo — reclama Titita.

— Um dia desses chegou um morto aqui que quem pediu para não tocar o sino foi a família. Parece que o homem era bandido e vieram enterrar lá de Itaitinga. Não queriam alvoroço — conta a vó.

— Vou indo que vou me arrumar para ir no enterro. — A verdade é que Titita não perdia um cortejo. Precisava nem conhecer muito bem o defunto.

Já eram quase quatro horas da tarde e nada de igreja, nada de sino. O sol já sumia e a família foi se ajeitando pela calçada. Chegou o carro da funerária e o ônibus.

— Mas será possível que não vão tocar o sino? — eu estava indignada. Como assim um velório na Taquara sem o sino tocando? — Se eu morrer, vocês me enterrem na Taquara, mas mandem tocar o sino. Se não for pra ser assim, eu nem morro.

— Deixa dessas conversas, menina!

— O cortejo já vai sair?

— Já, já, tia, o carro da funerária chegou.

— Pois me avisa quando for sair.

Olha a falta que o sino faz!

Quatro horas da tarde. Titita passa toda arrumada para a Casa Paroquial. Na entrada, se encontra com dona Lozinha — na ausência do padre, que quase nunca está na Taquara, é ela quem encomenda a alma dos mortos.

Vinte minutos depois, começam a sair as pessoas em direção aos carros. Alma encomendada. (Onde estavam os sinos para abrir as portas do céu?) A praça está cheia de curiosos e familiares. Hora do cortejo. Definitivamente não iam tocar o sino. Já ia dar um grito chamando as tias, quando, lá do além, escuto: dummmmm, dummmmm, dummmmm. Finalmente o sino! Uma alma caridosa entrou na igreja e puxou a corda do bendito. Aquela alma se foi em paz. E em paz a minha alma ficou.

Colaboradores

Jéssica Welma

Jéssica Welma

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Apaixonou-se por escrever quando mandou uma cartinha para o Papai Noel aos 5 anos de idade. Jornalista, vive procurando formas de narrar melhor a história das pessoas. Adora ouvir, especialmente relatos "de interior" (se tiver um bom causo para contar, a procure). Ama literatura, amarelo e ballet.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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