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Histórias

Amarrar o tempo em imagens para contar histórias

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
12.mar
2019

O apartamento de paredes brancas com cores quentes nos detalhes proporciona sensação de aconchego a quem passa pela porta de entrada. Mas o que salta aos olhos à primeira vista são os quadros fotográficos distribuídos ordenadamente pelas paredes; eles mostram que naquela casa a arte de escrever com a luz é, no mínimo, apreciada. Mais a frente os livros colocados numa estante que recebe luz própria e reflete também o afeto pela literatura. Fotografia e escrita andam ali lado a lado, e espelham algumas características de quem ali reside.

Ele nasceu na capital do Piauí, mas em seguida foi levado para o sertão, onde a família morava. Foi no antigo Barreiro Branco, hoje município de Simplício Mendes, onde foi criado e criou raízes; não é à toa que se considera sertanejo, pois foi com a vivência nessa realidade que Sérgio Carvalho levou para a vida os valores do Sertão.

Há 20 anos no Ceará, ainda carrega na voz as nuances de um sotaque típico do interior. Ele tem a fotografia como projeto de vida, mas essa relação começou devido ao trabalho como auditor do Ministério do Trabalho. Em 1996 Sérgio entrou em um grupo especial de fiscalização para combater o trabalho escravo no país, principalmente na região amazônica, e foi ao entrar em contato com essa realidade que decidiu que iria registrar o que encontrava.

“Passei a ter acesso a esses lugares mais difíceis, conhecer essa realidade e, depois que terminei a primeira viagem, quando eu voltei, decidi que iria fotografar a história dessas pessoas porque acreditava que era algo que deveria ser mostrado. Então comprei uma câmera e na segunda viagem já levei ela e não parei mais. Meio que autodidata, passei a fotografar quase que diariamente. Tem uma necessidade dentro do meu trabalho da fotografia para registrar o drama dos trabalhadores escravizados e do trabalho infantil.”

Sérgio tem a fotografia como a sua linguagem artística. “Enxergo a fotografia como uma narrativa visual. Não sou escritor, então uso as imagens para narrar minhas histórias.” Além das fotografias que denunciam os trabalhos análogos à escravidão no Brasil, o fotógrafo tem projetos autorais que realiza no seu tempo livre.

“Sempre estou pensando algum projeto e sempre voltado para livros, então é da ideia para a prateleira. Pra mim, a melhor forma de expressão e internalização da fotografia é por meio da exposição ou do livro, o livro mais pela permanência, porque tanto as exposições, como as redes sociais são processos transitórios, mas o livro permanece e existe uma valorização da narrativa visual, você pode contar uma história, um conjunto de imagens que podem expressar o que você quer transmitir.”

Ao todo são seis livros publicados individual e coletivamente. Mesmo com a dificuldade de realizar publicações no Brasil, Sérgio acredita que ao materializar as fotos elas deixam de ser apenas documentos e se transformam em arte.

O novo projeto do fotógrafo começou em 2007 e gira em torno do “mito” do padre Cícero. O universo místico em relação à religiosidade que envolve o padre é vista por Sérgio como algo “muito forte” e, por isso, movido pela curiosidade, quis conhecer o percurso difícil que as pessoas que depositam sua fé no santo fazem todo ano na romaria. “Tive a oportunidade de ir à uma romaria em 2007 e desde então vou todo ano porque aquilo me cativou, e é um vício. A fotografia é isso, você se encanta e quer dar continuidade ao trabalho.”

Santo Sertão é a reunião desses ensaios que mostram a religiosidade sertaneja por meio de duas perspectivas. O primeiro é o O Santo Sepulcro: com fotografias todas em preto e branco, Sérgio registra o percurso de estrada de pedra e areia que adentra o sertão. O trajeto tem cerca de 3 km e acontece no período de seca. “É o que o sertanejo está acostumado e você vê romeiro de todos os cantos, que vão todos anos, sem falta, pagar uma promessa ou agradecer por uma graça conquistada. Você enxerga no semblante, na dureza do olhar, no sofrimento que está estampado no rosto do sertanejo, toda essa crença e essa fé que, por mais que seja difícil a vida, eles continuam realizando este ritual.”

*Fotos Sérgio Carvalho

O segundo ensaio contrasta o primeiro. A sala dos santos é composta por fotografias coloridas, com “cores que saltam aos olhos” porque se referem às paredes com fotos e imagens dos santos. “Segundo a lenda, o padre Cícero pediu para esses devotos, aos romeiros da ladeira do horto, que doassem à sala ao sagrado. E aí tem um processo de renovação todo ano. Eles mantêm a sala pintada com cores bem fortes e criam em suas paredes uma corte celestial bem particular, com seus santos favoritos e fotos de parentes.”

Sérgio relembra que o processo das salas dos santos é “interessante”, pois é um processo de renovação das cores que envolvem todos os vizinhos, e ao mesmo tempo em que o devoto enxerga esse ritual como obrigação ele sente prazer ao realizar.

*Fotos Sérgio Carvalho

Além do Santo Sertão, que está em fase de captação de recursos para a publicação do livro e tem exposição marcada para agosto, o livro mais recente de Sérgio e o seu “xodó do momento” é o Barreiro Branco, composto por fotografias que mostram a origem do fotógrafo lá do sertão do Piauí. Barreiro Branco era um povoado que virou cidade, hoje conhecida como Simplício Mendes e, apesar do tempo transcorrido, Sérgio quis registrar o que permanecia igual desde que saiu do povoado.

“Comecei a fazer esse trabalho em cima das caminhonetes coloridas, movidas a gás de cozinha que circulam nessas cidades, principalmente em dia de feira. Esse ensaio eu nomeei de “o tempo amarrado no poste”, em homenagem ao poema do Manoel de Barros. Depois passei a fotografar paisagens e personagens, pessoas queridas que conviviam com meus pais e fazendas. Comecei a fazer um trabalho de pesquisa e captura de imagens desses lugares que permaneceram como antes, apesar do tempo.”

*Fotos Sérgio Carvalho

Sérgio define sua fotografia como autobiográfica e política, porque tenta retratar o melhor do sertão. “Fui criado no sertão, com valores sertanejos, e a fotografia me abre para conhecer diversas histórias e pessoas que eu não conheceria se não fosse pela fotografia. A minha fotografia é política, minha arte é política, a imagem é política.” Ele não acha que vai transformar o mundo com à fotografia, mas argumenta que ela é instrumento importante de conscientização e transformação social. “Ela pode fazer com que as pessoas reflitam sobre uma realidade.”

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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