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Acordar cedo, andar ligeiro e conversar pouco

Com Zena Por Marcela Benevides, Igor de Melo
14.ago
2018

Nunca estudou e desde que era uma “menina véia” começou a trabalhar com a mãe. Por ser a filha mais velha, não teve escolhas e assumiu o restaurante. Hoje o Zena é conhecido por fortalezenses e turistas e está há 49 anos na rua Meton de Alencar, 549.

Foi com um abraço apertado e um sorriso largo que Zenilda Lopes Bezerra se apresentou. Ela não para. Limpa uma mesa, atende um cliente, responde às perguntas, cumprimenta outro cliente. Sempre no mesmo ritmo, acelerada até para falar, Zena – como é conhecida – esbanja simpatia e faz questão de mostrar cada detalhe do restaurante.

O ambiente, simples e com paredes vermelhas, conta a história de quase meio século do Restaurante Zena por meio das fotografias expostas pelo local. Zena deixa claro que é “louca por foto” e quando está com saudade vai lá e olha. “Foto pra mim é melhor que presente, não tem nada melhor que fotografia.”

Não teve muita escolha senão seguir pela culinária. Como era a filha mais velha e precisava ajudar a mãe no restaurante, acabou seguindo seus passos. Não estudou e nem teve uma infância comum, mas aprendeu a administrar o empreendimento e faz questão de dizer que o sucesso se dá porque, além de ser abençoada, tem “o pé quente para o negócio.”

Apesar do passado difícil, ela afirma que se fosse preciso começaria tudo de novo. E que se não tivesse continuado com o legado da mãe, venderia churrasquinho na esquina porque é o que sabe fazer. De longe é possível perceber que a movimentação na cozinha é intensa, e os pedidos por feijoada e bola de carne não param.

A feijoada, servida com arroz branco, farofa de torresmo, couve e laranja é a queridinha da clientela e só divide o espaço do coração dos clientes com a bolinha de carne, que de pequena não tem nada. Zena é categórica ao afirmar que são essas receitas que pagam as contas, e que o segredo do sucesso é amor e o cuidado na hora de preparar as refeições.

 

 

Vós: O Zena existe há quase 50 anos. Como a senhora começou?
Zena: Agora em junho fez 49 anos. O restaurante é de família, era da minha mãe e depois que ela ficou doente eu assumi. Todo dia eu e Francisca, a cozinheira que está comigo há mais tempo, comprávamos um quilo de carne e temperava. Muitas vezes a gente vendia tudo e não ficava nada pra gente almoçar. E o nome Zena é por causa do meu nome, Zenilda.

Vós: Com quantos anos começou a trabalhar com sua mãe? Gostava desde o início?
Zena: Ah, eu era menina véia (risos). Não tive esse negócio de infância não, tinha que trabalhar. Não fui pra colégio, coisa que muitas crianças da minha idade tiveram e eu não passei por isso. Era um negócio de família e eu era a mais velha, tinha que ajudar. Eu não sei nem se eu gostava, não tive alternativa, tinha que ir e pronto.

Vós: E durante todos esses anos você está sempre presente…
Zena: Eu estou aqui todos os dias. Chego por volta de 5h20, abro e vou para o mercado. 7 horas, se você quiser, já pode comer as bolinhas de carne. Às vezes o pessoal vem da Beira Mar bem cedo só para comer as bolas.

Vós: E qual é o segredo da fama da bola de carne?
Zena: Não tem segredo, acho que é fazer com amor. Qualquer bolinho é preciso botar uma liga, uma massa, um ovo, mas o nosso não é feito assim. A Francisca quando começou a fazer, acho que foi a mão dela e a de todo mundo que ela ensinou, porque nossa receita é só a carne moída, a verdurinha e depois fritamos e é esse sucesso. Ela não sai nenhum dia do cardápio. Depois que fui para o programa da Ana Maria Braga é que ficou uma loucura por essas bolinhas… As pessoas daqui começaram a procurar e os turistas vinham para comer a bola. Dia de sábado eu vendo mais de 1000 bolinhas.

Vós: Quando percebeu que o restaurante estava famoso?
Zena: Foi passo a passo, não tenha dúvidas. Ele pegou mais fama de uns 15 anos pra cá. Tinha uma novela das seis que tinha uma senhora que fazia pastel e as pessoas diziam que parecia comigo. E depois eu apareci em alguns programas de televisão, e desde então fiquei conhecida e comecei a receber turista. Eu sou abençoada, só isso, tenho muita sorte.

Vós: Não recebia turista antes? Como é a clientela de hoje?
Zena: Não, antes eu não sabia o que era turista, era muito pouco, mas agora tem bastante. A clientela já não é mais a mesma porque muita gente morreu ou já tá velha como eu, por isso recebo muita gente nova e turista. Mas eu conheço todos os clientes de rosto, não decoro nome porque é muita gente, mas reconheço. E as pessoas sabem quem sou eu também, às vezes estou na praia e eles vem falar comigo e nem sempre eu sei quem é.

Vós: E a feijoada da Zena, como ficou tão conhecida?
Zena: Acho que pelo cuidado que nós temos de comprar tudo fresco, pegar na mão mesmo e cheirar para ver se está tudo bom. Limpamos tudo com muita atenção.

Vós: E de quem é a receita?
Zena: Eu e a Chica aprendemos com a minha mãe. Quando começamos eu não sabia o que era couve e farofa de torresmo. Mas fui aprendendo, fui fazendo a couve, a farofa, comecei a servir com laranja e hoje faço 100 quilos de feijoada por semana, e é o melhor prato que tem aqui. Antes eu só servia feijoada dia de sábado, mas começaram a pedir dia de sexta e hoje eu vendo de quarta a sábado. É a feijoada e as bolinhas que pagam as contas.

Vós: Dá para perceber pelas fotos que estão na parede e pelos objetos de decoração que a senhora viaja bastante. Costuma trazer algo da culinária desses locais para a sua cozinha?
Zena: Não, não, não… Eu só trago lembrancinha de parede. Nunca, nem pensei e nem quero. Eu gosto da minha cozinha e acho que não tenho que mudar ou inventar pratos, não. Faço uma comida regional, minha comidinha é caseira e não faz mal a ninguém.

Vós: Como definiria o Zena na sua vida?
Zena: São os clientes que fazem a Zena. Se não tiver cliente não tem Zena. Mas depois da minha família, é tudo. Eu saio para vir pra cá e nem lembro do meu apartamento. Aqui eu tenho meu quartinho, e é isso…

Vós: E quem é a Zena além do restaurante?
Zena: Ih, nem sei. Eu sou a Zena. Não sei me definir, não, mas eu sou feliz. Tenho meu lema que é acordar cedo, andar ligeiro e conversar pouco (risos). O restaurante me preenche totalmente, não saberia fazer outra coisa. E se fosse preciso começaria tudo de novo.

Serviço
Restaurante Zena
R. Meton de Alencar, 549 – Centro
Funcionamento: seg a sáb – 7 h às 15 h
Telefone: (85) 3226-3690
Valores Feijoada:
3 pessoas  R$ 90 | 2 pessoas R$ 60 | 1 pessoa R$ 30
qua a sáb
Bola de carne: R$ 8 (uni)

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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