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Aquarela, nanquim e empoderamento!

Por Daniel Brandão
08.mar
2017

Blenda Furtado é hoje uma das melhores artistas que conheço e uma profissional de competência exemplar. É uma honra para mim poder trabalhar com ela. Escolhi conversar com a Blenda como uma forma de homenagear as artistas cearenses por conta do Dia Internacional da Mulher.

Formada como Fisioterapeuta em 2009, Blenda hoje é Ilustradora, pintora, quadrinista, arte finalista, colorista e professora. No mesmo ano da formatura, assumiu como coordenadora e professora de desenho no Estúdio Daniel Brandão e, desde 2013, vem participando, com desenhos seus, de livros relacionados a quadrinhos e ilustração.

Neste bate-papo, vamos conhecer um pouco da carreira dessa maravilhosa artista.

Daniel Brandão – Fala um pouco do teu começo. O que te fez escolher ser artista?

Blenda Furtado – Aprendi a desenhar tendo como ajuda alguns tutoriais, livros de banca e tentando reproduzir os desenhos dos Mangás que comprava. Cheguei em um momento que não sabia mais o que fazer, mas sabia que queria melhorar! Ainda no colégio, um amigo falou a respeito do Estúdio e decidi que iria estudar ali; mas apesar de meus pais sempre me estimularem a continuar desenhando, sempre priorizaram investir financeiramente no meu crescimento acadêmico. Alguns anos se passaram, comecei uma monitoria que me pagava uma bolsa que era o valor da mensalidade do curso e não tive dúvidas: eu mesma investiria nisso.

Algumas pessoas acham que eu sempre escolhi trabalhar exclusivamente com arte, e não é verdade. Me formei em Fisioterapia, trabalhei como professora em um curso atendimento pré-hospitalar, trabalhei como fisioterapeuta desportiva e, durante anos, dividi minha vida entre a arte e saúde como profissão. Chegou um ponto em que me sentia sufocada pelo volume de trabalho, então, no espaço entre um paciente e outro, conversei com um amigo e desabei. Já havia pensado várias vezes em largar tudo, mas lembro que foi exatamente neste dia que escolhi ser artista.

Daniel – Por que você faz arte? Por que aquarela e nanquim?

Blenda – Sempre gostei de desenhar, apesar de na época não pensar que minha vida seguiria este caminho. Era uma criança tímida, não me enturmava bem com outras, havia muitos problemas de aceitação e medo do julgamento do outro. O desenho me trouxe a liberdade de me expressar sem precisar das palavras, e isto certamente me salvou. Faço arte porque preciso dela. Apesar de ter percorrido outros caminhos ao longo de minha vida profissional, este foi o único em que consegui me enxergar realmente buscando a felicidade.

E lembro que minha mãe pintava telas usando tinta óleo com pincéis e espátulas. Ela sempre me estimulou a testar materiais diferentes, o que eu adorava! Cheguei a experimentar tinta óleo, guache, giz pastel, carvão… Mas independente por onde me aventurasse, sempre acabava voltando a dois materiais que conquistaram um lugar especial em meu coração: aquarela e nanquim.

Daniel – Quais foram as principais dificuldades? Elas foram totalmente superadas ou você ainda tem que batalhar no dia a dia para sublimá-las?

Blenda – Vivemos em um mundo que prepara para passar de ano, para passar no vestibular, para conseguir um emprego, mas não necessariamente para o se expressar através da arte. Os pais nem sempre estão preparados para passar isso aos filhos, nem os professores das escolas, e consequentemente o mercado não está pronto para acolher arte como produto. Houve algum amadurecimento quanto à aceitação do artista como profissional desde que decidi me dedicar à arte, mas apesar de perceber a evolução neste quesito, sempre há quem ache que é tudo puro talento inato ou sorte, quando na verdade houve muito estudo, perseverança, investimento, esforço, etc. “Trabalhar em troca de divulgação”, “concurso para escolher um mascote”, e tantas outras propostas aparecem erroneamente como se trabalhar com arte não fosse realmente um trabalho, e é difícil se impor num mercado assim.

Daniel – Fale do seu trabalho atual, de suas conquistas profissionais.

Blenda – Além das turmas de Desenho e Mangá, surgiram oportunidades maravilhosas de trabalhar com pessoas que me trouxeram muito aprendizado. Tive a grande alegria de ilustrar dois livros de RPG (Role Playing Game) da Editora Jambô, um trabalho que me deu bastante orgulho (inclusive de ser publicado na Revista Dragão Brasil).

Fui convidada também a participar de um título regular no Social Comics (Streaming de Quadrinhos). Esta plataforma lançou um selo que está completando um ano este mês: o Pagu Comics. Ele é formado por equipes de mulheres talentosíssimas trabalhando sob o olhar exigente da Ana Recalde, e produzindo diferentes títulos de quadrinhos para o público em geral. Foi bom demais poder conhecer tantas quadrinistas maravilhosas por conta disso (Germana Viana, Cris Peter, Roberta Araujo, e várias mulheres talentosíssimas), dentre elas, as que trabalham diretamente comigo no título “Haole”: a querida Milena Azevedo, Sueli Mendes, Chairim Arrais e Brendda Lima. É maravilhoso participar de projetos tão bacanas!

Daniel – O que é, para você, ser uma artista mulher?

Blenda – Ainda é um desafio, infelizmente. Alguns erroneamente dizem que “artistas mulheres conseguem reconhecimento quando são bonitas”; outros acreditam de maneira equivocada que “se a história é criada por uma mulher é apenas para mulheres”; ou ainda, quando o público que não conhece o autor de uma arte se aproxima de mesas mistas em eventos, podemos encontrar uma grande parcela se dirigindo primeiro ao homem da mesa elogiando as artes e já admitindo que o mesmo é o autor. São comentários e situações que desestimulam, geram indignação em nós (mulheres), e que, pelo menos em mim, reforça a vontade de mostrar trabalhos cada vez melhores para inverter este quadro.

Daniel – Como você enxerga o mercado local atualmente em relação às mulheres? Fale-me de outras artistas que você admira. Você sente um empoderamento feminino nesta área?

Blenda – No mercado local tem crescido o incentivo à produção dos artistas e sua interação com o público com eventos e feiras, e fico muito feliz ao ver que cada vez mais tem aparecido artes de garotas que estão dispostas a mostrar a que vieram com qualidade e profissionalismo. Admiro e sigo nas redes sociais muitos artistas talentosíssimos e com ótima produção, mas sempre que vejo uma arte nova sensacional e ao pesquisar o nome descubro que é de uma mulher, há grande satisfação e um sentimento de que estamos no caminho certo dentro do mercado. Temos localmente as cearenses Juliana Rabelo (com belíssimas aquarelas), Natália Matos, Nádia Lopes, Dharilya Sales (vencedora do primeiro Brazil Manga Awards), e Brasil afora mulheres como Bilquis Evely, Ana Luiza Koehler, Samanta Flôor, Rebeca Prado, Lu Cafaggi, e estes são apenas alguns nomes de brasileiras que tem um material bom demais de ver! Algumas com artes bastante viscerais, outras de acabamento primoroso, outras de traço simples e belo, elas querem mostrar sua história e isto tem afetado o mercado de forma bastante positiva a acolher também o público feminino que consome artes e histórias. As mulheres querem atingir o público em geral, e os homens estão cada vez mais conscientes das mulheres como uma crescente fatia de mercado consumidor nesta área. Não digo que está acontecendo na velocidade que (nós mulheres) gostaríamos, mas sinto o empoderamento na área à medida em que essa lista não se resume apenas aos nomes que citei aqui, mas só cresce ao notar tantas outras que despontam nas minhas timelines.

Daniel – Você tem uma história ligada ao Mangá (estilo japonês de quadrinhos). Os japoneses são as suas principais influências? Em relação às suas raízes, o fato de ser nordestina, cearense, fortalezense interfere no seu trabalho em que medida?

Blenda – Logo no início, minhas principais influências eram quase exclusivamente Mangá. Até hoje, mangakás (quadrinistas de mangá) me trazem muita inspiração e influência. Mas, de certa forma, minhas raízes me trouxeram muita coisa boa, não apenas de fora para dentro (por encontrar material de todos os mercados na banca, e com isso, abrir meus horizontes para estilos do mundo inteiro), mas também de dentro para fora (seja com contrastes sociais, humor, regionalismos ou pelas relações humanas que temos aqui de uma maneira tão forte e intensa ao meu ver).

Daniel – O que você diria para uma garota que queira trabalhar com artes visuais aqui?

Blenda – Só conquistamos qualquer coisa ao nos preparar constantemente para aproveitar as oportunidades quando elas surgem. Não desista e faça sua sorte acontecer com esforço e dedicação sempre.

Serviço

Blenda Furtado
Página: blendafurtado.com
E-mail: blenda.furtado@gmail.com
Instagram: @blenda_furtado
Facebook: /aquarelaenankin

 

Estúdio Daniel Brandão
Telefone: (85) 3264-0051
Página: estudiodanielbrandao.com
Facebook: /estudiodanielbrandao
Twitter: danielbrandaoHQ
Instagram: @danielsbrandao

Colaboradores

Daniel Brandão

Daniel Brandão

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Trabalha como quadrinista, ilustrador, arte-educador e empresário desde 1996. Já ganhou três prêmios HQ Mix pela publicação Manicomics e trabalhou com diversas editoras, revistas, personagens e empresas nacionais e internacionais, tais como DC Comics, Marvel, Dark Horse, Abril e Maurício de Sousa Produções. É criador dos personagens Liz, Sebastião e Cariawara, e atualmente possui um estúdio próprio em Fortaleza, o Estúdio Daniel Brandão, onde oferece cursos de desenho, quadrinhos e mangá. Em 2016, ganhou o prêmio Al Rio como destaque local e foi coordenador de conteúdo do curso de quadrinhos do projeto HQ Ceará e organizador da Antologia HQ pela Fundação Demócrito Rocha.

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