Vós

menu
Histórias

[Ar Livre] - A cidade também é aldeia: o projeto Percursos Urbanos vai até a Comunidade Jenipapo-Kanindé

Por Sheyla Castelo Branco, Ivna Girão, Michele Boroh

Acredita em Vós

13.jan
2016

O projeto Percursos Urbanos é uma idealização do sociólogo e escritor Júlio Lira, com apoio do Banco do Nordeste (BNB). Uma iniciativa que visa levar os participantes a conhecer e lançar um olhar mais crítico a diversos pontos da cidade, e o caminho percorrido é sempre importante. O percurso é feito junto, a bordo de um ônibus urbano, com a conversa que se estende desde a partida. Dessa vez, a visita foi a aldeia Jenipapo-Kanindé, que fica no municipio de Aquiraz, próximo às praias do Iguape.

“A questão primordial dessa visita é entender como um trabalho técnico feito por pessoas que não são índias se insere dentro de uma aldeia indígena? São temas que nos possibilitam uma dupla abordagem. Vamos observar como é o olhar dessas pessoas, que são profissionais e que atuam diretamente com eles através do trabalho desenvolvido pela ONG Povos Indígenas-CE-Adelco” afirma Júlio, que convidou as jornalistas Ivna Girão e Isabelle Azevedo, atuantes na ONG, para guiar a visita a comunidade.

Logo na chegada, fomos recebidos por “Préa”, ou Heraldo Alves, que atua diretamente no turismo comunitário, como Coordenador da Pousada e do Museu que recebe estudantes e interessados em conhecer a comunidade de perto, possibilitando a troca de saberes.

 

“O turismo comunitário é uma forma de valorizar a nossa comunidade, e temos a possibilidade de trocar experiências com pessoas que vem até de outros países. Toda renda da pousada é revertida para os nossos projetos e nos aproxima de estudantes, pesquisadores e pessoas comuns, que podem viver mais de perto a nossa vida.”

''É uma forma de dizer que existimos e estamos aqui, produzindo e participando ativamente do turismo, do artesanato e da cultura do Ceará.''

O turismo comunitário é feito em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC) e o Instituto TerraMar, através da Rede Cearense de Turismo Comunitário (TUCUM).

Uma curiosidade é que na comunidade Jenipapo-Kanindé a liderança é feminina. Cacique Pequena foi reconhecida como líder e é uma referência na luta indígena pelo direito de existir. “Sempre lutei pelos direitos do meu povo, hoje temos escola, água tratada, posto de saúde e não deixamos nossas raízes morrerem. Temos tudo isso porque conseguimos reconhecimento”. Aos 70 anos, Cacique Pequena é mãe de 16 filhos, tem 57 netos, 13 bisnetos e foi em 2010 nomeada Guardiã da Memória da comunidade. Em 2015, reconhecida Mestre da Cultura.

A comunidade tem o apoio de dois projetos, o “Matas da Encantada” e o “Etnodesenvolvimento”, realização da ADELCO e patrocínio da Petrobras, que agem diretamente na melhoria da qualidade ambiental dentro da comunidade. O projeto atuou na recuperação das 5 trilhas e no sistema de cisternas e fossas. Isabelle Azevedo e Ivna Girão, as jornalistas que guiaram a visita, afirmam que foram construídas 82 cisternas de 8 mil litros nas casas de alvenaria, as cisternas foram feitas pelos próprios indígenas que passaram por uma capacitação anteriormente, a comunidade também ganhou o sistema de fossa verde, que foram construídas nas casas de 101 famílias e que veio auxiliar no esgotamento sanitário, que ainda é uma dificuldade para a comunidade.

Para Ivna, todo  o processo deve ser horizontal e dialogado, ” Desde o início do projeto, dialogamos com eles e tudo que fazemos é conversado antes, não tomamos nenhuma decisão arbitrária, o nosso objetivo é o protagonismo do povo Jenipapo-Kanindé, seja na melhoria das trilhas, do sistema sanitário ou em qualquer outro assunto. Acho de extrema importância essa horizontalidade envolvida em todo o processo, até porque eles lutam pelo direito de existir como tal, e isso está diretamente ligado à autonomia”.

A comunidade Jenipapo-Kanindé é um convite ao convívio mais próximo com a natureza e com nossos ancestrais, é possível se hospedar na pousada e aproveitar para fazer as trilhas, provar a bebida feita pelos próprios índios, conhecida como “mocororó”, que eles chamam de vinho do cajú curtido, preciar a paisagem da Lagoa da Encantada, e até aproveitar para comprar algum legume da horta do seu Emanuel Vieira, que fica bem ao lado da lagoa. (Sheyla Castelo Branco)

ONDE: Comunidade Lagoa da Encantada, município de Aquiraz.

MELHORES DIAS PARA IR: Todos os dias.

O QUE FAZER: Conversar com a Cacique Pequena, que foi a primeira Cacique mulher do Brasil, banhar na lagoa encantada, observar a forma como vivem os índios Jenipapo-Kanindé e aproveitar para se aprofundar em um estilo de vida que apesar de influenciado pelo nosso, ainda guarda coisas muito peculiares, ah! Também dá para visitar o museu deles, que fica dentro da pousada da aldeia.

ONDE FICAR: Na pousada da rede TUCUM, que é coordenada pelo índio “Préa”, um lugar gostoso, dentro da aldeia. Assim é possível também colaborar com o turismo comunitário

A Encantada como lugar de existir e resistir

Pisar naquele terreiro com os pés descalços, abrir a alma para receber a energia da mãe-terra, dançar repetidamente em roda, cantar o toré como quem faz uma oração. Ao centro do círculo místico, o tronco da yburana que será plantado no chão, para dali nascer uma nova árvore: mais uma para contar a história desse povo, assim como outras 15 que são fincadas desde 1997, primeiro ano do Marco Vivo, uma celebração da vida, das conquistas e da luta. Um ritual realizado todos os anos no mês de abril, o festejo representando a reafirmação das identidades culturais, uma festa ecológica e sustentável, um dia de agradecimento e de união de diversos povos do Ceará.

E foi assim, em dia de plantação da yburana, que conheci os Jenipapo Kanindé e fui recebida pela Cacique Pequena na aldeia, lugar tão encantado, sinônimo de morada boa, de conversa e saberes no alpendre, de rede armada na sombra, de vida que segue na calmaria, mas também na luta, de quem quer existir e resistir, daqueles que, diariamente e sempre, precisam provar que estão vivos e são muitos – e dizer que há sim índio no Ceará. E como canta a tradição, um povo que pisa ligeiro e entoa: “quem não pode com formiga não atiça o formigueiro”.

Os Jenipapo Kanindé são um dos muitos povos que habitam por aqui: segundo dados do movimento indígena, o Ceará possui 14 etnias, com uma população composta por aproximadamente 30 mil índios/as residentes em 19 municípios do Estado. Apenas um território está homologado – a terra indígena Córrego João Pereira, da etnia Tremembé. Todas as demais ainda aguardam os trâmites legais para que sejam homologadas. Pisando ligeiro, construindo solidariedades e batalhas por terra e território, por dignidade, saúde, educação, por novas páginas nos livros de história que tragam narrativas de presente e futuro, não apenas de um passado de extermínio ocorrido há 500 anos.

Ancestralidade, tradição, pertença, encanto. Um povo que se chama de “parente”, que reconhece a terra como coletiva, que se eterniza na história conta pelos “troncos velhos”, das narrativas guardadas ali – no museu, na casa de farinha, na escola, na pousada comunitária, nas lendas, nos causos dos mais antigos, nas canções da cacique pequena e, principalmente, nas mitologias do encantamento, do misticismo mergulhado nas águas daquela lagoa tão linda, a encantada – a paisagem que lembra a pertença entre os indígenas.

Lugar de belezas, de paisagens que tiram o fôlego, e o melhor: bem pertinho de Fortaleza. O Morro do Urubu e a Lagoa Encantada, que fazem parte do cenário natural do entorno da comunidade dos Jenipapo-Kanindé, dois elementos bastante significativos para o grupo. A lagoa é a morada sagrada da Mãe D’água, e várias são as lendas envolvendo essa figura mitológica, seus cantos e encantos. O Morro do Urubu, por sua vez, esconde um templo sagrado lá no alto. Povos de muitas lendas, os “troncos velhos” contam, com entusiasmo, terem visto sereias na lagoa, o saci pererê que habita a mata e a Mãe D’água lavando seus longos cabelos. Um povo que deposita suas esperanças na lenda da “cidade submersa”, um tipo particular de “paraíso”, onde tudo parece se conduzir numa ordem perfeita, de terra muito fértil, onde se “dá de um tudo, menos arroz”, um misticismo que vem das águas e renasce a cada sol que se põe naquele horizonte.

Daquele prazer de sentar no alpendre da Cacique Pequena e lhe escutar contar os causos de antigamente, do barco com orquestra que aparecia feito o reflexo nas águas da Encantada, feito miragem. Um povo que tem ligação com os dois “mundos” – o real e o imaginário, que vive do sentimento de um dia poder renascer do submerso. De tantas tradições, da espera pela fartura de alimentos prometido na lenda da “cidade” que afundou, das muitas resistências vividas e na luta pelo direito de existir e o dever de resistir, hoje e sempre. (Ivna Girão)

Colaboradores

Sheyla Castelo Branco

Sheyla Castelo Branco

Ver Perfil

Sheyla Castelo Branco gosta das miudezas, fotógrafa para sentir com mais calma a delicadeza dos instantes , e acredita na vida enquanto possibilidade. É jornalista e se realiza ao contar histórias, precisa sentir a vida na calçada da dona Maria ou no meio do morro de sua cidade. Vive uma verdadeira relação de amor com sua cidade, "Eu não moro em Fortaleza, eu namoro Fortaleza".

Ivna Girão

Ivna Girão

Ver Perfil

Ivna Girão, jornalista e flâneur. Apreciadora do cotidiano, se apega às bobagens dos dias, gosta de narrar as desimportâncias do tempo e escrever aquilo que nem sempre se vê, de escutar a música que toca invisível na cidade. Fã de coisas miúdas, de uma narrativa meio Manoel de Barros. Mãe do pequeno Bento e da linda Ana Maria.

Michele Boroh

Michele Boroh

Ver Perfil

Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 31 e após 8 em TV, é coordenadora de conteúdo e colunista de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar