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Histórias

[Ar Livre] - Um museu a céu aberto, no meio do mangue

Com Rusty Sá Por Claudia Albuquerque, Igor de Melo, Michele Boroh

Acredita em Vós

14.jan
2016

Bem-vindos à estação dos pés pretos

Sob o céu da Sabiaguaba, Rusty de Sá Barreto toca um projeto singular que é também seu sonho verde: o Museu do Mangue, há 15 anos ensinando que é preciso conhecer para amar.

''Andar no mangue é mais ou menos como caminhar na lua'', segreda o homem de chapéu modelo selva para a plateia turbulenta de adolescentes. “Passos loooongos, em câmera lenta, buscando equilíbrio para não cair. Vocês queriam um passeio com emoção, não é? Pois vão ter. Bem-vindos à estação dos pés pretos”. Com frases de efeito luminoso, promessas de alto suspense e ardentes artimanhas de sedução, Rusty de Sá Barreto projeta a voz tonitruante e rouba de vez a atenção dos 40 tecnoviciados que o acompanham, todos na faixa dos 15 aos 17 anos. Por um minuto, eles abandonam o celular, esquecem as selfies e olham em frente, ansiosos. É hora de enfiar o pé na lama.

Nas areias orientais de Fortaleza, onde as águas do Rio Cocó se franzem no encontro com o mar, Rusty dedica tempo e energia para manter pulsante o teimoso coração do Eco Museu Natural do Mangue da Sabiaguaba, o EcoMuNam. A “estação dos pés pretos” é uma das 12 paradas que ele inventou em uma trilha ecológica de 1,5 km, que se embrenha pelo manguezal, sobe as dunas brancas, mergulha no Rio Cocó e deságua no oceano, após 1h30 de suspense cenográfico, explicações ecológicas e achados lúdicos. Agora com lama até os joelhos, passos de astronauta fora de órbita, os meninos se agitam a cada resvalada no lodo. Rusty intervém, cirúrgico: “É hora de diminuir a fala, aumentar a audição e ampliar a visão. Olhem bem para onde vocês estão”.

Estamos num ecossistema considerado de transição entre o ambiente terrestre e o marinho, zona de alma pantanosa, carne tenra e veias carentes de oxigênio, mas empapadas de nutrientes orgânicos. Berçário assentado pela própria natureza na epiderme do rio mais importante da capital, onde bichos e plantas se adaptam ao fluxo caprichoso das marés. O mangue. Úmido, exuberante, salgado, escuro, invisível para tantos, meio de vida para outros, importante para todos – mesmo para os que ignoram seus dedos finos enfiados na terra mole. No Brasil, apesar de protegido por lei, o mangue não consegue baixar a febre da degradação, das ocupações irregulares e da indiferença.

A aula de campo, como é chamada a atividade que os alunos da Escola Custódio da Silva Lemos, de Guanacés, Cascavel, estão fazendo em plena quinta-feira, é um dos muitos fios de sustentação do museu criado por Rusty – a rigor, uma pequena construção de paredes azuis, sem água, sem luz, sem vigia, sem apoio oficial, encravado nos limites da Sabiaguaba com a praia do Caça-e-Pesca, extremo leste de Fortaleza. Estrutura simples de tijolos, onde as prateleiras brancas se cobrem de tesouros da região: esqueleto de baleia, cabeça de tartaruga, arcada de tubarão, queixada de jubarte e muitas espécies moluscos e crustáceos, secos ou conservadas em formol: cavalo marinho, caranguejo, ostra, aratu, bodó, moréia, arraia, siri...

Menos uma estrutura e mais um movimento, o EcoMuNam nasceu da vontade de fazer as pessoas olharem para onde não querem, unindo ecoturismo comunitário, educação ambiental e museologia social. “A idéia é dar um choque de realidade em quem vem. Sair da teoria e ir para a prática”, diz Rusty no momento em que, virando-se para a turma, sugere: “Observem o chão e me digam o que vocês estão vendo”. “Terra”. Ele insiste: “O que mais?”. “Buracos”. Ele ri: “Pois cada buraco tem um caranguejo. Só aqui são quatro tipos diferentes”. Além de entender que há riqueza sob os próprios pés, o grupo é instado a roçar a língua nas folhas de uma árvore, constatando que é verdade o que dizem: elas são salgadas, pois excretam o sal que filtram do mar.

Ao longo da manhã, ficarão sabendo de muitas coisas: que rabiscar no tronco das árvores é como pichar os muros da cidade; que há três diferentes tipos de mangue; que o mangue-branco pode crescer até 25 metros; que o mangue-vermelho tem tanino como o pau-brasil; que o mangue-preto também é chamado de siruiúba; que o ecossistema formado pelos manguezais protege as cidades da erosão, reduz a poluição das praias e garante fartura nutritiva para peixes e outros animais. Também ficarão cientes de que o Brasil tem uma das maiores extensões de manguezais do mundo, mas que toda essa riqueza corre o risco de sumir das nossas vistas.

Há quase 20 anos veio parar em Fortaleza por aventura e destino. Morando no Curió, gostava de velocidade e organizava torneios de MotoCross. Um dia, durante um passeio pela Praia do Futuro, avistou a Sabiaguaba. “Foi místico”, ele tenta resumir a força do furacão. Resolveu negociar um terreno, onde aproveitou uma antiga barraca para montar um bar. O bar virou restaurante, que por sua vez se transformou em museu, devido ao gradativo envolvimento com as questões comunitárias e ambientais.

Hoje formado no Ensino Médio pelo projeto EJA (Educação de Jovens e Adultos), “com todo o orgulho”, Rusty faz um curso pela internet enquanto tenta uma bolsa universitária para Gestão Ambiental. Ao chegarmos na “estação das dunas”, ele explica aos alunos que aqueles montes de areia servem como esponja nos dias de chuva e que ajudam a regular o clima. Há garrafas PET, tampinhas de refrigerante e sacos plásticos pelo caminho, embora desde 2006 a Sabiaguaba conte com duas Unidades de Conservação Ambiental: o Parque Natural Municipal das Dunas e a Área de Proteção Ambiental (APA).

Na “estação da solidariedade”, os estudantes descobrem que propágulos são hastes que se desprendem das árvores adultas, dando origem a novas árvores. Rusty estimula cada ouvinte a fincar um deles no chão. “Assim vocês ajudam a reflorestar a Sabiaguaba. Ao longo da vida, desejo que leiam muitos livros e plantem muitas árvores”. Chegamos finalmente ao Rio Cocó, “manso como a língua de um cão”, como diria um poeta amante de mangues. A ponte que liga a Praia do Futuro a esta parte da cidade, inaugurada em 2010 após quase uma década de atrasos e polêmicas, tem alicerces que abrigam famílias em momentos de lazer ribeirinho. É hora de se jogar na água.

Cheio de frases de efeito (“um guerreiro não se cansa, só descansa o escudo”), Rusty não gosta de alegrias mornas. Entendeu que a energia flui para onde vai a atenção e decidiu viver no mesmo terreno do seu sonho. Experimentando o poder da vida silenciosa nesse lugar desfrequentado, não sofre com o câncer lento do desinteresse nem se deixa consumir pelo vício da desesperança. Hoje o EcoMuNam se mantém de doações e de visitas. Os passeios agendados contam com a ajuda de voluntários como o menino Marcos Vinícius, morador da comunidade, filho de salva-vidas e futuro arqueólogo; e o alemão Ilrich Braunstein, que veio conhecer o Brasil, casou com uma cearense e se encantou com o projeto.

Ao fim do passeio, todos se sentam em cadeiras de plástico para devorar o almoço feito por Sineide, com quem Rusty divide a vida e os sonhos há 33 anos: arroz, feijão, picadinho de carne, frango cozido, salada, farofa amarela. Concentrados na própria fome e ainda esquecidos dos celulares, os estudantes se calam, apaziguados. Feliz por ter conduzido mais uma turma pelas ondas de uma consciência de verdadeiro afeto pela cidade, Rusty olha em volta, sorri e exclama, perguntando para ninguém: “Viu o que é amor?”.

ONDE: Rua Professor Valdevino, 48, Casa 1 – Boca da Barra – Sabiaguaba

MELHORES DIAS PARA IR: Todos os dias.

AGENDAMENTO DE VISITAS GUIADAS: (85) 987.495.286

Colaboradores

Claudia Albuquerque

Claudia Albuquerque

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Claudia Albuquerque é jornalista e sempre colecionou blocos de anotações. Adora ouvir histórias da vida alheia e escrever sobre elas. Acha uma sorte ter escolhido essa profissão e concorda com o escritor húngaro que comparou o português a um “idioma de passarinhos”.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 32 e após 8 em TV, é coordenadora e editora de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará e no Medium, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

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