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[Arteiros] - As mil óticas do BDSM pelas fotos de Ethi Arcanjo

Por Thiago Gil
19.mai
2017

Pra começar o assunto é melhor definirmos: BDSM inclui bondage e disciplina (B e D), dominação e submissão (D e S), e sadismo e masoquismo (S e M). Os termos são agrupados desta forma pois existem milhões de faces. Cada termo agrada e completa pessoas diferentes, estilos, vontades e preferências. Segundo a escritora de BDSM e educadora Clarisse Thorn, autora de The S&M Feminist, disse em entrevista ao BuzzFeed Life, na maioria das vezes, os interesses de uma pessoa caem em uma ou duas dessas categorias, em vez de todas elas.

E é aqui que entra a história da fotógrafa fortalezense Ethi Arcanjo, sempre traduzindo, desmistificando e apresentando o mundo e as mil óticas da BDSM em suas lentes. Uma entrevista cheia de pimenta!

Thiago Gil – Seu trabalho sempre teve um toque de pimenta, seja em um simples retrato até um ensaio publicitário. Você acha que esta foi a entrada do mundo BDSM para sua visão fotográfica?

Ethi Arcanjo – Em partes, sim. Mas antes de me descobrir fotógrafa de fato, sempre me interessou o lado B da vida. Seja pelo gosto musical, pela forma de se vestir, filmes ou padrões de beleza. E quando comecei a fotografar acabei levando isso de andar meio que na contramão comigo. De bater de frente, de mostrar que existem várias formas de se tocar a vida e que elas precisam ser respeitadas. A nossa sociedade precisa disso, precisa desse choque para que algumas coisas possam ser digeridas ou simplesmente engolidas.

Procuro e gosto da sensação de usar a minha fotografia como se fosse uma fechadura minúscula, onde os fotografados se sentem à vontade em ser quem são. Sem julgamentos e sem interferências. De se olharem através de outros olhos e descobrir encanto na sua existência.

É pertinente o sensual no meu trabalho, uso muito no universo feminino pelo poder de psicologia que eu sei que esse tipo de fotografia possui, no processo de aceitação, de descoberta, de autoconhecimento. É transformador. Mas acima de tudo, me fascina o lado cru do ser humano, aquele lado que, por algum motivo, é escondido. A sexualidade muitas vezes está atrelada a esses esconderijos, porque ela não é vivenciada pelas pessoas da mesma forma.

Thiago – A BDSM requer a provocação de uma libertação sexual – não existe nada de errado neste mundo – mas existe sempre o experimental. Como foi para você se desprender dos estereótipos e buscar este resultado?

Ethi – Na verdade a vontade de fazer esse ensaio nasceu de um incômodo. Apesar de hoje em dia não me encaixar em um grupo específico, gosto da diversidade de pessoas, gosto de histórias, de comportamentos. Sou bem desprendida de estereótipos.

Conversando com uma amiga jornalista que pensa muito parecido comigo, a Lua Santos, decidimos colocar em prática. Já conhecia um dos casais que fotografei, a Rainha Frágil e o Escravo Roger.

Conheci a Bethi no seu sex shop há uns 7 anos, conversando vi o quanto ela era doce, falava de forma respeitosa sobre sexo e ele, por seguir em redes sociais, vejo que sempre aborda diversos assuntos, principalmente a política. Criam a Fiona, uma cadela que recebe todo carinho do mundo. Parece bobo, mas não são maníacos perigosos como taxam quem pratica BDSM. Só quem tem como referência filmes e sites certamente vai achar algo doentio, não há um contexto nesses meios. É raso, é caricato. Então quis tentar quebrar essa barreira. Como já tínhamos contato e eles conheciam o meu trabalho, foi mais fácil de aceitarem o convite.

Thiago – O que e quem encontrou nesta busca?

Ethi – Encontrei o que já suspeitava encontrar, gente como eu e você. Gente que tá no nosso cotidiano, cumpre seus deveres e vive de forma digna. Gente tímida, gente engraçada, que é delicada e que não quer nada além do que ser bem tratado de volta.

Não existem regras, não existe um perfil traçado. Temos que aprender a desatar nossas amarras e compreender principalmente que existe diferença entre a vida social e íntima. Na verdade ninguém sabe muito bem o que acontece a nossa volta, a gente acha que sabe e acha até que se conhece. Mas há um mundão por aí cheio de tudo e de todos, alguns com seus desejos ainda algemados e outros que simplesmente sabem existir, exercem de forma plena a sua sexualidade e isso os torna confiantes e muito bem resolvidos.

O Escravo Roger, por exemplo, é líder no trabalho, é ele quem domina. Não confronta com a sua intimidade. O prazer dele é servir a sua rainha, seja acorrentado apanhando até suas nádegas sangrarem ou simplesmente sendo o marido com uniforme de empregada que deixa a louça um brilho e come resto de comida jogado no chão. Ele só pediu que não fosse identificado nas fotos, por isso o uso da máscara, por conta das limitações que a nossa sociedade tem quando se trata de um homem que “apanha” da mulher.

Não são pessoas que saem por aí vestidas de vinil, segurando um chicote com alguém encoleirado. É algo entre eles, no reino deles. Há um gatilho, um start, é como um relacionamento baunilha (assim são chamados não praticantes). Há um sinal, no caso deles o jogo começa quando ela aponta o dedo para os seus pés.

Encontrei também a Giselle, feminista e switch. No ensaio ela optou por ser submissa. Pode soar meio incoerente por ela ser feminista mas, como ela mesma falou, a submissão cultural é bem diferente da submissão erótica. A erótica é uma mulher empoderada. É escolha dela estar naquela situação, se faz bem pra ela, por que não?

Thiago – Que ponto mais te chamou a atenção?

Ethi – O que mais admiro em qualquer relacionamento e que acho dificílimo encontrar, a cumplicidade. Como eu fiquei maravilhada. Não são só amantes, são cúmplices, são pessoas que entregam ao seu parceiro ou parceiros os seus desejos mais profundos, e isso é forte. Os papéis são escolhidos, nada ali é imposto, é consensual. Até nas sessões mais hard existe entre eles uma espécie de código, uma palavra que quando usada a sessão para imediatamente.

Outro ponto que chamou a minha atenção foi saber que alguns não têm necessariamente o intuito de ter uma relação sexual, elas querem apenas curtir aquele momento erótico. Não tem regras. Às vezes uma sessão é tão desgastante, são horas e horas que o ato sexual simplesmente não acontece, pode servir apenas de inspiração para depois, como foi dito por uma das pessoas que fotografei.

Thiago – Qual sua relação artística e como foi o envolvimento mais marcante neste trabalho?

Ethi – Acredito que é possível explorar o prazer, a sedução em meio ao horror, a violência, a tensão, ao “inferno” que existe em cada ser humano. Respeito mas não me atrai a arte quieta, alegre e suave. Gosto da turbulência, de encontrar beleza no que consideram monstruoso. Na maioria dos meus ensaios procuro outras reações além de acharem simplesmente linda uma fotografia. A vida pode ser menos coloridinha e ainda assim, ser bonita, real, crua. Vemos sempre fotos de casais sorridentes segurando suas taças de champanhe esbanjando felicidade nas suas viagens. Somos a todo instante bombardeados com fotos assim nas redes sociais. Mas nem todos os relacionamentos são um romance hollywoodiano.

Os ensaios foram feitos na casa do Roger e da Bethi. Quando cheguei ele estava bem alinhado, com uma calça preta, sapato social, blusa de botão, cabelo impecável, tinha acabado de chegar do trabalho. Ela estava à vontade em casa, cabelo preso, sem maquiagem e pés no chão.

Pediram pra gente esperar um pouco para trocarem de roupa, fiquei brincando com a cachorrinha deles admirando a sala com várias correntes penduradas. Na sequência ouço um som de salto alto vindo na minha direção, estava diante agora de uma empregada muito sexy, uniforme curto, avental, meia arrastão, acabara de conhecer pessoalmente o Escravo Roger. Não me segurei e soltei um “Arrasou!”, ele riu, estava incrível. Pediu para que eu ajudasse a colocar as luvas. Ela maravilhosa com um corselete marcando bem a cintura, saia preta, botas com salto bem fino.

Meus olhos brilharam diante daqueles dois. Durante as fotos foi incrível a sensação de ficar invisível, de não interferir, de não ser a que comanda, de ter que dizer a pose certa e pedir pra ajeitar o cabelo e simplesmente apreciar. Escolhi retratar aquela realidade em seu estado bruto, até a forma de fotografar quis que fosse simples, sem parafernálias de flashes disparando a todo instante, só luz natural. Queria passar a atmosfera daquele local, daquelas pessoas. Sem vaidade de fazer fotos plásticas demais, a intimidade entre eles é que deveria transbordar e roubar a cena. Foram dois dias mergulhando fundo naquele universo.

A cena é forte, agressiva, pois se trata do clássico BDSM. Fotografei com a adrenalina correndo solta no corpo, uma euforia, mas ao mesmo tempo é bonito demais presenciar a consciência que se tem, de saber a hora de parar, de conhecer o limite do outro, a confiança. Não existe choro nem gritos ensurdecedores. Não é simulação nem dissimulação, é prazer. Se insulta, se cospe na cara, se deixa roxo, se sangra, vira ferida e não consegue sentar direito no dia seguinte, não importa. As escolhas são feitas, as regras são acertadas. Não tem a obrigação do ápice do orgasmo. Arrisco dizer que é um papo de alma. É sobre casais em seu estado mais pleno. São ensaios para lembrar que quando há entrega, há verdade.

Thiago – Como Fortaleza apresentou este mundo a você?

Ethi – Sexo por si só já é um assunto que fica ali, na penumbra. Em Fortaleza então, é delicado demais falar sobre BDSM. É difícil encontrar alguém que pratique e que converse abertamente sobre. Você tem que ter uma ponte. Existem reuniões, eventos entre eles. É um mundo que se apresenta de forma discreta. No Facebook tem um grupo fechado com quase 500 participantes só daqui.

Tem também uma página, “A Arte BDSM”, com quase 10.000 curtidas. Isso é um número considerável. São pessoas que com todas as suas barreiras não se deixam levar pelo moralismo. Como fui adicionada ao grupo com o intuito de convidar mais pessoas para fazer outros ensaios, depois que viram o resultado, vários mostraram interesse em fazer, mas sempre rola aquela preocupação em ser identificado, por conta do trabalho, da família e é respeitado. Eu fico extremamente agradecida pela confiança que eles têm comigo, me sinto privilegiada.

Thiago – E como você apresentaria este mundo a Fortaleza?

Ethi – Acho um problema grave não falar a respeito, por conta de todos os preconceitos é como se não existisse. O BDSM é colocado como algo pecaminoso e feio. Vai deixando marcas nas pessoas, que pode chegar a disfunções sexuais e até mesmo suicídio. Elas não se aceitam por conta de uma estética que é passada, como se só aquele formato funcionasse. Temos que descomplicar o assunto para as pessoas realmente se sentirem inseridas, se descobrirem e desenvolverem de forma mais satisfatória. É só uma forma diferente de viver a sexualidade.

A Bethi, por exemplo, foi casada algumas vezes e somente no seu último e atual casamento foi ter um orgasmo pela primeira vez, porque foi nesse formato que ela se encontrou. Fortaleza ainda tem que ampliar muito os seus horizontes, é preciso que as pessoas se reformulem. Tem muita gente que ainda não se descobriu, tem muita gente também que se descobriu mas não sabe por onde começar, podendo começar de forma errada. Falta informação. Não é da noite para o dia que você vai se tornar um praticante. Tem que ter estudo, tem que conhecer também as pessoas certas. Sempre existe o risco, em tudo. Com todos os devidos cuidados tomados é apresentado um universo mágico. É uma troca, uma busca saudável de sentir prazer e proporcionar.

Veja mais do trabalho da fotógrafa em @ethi.arcanjo

Colaboradores

Thiago Gil

Thiago Gil

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Designer e publicitário, marido da Camila e pai do Miguel. Curte arte urbana, fotografia, exposições, vídeo, lambe-lambe e tudo que pode abrir a caixinha. Curador e sócio/fundador da Electric Circus Studio, uma galeria de arte que reúne exposições, palestras, oficinas, música, idéias e muito projeto aqui em Fortaleza.

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