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As mulheres de Rachel

Por Flávia Lopes
17.out
2018

O imaginário da mulher forte e nordestina em Rachel de Queiroz

Estranhei a primeira vez que li o nome Rachel de Queiroz. Eu tinha apenas cinco anos de idade, ainda nem sabia ler direito, mas para mim era incompreensível que ch tivesse som de q. Perguntei a alguém, que não me lembro, quem era “Raxel de Queiroz”, me corrigiram e disseram que era uma grande escritora cearense. O tempo passou e com ele tomei gosto pela leitura. Passei a sonhar em ser escritora e aos sete anos lancei um livrinho de fábulas com histórias bobas. Mais alguns anos e a maturidade foi inevitável, fui tomando conhecimento do mundo das letras, referências literárias e daí ressurgiu o velho nome “Rachel de Queiroz”.

Aquele nome reapareceu em tantas conversas que eu já o tomava por um referencial sem nem ao menos conhecer Rachel. Em um dia, procurando entender a relevância da tal escritora modernista a quem tanto falavam, reconheci o seu lugar no mundo não só como escritora, mas como mulher de destaque, que se rasgava em letras e que se fez presente em um limbo literário masculinizado, logo na década de 30, com apenas 19 anos de idade.

Com sua literatura, Rachel de Queiroz ajudou a criar um imaginário feminino nordestino de firmeza e resiliência. Ela se construiu mulher firme quando construiu suas mulheres. A cearense acertou de primeira. Com a personagem Conceição, de sua obra primogênita O Quinze, ela montou um espelho do seu consciente/inconsciente: mulher, cearense, jovem professora, progressista, lia livros sobre feminismo e conversava sobre socialismo. A descrição é de Conceição ou de Rachel?

O Quinze carrega arquétipos que constroem um imaginário nordestino, apesar de tratar também de dores universais. Fala da seca no interior do Ceará, o êxodo do campo para a capital, a morte do povo e do gado por causa da fome. Mas há ainda outra imagem simbólica significativa para a época em que o romance foi escrito (1930): a mulher forte, nordestina, que ora aparece na forma de revolucionária progressista, ora na forma de matriarca fazendeira.

Essas imagens femininas estão descritas e manifestas nas personagens: Conceição, professora de 22 anos, inteligente e culta que se preocupa com as causas sociais de sua região; Mãe Nácia mostra a importância matriarcal, é a avó de Conceição e Vicente; e Cordulina, mulher do itinerante Chico Bento, que mostra força e resistência quando sai a pé de Quixadá para Fortaleza à procura de uma vida melhor, supera a dor da fome e a morte de um filho.

Todas as três, em suas diferentes características, apresentam um ponto em comum: a resiliência nata das formas femininas nordestinas frente às adversidades. Aqui podemos parafrasear Euclides da Cunha: “a nordestina é antes de tudo forte.”

No entanto, talvez a mais significativa e intrigante imagem feminina de todo o romance d’O Quinze seja Conceição, a transfiguração literária de Rachel. Conceição é ela- lírica, Rachel. Assim como sua personagem, a escritora foi uma mulher de vanguarda. Rachel começou a lecionar aos 15 anos e aos 19 lançou o seu primeiro livro, a obra que lhe consagrou como escritora notável.

Tratando sobre a seca, os campos de concentração de itinerantes que fugiam da aridez e da miséria do sertão, a obra primeira de Rachel a fez ascender entre escritores modernos que tratavam também dessas temáticas que envolviam o imaginário nordestino. Nessa época, porém, Rachel era uma das poucas mulheres que ganharam destaque – talvez a única -, já que na década de 30 a mulher mal tinha acabado de conquistar o direito ao voto!

A escritora se destacou também por ter sido, em 1977, a primeira mulher a conquistar lugar importante em um habitat puramente masculino, na época: a Academia Brasileira de Letras. Na lista de conquistas progressistas de Rachel também consta o Prêmio Camões (1993), uma premiação que até então nenhuma mulher tinha levado. O romance premiado foi Memorial de Maria Moura, em que mais uma vez Rachel deixa subentendido seu eu-lírico na protagonista Maria Moura, chefe de um grupo armado, corajosa e intrépida.

Seu feminismo latente, apesar de não declarado e, às vezes, contraditório com suas opiniões que vieram a público, era claro para quem consegue entender a imagem da mulher não submissa que se transfigura em personagens revolucionárias e intelectuais e senhoras sertanejas matriarcais donas de terras.

Talvez seja por isso que a literatura de Rachel tenha ganhado notoriedade muito mais por ter sido uma literatura regionalista do que feminina, pois suas personagens fogem do padrão estético da fragilidade feminina que vagueia no imaginário literário. Nada de Jane Austen! Sem muitas frivolidades e firulas, Rachel vai direto ao ponto, ela mesma considerando sua literatura seca e objetiva.

A crítica literária Heloísa Buarque de Hollanda, em um artigo que procura discutir a persona de Rachel de Queiroz, ressalta a autonomia das personagens femininas nas obras da escritora cearense. “É a Santa de João Miguel, base da resistência política do romance; a Noemi de Caminho de Pedras, que desafia a tudo e a todos em nome de seu direito de amar; a Guta de Três Marias, e sua forte vocação política; a rebelde Dôra de Dôra, Doralina e, finalmente, a mais, digamos, espetacular, Maria Moura, destemida chefe de um bando armado e que segundo Rachel ‘é tudo que eu queria ser e não consegui.’

Ser mulher e escrever sobre mulheres nos tempos de hoje parece algo fácil, apesar de ainda termos que lidar com opiniões declaradas de que feminismo é papo dispensável ou sentimental. Mas, imagina a resistência na década de 30? Rachel de Queiroz não encontrou tantas porque o que pesou foi sua eficácia literária e sua forma pungente de escrever. Passou por cima de críticas, machismos disfarçados e declarados e se consagrou como literata.

Ela escreveu mulheres e praticamente se descreveu em cada personagem. Talvez tenham sido as mulheres dela que, em suas perspectivas simbólicas imagéticas, tenham lhe dado a força de seguir. Rachel deu vida a mulheres fortes e suas mulheres deram vida à Rachel. Hoje, todas essas mulheres unidas, fictícias, mas personificadas em personagens consistentes, dão voz a quem ficou aqui para ler suas histórias. As mulheres de Rachel não são só as que ela escreveu, mas as que ela ajudou a formar com suas configurações femininas rígidas, sólidas e intrépidas. Aqui digo em ousadia: acho que também posso dizer que sou uma mulher de Rachel.

Colaboradores

Flávia Lopes

Flávia Lopes

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Jornalista, escritora e professora. Fala de tudo, mas não sabe de nada. Pesquisadora de Mídia, Cotidiano e Imaginário. Geminiana que vive em cima do muro procurando os significados da vida. Acha que a dúvida é o princípio de todo conhecimento. Será?

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