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Histórias

Autoconhecimento que converte cálculos em pães

Com Cassius Coelho Por Jonathan Silva, Igor de Melo
12.fev
2019

O método que Cassius utiliza para o seu negócio mistura paixão e disciplina. Se por um lado é dedicado na fabricação de pães com longa fermentação (batizando inclusive um fermento natural de Jack), por outro é rigoroso em entregar notas fiscais em todas as vendas que faz na Grão D’alino, uma atitude que entrega um pouco do seu passado…

Panificação é atividade que exige calma e imersão. Exercício matinal de acordar cedo e preparar a massa. Bate, estica, polvilha e modela. Levar os pães ao forno com todo cuidado para não queimá-los e muito menos a si mesmo. Atender a vizinhança que faz fila na porta da padaria, aguardando pacientemente (ou não) pela fornada do café da manhã. Uma rotina exercida todos os dias, nos primeiros minutos após o nascer do sol.

Diferente desse cronograma tradicional, na rua Coronel Jucá há uma padaria que segue tendências alternativas para cativar o público. Os padeiros da Grão D’alino Padaria Artesanal dão início à prática um pouco mais tarde, às 13 horas. Quem passa do lado de fora pode observar, pela janela lateral de vidro, quem trabalha na cozinha. E lá dentro, no meio de fornos de lastro e dezenas de potes com ingredientes, está Cassius Coelho, dono do estabelecimento e o “padeiro chefe”.

Além da cozinha, Cassius coordena uma pequena equipe de 4 pessoas distribuídos em atendimento, panificação, confeitaria e limpeza dentro de um espaço de 40 m². Um diferencial da Grão D’alino é oferecer pães artesanais feitos com fermentação natural, algo não facilmente encontrado nas padarias convencionais. “Além de trabalhar a parte de pães rústicos, começamos a atender públicos com restrições alimentares. Foi quando começamos a desenvolver produtos para intolerantes ao trigo, à lactose, pessoas com dietas de baixo carboidrato”, explica o padeiro.

A Grão D’alino começou em 2015, mas a trajetória profissional de Cassius começou bem antes. Quem o vê pela primeira vez de avental, roupas despojadas e algumas queimaduras de forno nos braços, nem imagina o quão contraditória é sua formação egressa: “Eu atuei 20 anos na Contabilidade”.

Muito antes da panificação, o interesse pela primeira profissão veio de casa. “Eu convivi nesse ambiente desde a minha infância. Os meus tios, o meu pai, meu avô, meus primos… Tem muitos contadores na família e eles sempre atuaram, além da Contabilidade, em entidade de classe”. Seguindo as expectativas, Cassius se formou em Ciências Contábeis em 1995, pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR).


*Fotos por Carlos Eugênio

As decisões seguintes davam a entender que o novo contador da família queria ter crescimento dentro da área. Na carreira acadêmica, ele fez MBA em Gestão de Tecnologia da Informação, além de ter sido candidato a Mestre em Controladoria e Contabilidade pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP; porém não concluiu). De volta à Fortaleza, fundou junto com o pai e a irmã uma empresa de contabilidade, a Marpe, onde atuou como Diretor Comercial.

Não deixando de lado o desempenho da família em entidades de classe, presidiu três organizações ligadas ao ramo. De 2007 a 2013, ele já foi presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas do Ceará (SESCAP-CE), do Conselho Regional de Contabilidade do Estado do Ceará (CRC-CE) e da Câmara Setorial do Comércio e Serviços.

Uma trajetória invejável para qualquer contador, mas que para Cassius mascarava divergências internas. “Eu era bem sucedido profissionalmente, mas achava que não agregava àquilo que a gente fazia, que era cuidar só de burocracia, de imposto, de chateação e de aporrinhação nas empresas. Não agregava valor para mim, pessoalmente.” O ultimato surgiu em 2015, quando saiu da empresa familiar e se dedicou a cursos gastronômicos, tentando encontrar uma nova finalidade profissional.

A ruptura, no entanto, não foi tão suave. “Tive algumas intempéries com meu pai, que era meu sócio também. A gente estava num processo de sucessão lá na empresa. Foi bem difícil o processo até dizer que ia sair e ele realmente entender que era uma decisão que eu tinha tomado, que eu iria procurar ser feliz. Alguns amigos apoiaram, outros disseram que era loucura.” Ele garante que hoje o pai é um grande incentivador da padaria, fazendo até propaganda para os amigos.

De alguns membros da família Cassius conseguiu apoio desde o início, principalmente da esposa, Danielle Carneiro. Na época, recém saída do cargo de gestora em um laboratório farmacêutico, trabalhou junto com o marido no novo empreendimento até novembro de 2018, voltando depois à sua área de trabalho.

Para manter os pés no chão nessa nova decisão de vida, Cassius manteve-se focado em certos princípios. O primeiro deles é de que não se destacaria se oferecesse somente o óbvio. “Vimos que, para o mercado de Fortaleza, a gente não conseguiria sobreviver somente vendendo pão. Agregamos ao nosso portfólio outros produtos para que a gente pudesse atender a esses públicos.” Semanalmente, através do Instagram, o cardápio do dia é anunciado e, através de legendas, o cliente já sabe se o alimento é Low Carb, Vegano, Fermentação Natural, Sem Lactose ou Sem Trigo.

Outra norma que rege o seu trabalho é não deixar que a “romantização” do seu sonho possa desviar seu olhar para os empecilhos diários. “Acho que a vida é bem dura, independente da escolha que você faça, em qualquer profissão, existe trabalho e dedicação.” Uma de suas “brigas eternas” é a burocracia da legislação tributária, que mantém um alto imposto na farinha importada utilizada nos seus produtos. A Contabilidade que ainda habita em Cassius se exalta em casos como esse.

Sobre o que significa “grão d’alino”, o padeiro explica que “Grão é o começo de quase tudo na alimentação. No caso da padaria, do grão de trigo provém nossa principal matéria prima; e Alino, que significa mistura de temperos, especiarias.”

Cassius Coelho preferiu não olhar para trás com arrependimento ou frustração, pois viu que fez muito pela profissão da qual se dedicou por 20 anos. Achou melhor pegar esse elemento de sua vida e acrescentar novos temperos que dessem um gosto diferente de tudo visto antes. Como uma boa receita de pão deve ser.

SERVIÇO
Endereço: Rua Cel Jucá 253 – Meireles, Fortaleza
Telefone: (85) 99933-0149
Site: graodalino.com.br
Redes Sociais:
facebook.com/graodalinoartesanal/
instagram.com/graodalinoartesanal/

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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