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Histórias

Do Bom Jardim para o Bom Jardim: a bailarina-semeadora Katiana Pena

Com Katiana Pena Por Kiko Bloc-Boris, Igor de Melo

Acredita em Vós

05.set
2016

Aos 33 anos, 28 deles dedicados ao dançar e a transmutar subsistências em melhores oportunidades, a bailarina Katiana Pena, formada na Edisca (Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente), coreógrafa premiada pelo SATED (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Ceará) como a melhor profissional de 2016 na categoria, e diretora do próprio Studio de Dança no Bom Jardim, é a prova vivaz de que, sem auxílios, sequer teria a certeza de alimentar sonhos. Quanto mais de poder realizá-los!

Dos trajetos dificultosos trilhados em sua história, na qual felizmente achou desvios para barrar o vazio da fome e de humilhações pelo nada ter, Katiana só não deixa o lugar natal, de onde não pretende sair: o Bom Jardim. No bairro pobre, o mais populoso de Fortaleza com mazelas todas das periferias desprivilegiadas, ela peita estigmas para reverberar a extensão de aprendizados, colhidos desde a infância, sempre a partir de projetos sociais.

Pena, imponente nas incumbências em repassar suportes cidadãos para a dignificação humana, dá validez às garantias do seu presente para horizontes de outras tantas crianças e adolescentes, nas artes de arrebatar belezas de grand pliés e compassos no balé, sobretudo nas circunvizinhanças do chamado Grande Bom Jardim. Katiana é referência de sobrepujança no impulsionar de esperanças e quebras de dramáticos paradigmas, na indução de noções básicas de educação para alçar a auto-estima e aspirações aos novatos dançarinos, que bem merecem mais respeitáveis rumos futuros.

Desde novembro de 2015, a duras penas e na força realizadora, ela revestiu-se do essencial apoio dos humildes familiares e de parcerias com pequenos empreendimentos para conseguir soerguer e lançar semeaduras em seu Studio de Dança Katiana Pena (SDKP). No sobrado da casa em que sempre residiu, e na qual vive no andar de baixo com o marido, o motorista particular Francisco, o filho Iarley Cauã, de 11 anos, e a caçula Maria Antônia, de 7, Pena suspendeu as instalações – detalhadamente armadas com barras, espelhos e todo aparato estrutural, que a exigente profissional implica em estar como uma completa academia de dança deve ser. Aliás, o SDKP é mais uma escola de preparos que edifica seres no revolucionar de lidas.

Traz em si as benfeitorias que colheu, tanto na Edisca, como no projeto ABC Circo-Escola do Bom Jardim, onde principiou contorcionismo adestrado, quando a então traquina menina com meros cinco anos esbarrou nessa lona “mágica”, ao vender verduras para “interar” a carência de sustentos dos seus sete sobreviventes irmãos, de 19 filhos que a sua mãe Maria tivera. Hoje, também mãe dedicada, Katiana dirige ainda no SDKP turmas já com 40 pequenos aprendizes, que dão brilho à frequência na quase desértica R. Mirtes Cordeiro nº 3147, onde descobrem a partir do melhor se portar, o poder para, na sequência, saltarem aos palcos que bem desejarem.

Pena conta com 16 auxiliares bailarinos-professores no Studio de Dança, que já lhe acompanham em formações há nove anos, vindos de professorados dela ainda nos idos de quando fez da Dança o curso mais disputado do Centro Cultural do Bom Jardim (CCBJ), outro equipamento do Estado “instalado dentro da favela mais perigosa do bairro, bem na divisa do canal”, situa, tendo lá doutrinado mais de 300 alunos para seguirem destinos independentes. Os parceiros que atualmente com ela se conjugam nos ensinamentos, também são a base do corpo de baile em apresentações cênicas do SDKP, sob o distintivo nome de grupo Corpo-Mudança. Difundem nas montagens, as evoluções da aguerrida pelo seu povo, que extrapola imposições, sem refletir no sereno vulto de Katiana a dureza dessa fluxo.

Na firme determinação em flexibilizar violações sofridas, recompõe “a representatividade das nossas lutas”, como as invocadas em Travessia, espetáculo que estrearam em maio no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, levando ao público “algo tão intenso como foi o Jangurussu para a minha vida, na Edisca. Pincelamos realidades da nossa comunidade (periférica) para que pudessem se enxergar e discutir a questão da violência, alegrias, o forró, do fazer com fé e coragem , como acerca das travessias que temos de seguir pela Fortaleza”, ajuíza, determinando que “pela dança, a gente debate, desafia e fala de inquietações”.

No show do lançamento de sua escola-academia, Katiana quis e fez “algo digno”, apenas sob “as luzes do poste e da lua linda daquela noite, em palco cedido e com caixa de som emprestada”, se surpreendeu com o enxame de curiosos para vislumbrar o que regia tanta vitória diante de impossibilidades. “Só estando lá pra entender. Achei que daria só o pessoal da rua, mas foi uma multidão, o Bom Jardim em peso, todos arrumados nas melhores roupas. Uma lindeza saber quanta importância e bem querer tenho”, exulta.

Iniciadas as atividades do Studio, não sem homéricos esforços para mantê-lo irradiador em vivências diárias, Katiana vê nas expectativas das crianças o retrato do próprio começo de desbravamentos. Prima para negar limitações e introduzir a essência que semeia nos fiéis do Corpo-Mudança e aos novos discípulos: “a humildade e respeito te levam a qualquer lugar do planeta”. As ambições, contudo, seguem com Pena, e respaldam a sua dinâmica de enfrentamentos. Seria natural orgulhar-se de que seus feitos são politicamente maiores do que quaisquer forçadas obrigações cidadãs.

Nos instantes que teria para si mesma, Pena se distribui em investimentos alongados; cursa o 4º ano de Educação Física na UGF, na missão de dividir o que apreende para distanciar a penúria de quem vinga à própria sorte. Dá crédito às potências humanas, aproveitando o que trazem para revolucionar afãs de viveres, como teve nos 17 valiosos anos na Edisca, onde aprendeu a se vestir, higiene, usar talheres, não desperdiçar, respeitar os outros e a si, até se engajar nas tarefas que todos ali dividiam, evoluindo de aluna a professora assistente de coreografias. E já no corpo principal de baile, a preciosa bolsa-salário foi alívio às imensas precisões familiares.

Eternamente marcada por essas salvações, Katiana recorda que “sair da Edisca, essa instituição referência social no Brasil, foi um desafio. Quase não desapego, temi perder o que vivenciara”. Até compreender que a Edisca e a Dora Andrade (mentora da escola) “serão sempre minha referência maior, como pessoa, mulher, professora, coreógrafa e até mãe, pois lá que me vi como gente que pode e faz”, pontua. Segue em novas provações ao fincar-se nas redistribuições de sonhos, mais próxima ainda do seu bairro, e se alarga nos olhares fulgurantes das novas gerações de aprendizes.

A ousadia de Katiana é vigorar em triunfos desdobrados, multiplicar vias estruturantes, se provar em entregas pessoais e incutir nos alunos a ideia de apropriação dos espaços e bens públicos a que têm direito, mas também identificar que são forças-motrizes capacitadas a se distinguir e comporem (re)ações em prol do coletivo. Nos méritos de Pena, a coreógrafa recorda as emoções lhe presenteadas na criação ainda do primeiro balé para as crianças do CCBJ, Sonhos. Montado “a partir do que a garotada me contou de seus intentos”, lembra sensibilizada que queriam “ser igual à tia Katiana ou médica no posto de saúde; veterinária pra cuidar dos gatos da rua ou advogadas para ajudar parentes detentos”. Katiana reconsidera “o impacto de ouvir isso de crianças de sete, oito anos”!

Quase 10 anos depois das premissas fantasiosas dessa garotada, elas são ainda “a minha realização, ao vê-las mais adultas, atingindo sonhos maiores, como a Tainá já na faculdade de Fisioterapia, a Beatriz na UECE fazendo Educação Física, como a Cibelly Araújo, e a Raíssa Nascimento nos concursos para a vida”. Os porquês de “continuar a conviver num bairro que está diariamente nas páginas policiais, num cenário de horror, criminalidade, do tráfico e com tudo de ruim que se coloca, e que de fato é verdade”, Katiana fala que “só faz sentido ficar lá por ter as ferramentas para melhorar, dar o ‘colorido’ pelo menos na minha rua”, minimiza a alargadora de ensejos.

Katiana distingue, que “sempre trabalha em projetos com cunho social, sem fins lucrativos, pois é só como me realizo”. Inconformista, se infligiu inúmeros momentos de sufoco na estabilidade financeira para tocar dianteiras missionárias. Ao levantar o SDKP, ainda desempregada, “a peia foi mais forte”, recorda rindo do próprio nível de exigência. Também recorre às dores ao deixar a Edisca há 11 anos, e ao sair do CCBJ ano passado, em busca de outros encargos compartilháveis. Mesmo assim ainda reluta em dizer, finalmente, que “me sinto muito realizada”, pois logo reage que tem “muito ainda a fazer”.

Não para nunca, então os créditos lhe chegam. Após o prêmio pelo Sated/CE como Coreógrafa do Ano, a surpresa lhe “serviu também para tombar preconceitos, para também entenderem que se tem ‘Dança’ no Bom Jardim, feita por alguém dali, vinda de projetos sociais. Alongou meu olhar e realização profissional, me dando a credibilidade, que não me permitia, de me incluir no mercado de coreógrafos”, comemora. Desde março passado, Katiana tem novo contrato para poder expandir e partilhar seus saberes.

Do convite para coreografar um ainda sigiloso espetáculo, que logo estréia e ficará em cartaz permanentemente, ela nos adianta que o Ceará Show será “uma representação lúdica com atuações, músicas e danças sobre a formação cultural e social do Ceará. Encantará turistas, mas, sobretudo, fará os cearenses se identificarem com a própria história, que nem todos conhecem. A grandeza do musical triplicou a minha responsabilidade de falar via coreografias de personalidades como o Padre Cícero em procissão, dos movimentos do guerreiro Dragão do Mar, ápices das sequências de dança que criei – uma de extraordinário glamour, outra marcada pela delicadeza da simplicidade”, revela. Exala que foram “momentos de fortes reflexões sobre a nossa história; me vi no enredo, na proposta do espetáculo, que está magnífico!”.

Pena, talvez por já ter passado tantas privações e aviltes, conta só com o vale na vida. Traz em si o inesquecível apoio recebido e o espalha com honestidade dadivosa em mudanças pela arte-dança e na militância que gera ganhos coletivos. O que ainda deseja pra si mesma? Dar ao outro a vez de ser um intenso Corpo-Mudança. Katiana reitera só “querer mais condições para dar aos meus pais e minha família o conforto da estabilidade, pelo menos do básico, como o comer”, mas festeja já na certa constância financeira, que “dará para suprir algumas deficiências no SDKP”, desafia-se outra vez com gigantismos a proliferadora de desígnios.

Serviço

Studio de Dança Katiana Pena
Rua Mirtes Cordeiro 3147- A, – Bom Jardim
Fone: (85) 985.298.062
E-mail: katiana.bailarina20@gmail.com

EDISCA – Escola de Desenvolvimento e Integração Social para Criança e Adolescente
Rua Des. Feliciano de Ataíde, 2309 – Água Fria
Fone: (85) 3278.1515 / 988.691.180
E-mail: edisca@edisca.org.br
Site: edisca.org.br

Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ)
Rua 3 Corações, 400 – Bom Jardim
Fone: (85) 3497.5981
E-mail: comunicacao.ccbj@gmail.com
Site: ccbj.redelivre.org.br

Circo Escola Bom Jardim
Rua 3 Corações, 762 – Granja Lisboa

Colaboradores

Kiko Bloc-Boris

Kiko Bloc-Boris

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É jornalista e assessor de imprensa ainda nas horas não vagas, mas tem apetite voraz por conhecer novos temperos que ampliem o paladar para o melhor da vida.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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