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Histórias

Bom Jardim Produções, uma trajetória que poderia dar um filme

Com Josenildo Nascimento e Gislândia Barros Por Jonathan Silva, Igor de Melo
26.fev
2019

No andar de cima de uma casa no bairro Parque São Vicente, duas meninas discutem por causa de um jogo de pedras. Parece uma cena espontânea, brincadeira de criança, não fosse por uma pequena equipe de cinema atenta a todas as falas e gestos de Sara e Letícia, as duas meninas que, na verdade, são atrizes. Câmeras, microfones e luzes estão no foco da atuação. É dia de filmagem do filme infantil Os Maluvidos. Capitaneando a equipe estão Josenildo Nascimento e Gislândia Barros, diretores do filme e fundadores do coletivo Bom Jardim Produções.


*Foto: Acervo Bom Jardim Produções

O grupo é conhecido no meio cinematográfico cearense por se apropriar de todos os recursos disponíveis para contar uma história através da lente das câmeras. Juntos no set, o casal faz jus a fama. Gislândia atua como atriz e produtora junto do marido Josenildo, que cuida da direção e roteiro. Os dois revisam texto, orientam posição de luz e repassam falas com as garotas.

Dotado de um carisma pedagógico, o diretor se abaixa e fala com as meninas: “Nessa fala aqui vocês fizeram errado. É assim ó”. Mostra o texto impresso e repete uma praga de maldizer utilizada na cena da brincadeira. “Ah sei, sei, me lembrei”, responde Sara, que tem apenas 10 anos.


*Foto: Acervo Bom Jardim Produções

De recursos humanos, o coletivo é integralmente formado por oito moradores do grande Bom Jardim (a maioria adolescentes) que se dividem entre iluminação, câmera, fotografia, som, maquiagem e, obviamente, elenco. Em termos de aparelhagem, tudo pode ser revertido em equipamento. O microfone direcional, por exemplo, é feito com dois cabos de vassoura.

Surgido da vontade de Gislândia em dar protagonismo às crianças do Bom Jardim, Os Maluvidos promete misturar comédia, aventura, ação e uma pitada de terror. Está cotado para ser lançado em julho desse ano. O longa metragem será o primeiro filme infantil rodado no bairro. Quando se trata do Bom Jardim Produções e seu diretor, o pioneirismo não se restringe somente a cinema.

Josenildo Nascimento fez de tudo que era possível dentro do diâmetro da arte. Engajado, em seus 40 anos de vida já esteve envolvido com histórias em quadrinhos, radionovela, teatro de rua, comunidades eclesiais de base, movimentos políticos de esquerda, bandas de rock, grupo de música infantil, oficinas de audiovisual, educação popular e cinema, onde estacionou sua inquietação.

A verve começou ainda na infância. Quando criança, de tanto ler Turma da Mônica, decidiu que queria fazer seus próprios quadrinhos. ”Desde dos meus dez anos nunca parei de fazer quadrinhos”. Até hoje Josenildo guarda algumas de suas produções mais estimadas, como O Cotidiano de Dona Chica na Luta contra a Tuberculose, elaborada em 2009 quando era educador popular da Secretaria Municipal de Saúde de Fortaleza.

“Eu queria fazer filmes e brincava de teatro. Toda vida eu escrevia roteiros, acho que até meus 16 anos. Lá na minha rua chamava meus amigos e minhas amigas para encenar lá em casa”. Ele garante que a brincadeira era tão envolvente que até as mães dos amigos mandavam os garotos para sua casa, pois achavam a atividade produtiva.

Não demorou muito para que o teatro saísse de casa e fosse para a rua. A ponte entre os dois ambientes foi a Igreja do Parque São Vicente. Após integrar o grupo da igreja, Josenildo percebeu que atuação poderia ser praticada entre os jovens. Como prova, ele entregaria uma Paixão de Cristo que pudesse ser realizada nas ruas. “Eu era um adolescente de dezesseis anos. Foi massa, uma experiência fantástica. As pessoas já ficaram lá fora de casa todas arrumadas esperando a gente sair e ver a Paixão de Cristo passar em frente à casa delas.”

A década de noventa foi um período de ações múltiplas para o bonjardinense. Quando não estava atuando no teatro ou desenhando, se apresentava com a banda de pop rock Beltsons, surgida num período que, segundo Josenildo, “cada jovem queria ter sua banda de rock. O jovem organizado mesmo fazia uma banda de rock aqui no Bom Jardim”.

O corte abrupto que o separou do que gostava de fazer surgiu no começo dos anos 2000. Como nenhuma de suas ocupações dava retorno financeiro satisfatório, teve que encarar o trabalho assalariado. “Eu quase desisti da arte em geral. Em 2002 eu precisei trabalhar no setor formal. A partir de 98 logo, eu achei que nunca iria mais trabalhar com arte. Sofria pra caramba.”

Foi só em 2003 que Josenildo voltou a respirar teatro, através do Grupo Semearte – hoje, Grupo Pé na Rua. Os encontros eram promovidos pelo Movimento de Saúde Mental Comunitária, instituição socioterapêutica que atua no Bom Jardim com a melhoria da saúde mental. Foi lá também que conheceu sua companheira de trabalho e futura esposa, Gislândia Barros.

Assim como o marido, Gislândia cultivava o sonho de ser atriz desde pequena. “Dizia para todo mundo que queria ser atriz, na escola dizia que queria ser atriz. Ficava de frente para o espelho atuando e chorando”. Ela entrou no teatro em 2006, ainda adolescente e com pouca experiência.

Reconhecendo-se como iguais, Josenildo encontra em Gislândia uma parceira que poderia lhe ajudar a levar em frente o sonho de fazer cinema no Bom Jardim. “Quando eu olhei para ela, olhei possibilidades. Pensei ‘essa menina é doida, igual a mim’. E eu era doido também, pensava que era doido”. O cineasta até hoje lembra como foi o pedido: “‘Gislândia, bora fazer um filme? Bora!’”, e todos mangavam de nós. O pessoal mangava mesmo”.

No começo, a ideia não foi bem recebida entre os colegas de teatro. Achavam que os dois queriam apenas uma desculpa para namorar. Josenildo garante que o relacionamento com Gislândia era puramente profissional: “O namoro foi consequência”. Outro assunto que causava desconfiança era o enredo do filme: uma história de terror sobrenatural que incorporava assassinatos e satanismo dentro de uma clínica.

Nomeado O Inferno é Aqui, o filme foi gravado de madrugada no Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do Bom Jardim, em 2009. Um feito obtido após uma negociação entre a equipe de Josenildo e o MSMC, que gerencia o centro junto com a prefeitura. Estrelada por Josenildo, Gislândia e alguns atores do grupo Semearte, a história narra a sobrevivência de um médico e uma enfermeira em meio a eventos sobrenaturais em um hospital inóspito.

A primeira obra é a essência do cinema “faça-você-mesmo”. Gravado com uma câmera doméstica, maquiagem improvisada e trilha sonora de domínio público, o filme conseguiu captar todos os clichês do horror – além do respeito dos antigos companheiros de teatro.

O segundo filme, Apenas Detalhes, focava em romance. Mais experiente, o casal estava mais solto para ousar. Até hoje é comentada a cena final do filme, onde Josenildo puxou uma câmera Cybershot de 12 megapixels utilizada nas gravações através de cordas alinhadas em ganchos de rede.

Apenas Detalhes foi lançado em 2011 com uma campanha de marketing bem orgânica, segundo explica Josenildo: “Botamos na locadora da minha mãe. A galera locava mesmo e a galera curtia. Foi um sucesso na comunidade”. Foi tanto sucesso que o DVD não tardou a cair na mão da pirataria.

A obra máxima do Bom Jardim Produções veio em novembro de 2015. A comédia Botija realizava uma ambição do coletivo em fazer um filme de época, inspirada em uma história vivida pela mãe de Josenildo, Marlene Ferreira. “Fizemos um longa de época só com dois mil reais. Eu quase não fiz. Não dava para fazer um filme desses com pouco dinheiro”. O recurso deu para cobrir alimentação dos atores, caracterização, viagem, edição e trilha sonora. Finalizado, ainda foi exibido no Cine São Luiz e nos municípios de Jaboti e Beberibe.

Botija foi um divisor na carreira do coletivo pois, após o reconhecimento regional com o lançamento do filme, surgiram as propostas de levar a experimentação cinematográfica em oficinas. Isso resultou em curtas como Marcas (2018) e Nunca Pare de Sonhar (2018), produzido por jovens estudantes. Em 2016, o Bom Jardim Produções ganhou o prêmio Fortaleza Criativa, promovido pela Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secult). Como contrapartida, o curta de terror Vânia (2016) foi produzido no Colégio Vencer.

Após dez anos de filmagens, viagens, exibições, tentativas de desistência, burocracias, espetáculos, aparições na mídia, oficinas em escolas, algumas concessões pessoais e novos membros no coletivo, o casal se sente mais realizado com o sucesso do que à margem dele. “A esperança não me deixou desistir. Tenho esperança que é possível. Por isso não desisti ainda. No dia que eu perceber que não é possível, aí eu realmente digo pra galera que vou atrás de uma lavagem de roupa pra mim”, reflete Josenildo. Quando se tem uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e o Bom Jardim inteiro como set de filmagem, desistir está fora do roteiro.

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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