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[Patrimônios Históricos] - A Casa de Juvenal Galeno: o lar do artista cearense

Por Leila Nobre, Gabriel Gonçalves, Michele Boroh

Acredita em Vós

28.jul
2016

Leila Nobre visita a Casa de Juvenal Galeno, um dos grandes nomes da poesia cearense, e destrincha a memória cultural do Estado através das histórias do poeta e do incontável número de artistas que frequentaram e frequentam a casa verde do Centro.

Foi no ano de 1888 que o Centro de Fortaleza recebeu uma de suas edificações mais icônicas: a Casa de Juvenal Galeno da Costa e Silva, localizada na Rua General Sampaio, antiga Rua da Cadeia. Construída pelo poeta, a casa verde foi transformada no Salão Juvenal Galeno (Centro de Desenvolvimento Cultural do Ceará) por sua filha, Henriqueta Galeno em 1919Singela e de tradição poética, a casa é mantida pela Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (Secult) e dividida em dez cômodos. Dentre eles, duas bibliotecas, uma pequena editora e salões abertos à cultura.

Por amor ao pai e atendendo a um pedido seu, Henriqueta abandonou a carreira de jurista e passou a se dedicar a ele e a sua obra, virando secretária do pai – que ficou cego em 1906 por causa de um glaucoma -, lendo para ele livros, revistas e jornais diários. Mulher de ação, a jurista diplomou-se em Direito em 1918. Participava de discussões feministas e criou e instalou o Centro de Estudos Juvenal Galeno, a Ala Feminina e a Editora Henriqueta Galeno, todos destinados à literatura.

Em 27 de setembro de 1919, aniversário de Juvenal Galeno, era fundado o Salão Juvenal Galeno, com a presença de um numeroso público, composto por escritores, poetas, artistas locais e também por visitantes de passagem pela cidade. Em pouquíssimo tempo, o salão tornou-se conhecido graças às maravilhosas palestras e reuniões que sempre atraiam importantes nomes da literatura cearense, como Dolor Barreira, Euclides da Cunha, Mário da Silveira, Filgueiras Lima, Raquel de Queiroz, Demócrito Rocha, Quintino Cunha, Patativa do Assaré e muitos outros que defenderam suas ideias e sonhos naqueles tempos áureos.

Assim, a casa foi transformada numa verdadeira tribuna e, no dia 9 de junho de 1930, foi fundado no Salão a Academia de Letras do Ceará – que não é a Academia Cearense de Letras -, presidida por Adonias Lima. À noite, a animação ficava por conta dos saraus literários, prestigiados por ilustres nomes, como Mozart Soriano Albuquerque, Leonardo Mota, Fernandes Távora, Jader de Carvalho, Raimundo Girão, Moreira Campos…

Juvenal Galeno faleceu em 1931, aos 95 anos de idade, após criar os sete filhos. Cinco anos depois, Henriqueta inaugurou o Salão Nobre da instituição, mantendo aceso o gosto e o estímulo pelas letras. Foi também nessa ocasião que o local passou a se chamar Casa de Juvenal Galeno, permanecendo sob a incansável orientação de Henriqueta Galeno. Posteriormente os cuidados do patrimônio cultural (e literário) foram passados para as mãos de Cândida (Nenzinha), Alberto, Amílcar e atualmente pelo bisneto do poeta, Antônio Galeno.

Prestando incontáveis serviços à vida intelectual do Ceará, sob a incansável orientação de Henriqueta Galeno e posteriormente de Cândida (Nenzinha), Alberto, Amílcar e atualmente pelo bisneto do poeta, Antônio Galeno, a casa viveu sua fase áurea nos anos de 1930 e 40, recebendo frequentemente artistas, intelectuais e políticos que cultivavam o gosto pelas letras.

Ainda em 1936, Henriqueta criou na Casa de Juvenal Galeno, a Ala Feminina, ação considerada bastante audaciosa frente aos tabus que limitavam as atividades das mulheres na época, socialmente responsáveis, apenas, pelo cuidado dos afazeres domésticos. O objetivo da ala era congregar a cultura da mulher cearense, que tinha na própria Henriqueta um de seus nomes mais representativos. Apesar das adversidades, seu espírito empreendedor e visão ampla e futurística, deu à mulher cearense um espaço para mostrar seus dons, seja na poesia, prosa ou literatura como um todo. E em 1949, um fruto dessa iniciativa foi criado: a revista “Jangada”, que circulou até setembro de 1954.

Ao longo de sua existência, a Ala Feminina estabeleceu intercâmbio cultural com vários estados do Brasil e com o exterior. A entidade manteve por muito tempo uma coluna no extinto jornal “Correio do Ceará” que, juntamente com a revista Jangada, divulgavam o nome de mulheres escritoras. Adísia Sá, Risette Cabral Fernandes, Heloneida Studart, Maria de Lourdes Vasconcelos Pinto e Evangelina Acióli foram alguns dos nomes lançados pela revista.

Anos mais tarde, outro importante serviço foi oferecido pela Casa de Juvenal Galeno: uma biblioteca. Criada em 1958 com um acervo composto pelos livros do próprio poeta. Posteriormente, o espaço foi incorporando volumes que pertenceram a Mozart Monteiro e César Coelho, além de doações do escritor Mozart Soriano Albuquerque. A Biblioteca da Casa de Juvenal Galeno é, portanto, uma das maiores em obras da história das nossas letras.

Dado a sua importância como memória cultural do Estado, em 27 de setembro de 1975, o Governador César Cals concedeu à Casa de Juvenal Galeno a mais alta comenda do Estado à Casa de Juvenal Galeno: a Medalha da Abolição.

As riquezas da casa verde não são compostas apenas pelo vasto acervo bibliográfico. O espaço também abriga estátuas de mármores vindas da Europa – que representam a música e a maternidade -, bustos de granitos – de Goethe e Schiller -, móveis coloniais, arquitetura esmeralda e jardim assombreado. Possui também dois grandes auditórios. O principal, com capacidade para 120 pessoas, dispõe de um pequeno palco com um piano de meia cauda e uma obra do pintor, desenhista e poeta brasileiro Otacílio de Azevedo. O outro auditório, com capacidade para 150 pessoas, é ao ar livre e embelezado por frondosas mangueiras.

No salão de reuniões, são espalhadas fotos dos escritores, poetas e sócios da instituição. Também é possível apreciar a escrivaninha de Juvenal Galeno, objetos de uso pessoal do poeta, tais como fotos, livros, diplomas, certificados, comendas da família Galeno, móveis centenários de luxo, faqueiros de prata, dois medalhões de terracota – dos quais ressaltam os perfis nobres de Víctor Hugo e León Gambetta -, louçaria importada, cristais e vários outros utensílios utilizados pela família.

Auditório da Casa de Juvenal Galeno

Henriqueta Galeno, parceira intelectual do escritor no final de sua vida, ficou responsável pela escrita das últimas obras do pai que, àquela altura, já havia perdido a visão. Enquanto ele criava e ditava, ela escrevia. Pelas mãos de Henriqueta, Juvenal Galeno escreveu “Medicina Caseira” e “Cantigas Populares”, livros que só vieram a público em 1969, pela editora fundada pela filha. Inclusive, foi ela que ocupou sua cadeira, a de número 23, na Academia Cearense de Letras.

A casa estruturada por Henriqueta Galeno é ainda hoje um dos pilares da memória que mantém Juvenal Galeno vivo. Apesar dos novos espaços culturais de Fortaleza, a edificação sempre esteve de portas abertas a todas as manifestações artísticas e, ainda hoje, é palco de reuniões de trovadores, cordelistas e poetas, sendo considerado o principal abrigo dos escritores que ainda não têm nome conhecido nos meios cearenses.

Sobre as entidades que integram a Casa:

Como ponto de encontro da cultura, a Casa de Juvenal Galeno congrega várias entidades: Ala Feminina da Casa de Juvenal Galeno (AFCJG), Academia Feminina de Letras do Ceará (AFELCE), Associação Cearense de Escritores (ACE), Academia de Letras Juvenal Galeno (ALJUG), Academia de Letras e Artes do Estado do Ceará (ALACE), Academia de Letras dos Municípios Cearenses (ALMECE), Cooperativa de Cultura do Ceará (COOPECULTURA), Comissão Cearense de Folclore (CCF), Centro Cultural do Ceará (CCC), Centro Cultural dos Cordelistas do Nordeste (CECORDEL), Associação de Ouvintes de Rádio do Estado do Ceará (AOUVIR-CE), Associação dos  Artistas e Proprietários de  Circo do Estado do Ceará (APAE-CE), Núcleo dos Amigos dos Mágicos do Ceará (NUAMAC), Associação Gnóstica de Estudos Antropológicos e Culturais, Arte e Ciência (AGEACAC), Teatro Experimental de Cultura (TEC), Grupo de Canto Lírico – Alvarus Moreno (GCL), Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Ceará (SATED), Oficina de Violão (OV),  Grupo de Estudos Literários – Além do Verso, Grupo Chocalho (GC), Associação Maria Mãe da Vida (AMMV) e Associação dos Humoristas Cearenses (AHC). Todas essas entidades realizam reuniões regulares e mantém intercâmbios com outros grupos e entidades afins em quase todo o Brasil, divulgando o potencial artístico e cultural do Ceará.

Colaboradores

Leila Nobre

Leila Nobre

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Leila Nobre é pesquisadora Memorialista. Idealizou e mantêm o site Fortaleza Nobre, onde procura resgatar a Fortaleza antiga, em suas ruas, praças, praias, monumentos. É casada e mãe de três meninas. Ama ler e escrever.

Gabriel Gonçalves

Gabriel Gonçalves

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É fotojornalista desde 2008, tendo passado pelos três maiores jornais de Fortaleza. Trabalha com cinema, tenta ser músico, e à noite é facilmente encontrado servindo cerveja em alguns vários bares da capital alencarina. Atualmente atua como freelancer e em parceria com coletivos de produção audiovisual, ONG's, e entidades de direitos humanos. Acredita que a fotografia é meio e fim para a revolução social.

Michele Boroh

Michele Boroh

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Nasceu no Dia do Jornalista. Aos 9 criou o Jornal dos Amigos do Prédio, em folha de caderno e à base de canetinha. Agora, aos 31 e após 8 em TV, é coordenadora de conteúdo e colunista de VÓS, com a mesma paixão da infância. É também cronista no Tribuna do Ceará, viciada em livro, cavaquinista de churrasco e mãe de um Bull Terrier. Ariana, de sol e lua.

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