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[Olho] - Cearense que faz arte é, antes de tudo, um arteiro

Por Thiago Gil, Gabriel Gonçalves
03.abr
2018

Uma reunião de referências, estilos e traços com uma ideia em comum: a arte.
O múltiplo Thiago Gil indica 7 novos artistas cearenses que você não pode deixar de seguir, dar like e compartilhar. De Fortaleza para o mundo, a coluna Olho apresenta uma identidade alencarina da arte urbana que rompe fronteiras

Thyago Cabral

Instagram: @thyagocnc

Como foi a sua transição da ilustração para o Grafite?
Foi muito natural, pois sempre gostei de experimentar novas técnicas, procedimentos e materiais nos mais diversos suportes. Produzir na rua, sem a segurança da sua cadeira, da sua tela de computador, sem a limpeza dos seus “pincéis digitais” é totalmente diferente, nem melhor nem pior do que a ilustração. Particularmente, o que me motiva a pintar na rua é toda a produção, especialmente o durante. Juntar os amigos, me sujar com as tintas, conhecer novos locais e trocar experiência com as pessoas que passam na hora. O resultado final, o tempo apaga. O que foi vivido durante a produção, não.

Qual a sua inspiração?
Acho que o humor. Seja ele gráfico, em forma de piada, a brincadeira do povo na rua, tirar onda com o amigo porque o time dele perdeu, a brincadeira com a criançada em casa… Existem outras coisas, claro, outros artistas, a tecnologia, a cidade… Mas o humor seria o carro-chefe.

Como vê sua arte nas ruas?
Uma possibilidade de me conectar mais com a cidade e com as pessoas. Uma possibilidade de tirar um sorriso ou uma reflexão de uma pessoa que nunca vou conhecer. De trazer cores a lugares que nunca tinham sido explorados por um olhar.

Felipe Yarzon

Instagram: @yarzon_

Como começou a grafitar estêncil?
Eu sempre tive contato com a rua. Comecei na pichação e queria encontrar outra saída para fazer parte da cidade. Como eu não sou muito talentoso no desenho, fui atrás de outras técnicas e encontrei uma que dava para reproduzir frases em Fortaleza: o estêncil. Foi através da parceria com o Serginho Hansen (um amigo que não está mais entre nós) que, em 2011 ou 2012, nasceu o “Sorria mesmo sem estar sendo filmado”. De lá pra cá, fiz outras frases tanto na capital como em outras cidades do Ceará.

Temos alguns exemplos de artistas brasileiros que trabalham com textos nas ruas, como o VJ Suave (Mais amor por favor) e até mesmo o carioca Gentileza (Gentileza gera Gentileza), mas nenhum deles com tantos “recados” como você. Como acha que seu trabalho entra na vida das pessoas?
Confesso que comecei a fazer sem pensar no que os outros se sentiriam. Mas logo chegou o feedback de várias pessoas que eu nem conhecia. Isso acabou sendo um grande estímulo para fazer cada vez mais frases.

Uma característica do seu trabalho é a exposição em todo canto da cidade, quase com uma relação marginal. Como define uma localização para “lançar” seu estêncil?
Eu costumo andar com todos os materiais dentro do carro. Se aparecer um lugar interessante, estaciono e faço. São poucos os lugares que eu “namoro” para grafitar depois. Geralmente é na hora, sem pensar muito.

Jabson Rodrigues

Instagram: @jabsonrodrigues

Lisérgico, colorido, quase montado com base nos estilos dos anos 1970. Como vê e traduz um pouco da sua arte?
Sou facilmente tocado por formas, cores, sons, movimentos e sensações, que se tornam experiências que marcam os pensamentos. Desenhar é o meio que uso para exteriorizar essas reflexões e dar espaços para novas experiências. Pontuar um estilo é quase impossível, mas vejo alguma influência mesmo que involuntária de Art Noveau e Pop Art, com toda gama de significações que estes termos carregam; então acaba fazendo sentido os adjetivos citados: colorido e psicodelia, ambos ligados ao Pop e à Noveau. Porém, quando desenho, não penso nisso.

Você é criador de uma fonte muito marcante em vários de seus trabalhos. Como a criou e como ela mexe com o que você faz?
Minha infância foi vivida diretamente na cultura do sertão, de subsistência e isso, aqui e acolá, se evidencia no que faço. Não é algo que eu busque, isso me persegue. Quando criança, via cicatrizando as feridas das caligrafias em couros de animais. Descobri mais tarde o Alfabeto Armorial de Ariano Suassuna, fonte direta de inspiração, que vou adaptando da minha maneira, servindo como um elemento gráfico e somando informação ao conteúdo do desenho.

Seu estilo é tão variado que fica difícil dizer que tenha um único definido. Acha que isto é uma afirmativa ou consegue definir um estilo ao seu trabalho?
Particularmente não gosto muito do termo Lowbrow, mas ele abrange artistas que têm uma referência na cultura underground: música rock/punk, comics, zines, games, cinema alternativo, desenhos animados sci-fi, assim como arte pop e outras referências. E, com certeza, toda essa miscelânea me influencia também, contudo deixo a criação fluir sem me prender a nada específico. Se algum dia eu sentir que o desenho figurativo já não me satisfaz, vou tentar outra coisa sem qualquer cerimônia. Liberdade criativa vale a pena.

Henrique Viudez

Instagram: @henriqueviudez

Sua exposição Degênero aborda questões muito importantes e que precisam ser discutidas todos os dias. Como você a enxerga e quais pontos ela discute?
A Degênero foi o primeiro resultado de uma linha de pesquisa que venho seguindo há um certo tempo. A ideia inicial era a de retratar figuras de gênero indefinido ou que o gênero não fosse o fator principal do corpo nos trabalhos. Mas me aprofundando na pesquisa, conhecendo pessoas e histórias, fui percebendo que não tinha como me manter à parte das questões que esse tema traz. Essa exposição fez parte do Laboratório de Artes Visuais do Porto Iracema das Artes e foi, também, o início das minhas experimentações com a aquarela, com a qual acabei me identificando bastante. Na exposição, tentei abordar alguns dos temas que foram surgindo nas conversas e “entrevistas” que fiz com a Luma Nogueira, que é travesti, e a Samila Marques que é transexual. São delas as falas nos áudios das cabines que estavam na exposição. A intenção dos trabalhos era a de se criar um espaço que levasse a uma reflexão sobre todas as violências, negações e impedimentos que os grupos LGBTTs enfrentam todas as horas de todos os dias durante a vida toda.

Fale um pouco de como seu trabalho se formou.
Sempre fui autodidata e muita coisa do que eu faço (e acho que todo artista) vem das experiências de vida, das pessoas, dos encontros etc. Alguns temas do início da minha carreira remetiam muito a algo místico, a um sagrado e profano, ou algo intangível, inalcançável, que com o tempo foram se tornando menos etéreos. A Degênero é minha exposição mais humana, mais física porque tinha de ser. A próxima já é outra transformação.

Quais materiais mais te deixam confortável para trabalhar e como carregam um pouco da sua história como ilustrador, grafiteiro e artista?
Meu processo é muito irregular quando se trata de técnicas e materiais. Não sou um desenhista com dezenas de sketchbooks; tenho uma aqui com quase 10 anos e ainda deve ter umas 2 folhas em branco! Eu gosto mais de óleo do que de acrílica, mas devido a essa irregularidade minha, o acrílico acaba se tornando mais rápido pra mim. Tenho uma facilidade maior em produzir com aquarela, mas não pretendo fazer dela meu processo principal. Gosto muito do spray. De vez em quando sinto a tentação das ruas, e aí me resolvo com estêncil. Então nem sei se “conforto” seria a palavra certa no meu caso.

Narcélio Grud

Instagram: @narceliogrud

Fale um pouco da sua história e como a arte entrou na sua vida.
Gosto de pensar que a rua sempre foi meu playground; empinar pipa, jogar bola e aproveitar a rua eram minhas diversões quando criança. E desde cedo entrei pro mundo underground, pichação, punk rock, e esta foi uma porta de entrada para arte urbana em minha vida.

Sabemos que você além de organizador do maior festival de arte urbana da cidade é um multiartista, alguém que não se prende, que prefere ousar. Como vê sua criação? Como escolhe o que quer abrir os olhos, ouvidos e sentidos de quem recebe seu trabalho?
O fato de ser inquieto sempre me faz inovar e buscar formas alternativas de criação. E por ser tão inquieto minha arte começou a atingir outros cantos do mundo, e com isso vários festivais começaram a aparecer: México, Alemanha, Inglaterra, Chile, Argentina… E muitos lugares em que pintei me inspiraram na criação do Festival Concreto, que traz artistas do mundo inteiro para interagir e modificar a cidade em que vivo, Fortaleza. Como curador do festival, tento sempre trazer uma gama diversa de artistas, para que suas criações ajudem na inspiração e formação de novos artistas.

Como um formador e difusor de arte na cidade, você consegue ter um cenário dela. Como vê este cenário e como seu trabalho se encaixa nele?
Fortaleza já faz parte do cenário mundial da arte urbana. Alguns artistas já de ponta se misturam com outros artistas que se formam na cidade. E com isso já venho desenvolvendo outros projetos, como o Amplitude, uma escola de arte urbana apresentando inúmeros conceitos e estilos.

Acidum (Tereza de Quinta e Robézio)

Instagram: @acidumproject

O Acidum é um coletivo que ultrapassou as fronteiras do Brasil e ganhou o mundo. Como isso aconteceu na vida de vocês?
Primeiro com muito trabalho. Iniciamos pintando e já no início fomos convidados para inúmeras exposições, tivemos até que segurar um pouco a onda de aceitar os convites de fora para fazer mais em Fortaleza, iniciar os trabalhos por aqui. Nosso laboratório alencarino durou quase 5 anos e gerou uma exposição intitulada Entregue às Moscas, um retrato do centro da cidade que também acabou nos dando uma projeção externa. Primeiro foram surgindo os convites pelo Brasil e depois aconteceu a Eurotrip, onde tudo começou a acontecer aos olhos do mundo.

Como veem suas influências? Quem inspira vocês na hora de criar?
Difícil dizer o que nos influenciou, é uma questão muito ampla. Conhecíamos muitos grupos, coletivos e artistas plásticos. Mesmo assim, o que mais nos influencia na formação do Acidum acaba sendo outras fontes artísticas, como música, cinema e outras expressões. De um conceito bem amplo nós vamos do Massive Attack ao Gorillaz, de um poema aos muralistas mexicanos. Tudo nos inspira e tudo monta nossos trabalhos no Acidum.

Quais são os projetos mais marcantes na história do coletivo pra vocês?
Para nós os trabalhos mais marcantes são os que nos trouxeram as melhores vivências: região do Cariri, as residências em Olinda, o Rio de Janeiro, pintar a embaixada em Cabo Verde e também o festival 20×21 Mural Project, que foi um evento muito marcante para nós. Resumindo: o que nos marca e move é o envolvimento com a cidade e com pessoas que a cercam.

Artur Bombonato

Instagram: @arturbombonato

Acho que uma definição importante do seu trabalho seria o “fine arts” das ruas. Como traduziu seu estilo quase de tela para as ruas?
Na verdade, foi um processo que aconteceu das ruas pras telas e daí uma coisa sempre alimentou a outra. No início experimentei coisas bem diferentes antes de começar a entender de fato qual o caminho do meu traço e o que eu queria e quero com ele. Foi quando comecei a estudar artes mais a fundo e me dedicar à pintura a óleo. Uma hora você percebe que está sendo fatalmente guiado para aquilo que o seu íntimo precisa fazer.

Os rostos são algo que te fascinam e também a quem recebe seu trabalho nas ruas. O que as faces falam pra você e como elas entraram em seu estilo?
Não só o rosto, mas a figura humana como um todo é o que há de mais direto em expressão, já que pra mim a arte é primeiro sobre nós, é sobre a vida. O rostos estão presentes ali até quando eu tento escondê-los.

Suas maiores inspirações?
O que mais me inspira talvez sejam as nossas relações na cidade e com a cidade, seja enquanto indivíduos ou enquanto sociedade, e eu gosto de explorar o caráter espiritual disso tudo. Além disso, de uma maneira geral, tenho referências que vão desde os grandes mestres da pintura até elementos do cinema, da fotografia e da arquitetura.

Colaboradores

Thiago Gil

Thiago Gil

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Designer, publicitário e pai do Miguel. Curte arte urbana, fotografia, exposições, vídeo, lambe-lambe e tudo que pode abrir a caixinha. Curador e sócio/fundador da Electric Circus Studio, uma galeria de arte que reúne exposições, palestras, oficinas, música, idéias e muito projeto aqui em Fortaleza.

Gabriel Gonçalves

Gabriel Gonçalves

Ver Perfil

É fotojornalista desde 2008, tendo passado pelos três maiores jornais de Fortaleza. Trabalha com cinema, tenta ser músico, e à noite é facilmente encontrado servindo cerveja em alguns vários bares da capital alencarina. Atualmente atua como freelancer e em parceria com coletivos de produção audiovisual, ONG's, e entidades de direitos humanos. Acredita que a fotografia é meio e fim para a revolução social.

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