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[Chegadinha] - Viver é melhor que sonhar

Por Gabriel Aragão
07.mai
2017

Sempre é dia de ironia no meu coração

Antônio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes. Um nome gigante, forte, titânico, e, como ele mesmo brincava: “Um dos maiores nomes da música popular”. Conheci a letra e o som desse poeta-cantor sobralense através dos meus pais e tios, assim como, acredito, quase toda a minha geração em Fortaleza. Não tão badalado quanto o Fagner, nem tão místico quanto o Ednardo, a marca do Belchior, pra mim, era ter os pés no chão e o olhar pro infinito.

Ficamos sabendo da sua morte na estrada entre São Paulo e Rio de Janeiro, rumo a mais um show da #TourPraieiro com os Selvagens, mas não dava pra gente confiar assim, de cara, nessa manchete. “Será que é verdade mesmo?”, afinal, são tempos de redes sociais: opiniões aleatórias e notícias falsas. Além disso, o estilo reservado que ele levou nos últimos anos só aumentavam o mistério.

Mas era verdade. Coração cearense apertado. Silêncio-rei. Cada um na sua, de fone de ouvido, olhava o borrão da estrada: a vida não para. Ninguém se falou por um tempo, mas, com certeza, estávamos ouvindo a mesma voz grossa, imponente e bigoduda. E se perguntava: “Quem foi o homem Belchior?”.

Desnorteado

Pra gente, que vem do Ceará, com sangue nos olhos e aquela vontade insaciável de se jogar na música, “pela lei da gravidade, disso Newton já sabia: cai no sul, grande cidade…”. Esse sentimento cristalizado pelo letrista em canções como “Fotografia 3×4” ou “Paralelas” é indescritível. De arrepiar. Uma tradução poética que toca gentilmente o tecido do inconsciente coletivo cearense. A palavra “desnorteado” ganha outro significado com Belchior.

O disco “Alucinação”, de 1976, é uma obra-prima. Sem mais. Que orgulho desse álbum! Faz qualquer um refletir tanto… Parece que foi escrito por um profeta. Sem exagero. Isso é muito raro na tal “música popular”, brasileira ou não. São temas de alguém que estava enxergando a condição mutante do ser humano a anos-luz e que veio lembrar como é que as coisas sempre foram (e dar o toque de como elas vão ser dali pra frente). Belchior era um cara comprometido com os contrastes.

Quando os Selvagens à Procura de Lei estavam escrevendo o segundo álbum da carreira – aquele lançado em 2013 – “Alucinação” foi um conforto muito grande, um amigo de verdade. Vivíamos questões delicadas como a mudança da casa dos pais, a mudança para São Paulo, a mudança de um jovem-adolescente para um jovem-adulto… O tal do novo, que sempre vem. O conflito de gerações. Era como se o artista tivesse me pegado pela mão e me mostrado que eu não precisava me apegar tanto ao que eu tinha ou à vida que eu levava até ali. Era como se o poeta me incentivasse a ter coragem, a ser desapegado e a aceitar que tudo mudaria. E com toda a razão. Por causa dessa inspiração escrevemos “Crescer Dói”, “Juventude Solitude”, “O Amor Existe, Mas Não Querem Que Você Acredite”, “Carrossel Em Câmera Lenta”, e tantas outras.

O cheiro da nova estação

É importante demais falar sobre a juventude enquanto se é jovem. Isso o Belchior deixa pra todos nós como um conselho infinito, um ponto de vista cristalizado no tempo. Tantas frases dele vem à cabeça… São pequenos ensinamentos: “desesperadamente eu grito em português”… Nossa belíssima língua portuguesa é um caldeirão sensível demais, tão largado por nós hoje em dia. Belchior nunca renegou suas origens, mas também nunca fez delas suas amarras. Ninguém segurava esse cara. Nunca o conheci pessoalmente, mas existem artistas que expressam a sua intimidade tão bem, que você se sente próximo, não importa a distância ou as barreiras.

Enquanto fã, sinto que ele era alguém que queria viver intensamente, sentir na pele, e seguir o seu caminho. Tinha opiniões fortes sobre drogas, sobre seguir ídolos e mestres. Era um poeta ácido de versos cortantes, guiado apenas pela nudez da verdade. Adoro o jeito que ele citava tantos heróis e obras geniais. João, ou melhor, John Lennon, Veloso, Bob Dylan, Fernando Pessoa, Edgar Allan Poe e Luiz Gonzaga (“Black bird, o que se faz?”, “Assum-preto me responde: ‘O passado nunca mais’”), criticando ou enfatizando, mas nunca sendo violento.

Elegante e medicinal… Uma pílula amarga que temos que engolir. “Sons, palavras, são navalhas…”, tal qual “A Escola das Facas”, de João Cabral de Melo Neto, que ele admirava tanto: a palavra é um ser cortante. O corte de uma nova invenção. O corte da mudança inevitável. O corte do cordão umbilical. Que a lâmina da sua voz possa ser ouvida por gerações e gerações.

Colaboradores

Gabriel Aragão

Gabriel Aragão

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Letrista e músico na banda Selvagens à Procura de Lei. Nascido e criado em Fortaleza, mora em São Paulo desde 2013, mas leva a capital cearense no coração e nos versos.

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