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Especial

Abrir o baú e compartilhar leituras

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
16.out
2018

“O livro é um recurso precioso, ele não pode ficar parado. É preciso que ele circule pela cidade e pelas pessoas”.

Ouso dizer que vivemos na era do compartilhamento. Além de fotos e vídeos, compartilhamos bicicleta, carros e… livros. Estes ainda em um ritmo diferente, com o receio daqueles que são apegados às suas estantes repletas de histórias e a ainda tão baixa adesão do brasileiro à leitura. Mas há quem pratique e estimule o diferente, que evidencie a troca como um ato de amor pela literatura.

Pela cidade, além das tradicionais livrarias e bibliotecas, é possível encontrar bibliotecas comunitárias livres, cafés com estantes para troca de livros e espaços para leituras, e pessoas que, por iniciativa própria, decidiram deixar livros livres por aí.

Livro Livre

Nossa história começa com a Annita Moura, psicóloga apaixonada por livros, que enxerga o desapego como forma de estimular o conhecimento. “Ler um livro para mim é como uma ida ao cinema. Compro, leio, tiro os ensinamentos que preciso e passo adiante.” Mas nem sempre o ato do desapego foi algo comum na sua vida e, como se considera uma colecionista, com os livros não seria diferente. Mas foi o contato com outra realidade que transformou suas prateleiras abarrotadas de livros em um projeto de incentivo a leitura.

Annita ressalta que a ideia do projeto Livro Livre “não é inovadora e já existe em vários lugares do Brasil e do mundo”, mas o despertar dela para essa iniciativa surgiu com uma experiência que teve quando foi morar em Brasília. “Morava perto de um açougue e o dono, Luiz Amorim, compartilhava livros. Ele colocou uma estante com livros do lado de fora, e as pessoas podiam pegar, doar ou trocar.”

“Passei a frequentar muito o açougue, ia toda semana e pegava dois, três livros, lia, devolvia e pegava outros sem gastar nada. E fiquei com aquela coisa: estou lendo muito e conhecendo muitos autores que eu nunca compraria, inclusive um dos meus autores favoritos li meu primeiro livro pegando na estante, e fiquei encantada com essa iniciativa.”

Quando voltou para a terrinha alencariana, ela quis começar o projeto de alguma forma por aqui, mas os empecilhos foram surgindo. Mas, por “coincidência do destino”, a escola onde trabalhava recebeu um número alto de doações de livros e não conseguiu absorver tudo, e foi a partir daí que Annita, mesmo sozinha, resolveu começar o Livro Livre Ceará.

Annita define o Livro Livre como um movimento de incentivo à leitura e ao compartilhamento de livros. “A ideia é que o livro circule pelas pessoas e pela cidade. Queremos que as pessoas valorizem a experiência da leitura, não a compra, o consumo do livro. Quando um livro é livre, ele alcança um número muito maior de leitores e seus benefícios de expandem.”

Há quatro anos, os livros livres são deixados em espaços públicos para que pessoas achem, leiam e compartilhem. Eles são perfurados, marcados e carimbados como um Livro Livre. Esse processo é realizado para evitar que esses sejam comercializados. Além de poder se deparar com um livro livre por aí, o projeto possui as Bibliotecas Livres, que são pontos de leitura compartilhada, onde você pode pegar um livro, levar para casa, ler e depois deixá-lo pela cidade.

A primeira Biblioteca Livre é a Garrateca, que além de ponto de leitura é posto de coleta, ou seja, também recebe doações de livros. Annita explica que nenhum desses livros precisam voltar para os pontos de leitura e a única solicitação é que ele não vá para uma estante e fique parado.

“Temos o costume de pegar um livro, ler duas páginas, marcar e deixar na estante. Daí, quando ele fica bem velhinho, decidimos que não vamos lê-lo e doamos para alguém ou vendemos para um sebo. Mas por que não fizemos isso antes? Por quantas mãos esse livro poderia ter passado? Eu sei que livro é caro e que gastamos dinheiro com eles, então, se você não quer doar, troca com outras pessoas. O doloroso é ver livro parado.”

Dos anseios proporcionados pelo projeto, está o de aproximar livros e leitores e fazer com que a literatura ganhe espaço e chegue a quem mais precisa desse estímulo. É incentivar a mudança de postura das pessoas, de não valorizar a posse do livro, mas de dividir as experiências literárias.

Compartilhar vínculos e histórias no Barroso

Descobrimos no Residencial Lago Azul, no bairro Barroso, um grupo de amigos que, movidos pelo amor literário e pelo desejo de mudar a realidade por meio da literatura, criaram há dois anos a biblioteca comunitária Viva o Barroso. O espaço é pequeno, ventilado e acolhedor. As prateleiras exalam o conhecimento de mais de dois mil livros, que vão de romances à histórias em quadrinhos, atendendo a todos que desejam desfrutar de algumas horas de leitura.

O espaço é mantido por cerca de 100 voluntários, dentre eles Raphael Rodrigues, professor de inglês e apaixonado desde os 13 anos por livros. Sua relação com a leitura começa pela influência da tia com quem morava. Ela possuía uma biblioteca no quarto e Raphael, curioso, começou a despertar para a literatura. “Iniciei lendo Marcelo Rubens Paiva, Nelson Rodrigues, a biografia da Olga Benário, o famoso Mundo de Sofia e não parei mais.” Ele reflete que depois de ler por muito tempo, “todo leitor deve ter a sensação de não ter com quem compartilhar os livros”, e é nesse momento que o desejo da biblioteca “explode em você”.

O desejo de compartilhar que explodiu em Raphael se espalhou pela comunidade desde que a Viva o Barroso surgiu, e é com aquele ar de pai orgulhoso ao olhar o crescimento do filho que Raphael garante que os vínculos entre as pessoas da comunidade ficaram mais fortes devido ao surgimento da biblioteca, que foi ocupada voluntariamente, ganhou vida própria e já faz parte do Barroso. “Começamos a perceber que se fechássemos a biblioteca causaria um desconforto, porque muita gente se apegou a ela. Por mês passam cerca de 240 pessoas, que são os frequentadores regulares.”

Exemplo desse vínculo é o mecânico de aviões Éder Abner, que foi convidado por Raphael para fazer parte da biblioteca. Éder terminou o ensino médio aos 20 anos e, até então, nunca havia lido nenhum livro, mas foi ao longo dessa interação, entre a organização de uma prateleira e outra, que ele “pegou” o gosto pela leitura. “Costumo ler muitos livros, mais do que eu já li em toda minha vida; gosto de ler romances e sociologia. Desde que cheguei aqui não parei mais de ler.”

Essa nova realidade faz com que Rapahel repense a afirmação reproduzida por muitos de que “o brasileiro não lê”. “Imagino em qual condição essa pessoa que não lê está. Se eu não tivesse o contato com os livros da minha tia, me pergunto se teria começado, porque geralmente começamos por influência de alguém, o vínculo é motivador, mas o acesso é muito importante.”

E é nesse contexto de quebrar estereótipos e criar vínculos que a Viva o Barroso promove o incentivo a leitura e, consequentemente, uma mudança social. Rapahel é categórico ao defender que os livros são capazes de causar interrupções na forma como as pessoas levam a vida. “Você leva a vida de determinada maneira, mas o livro, por ter uma forma de diálogo peculiar, faz com que em determinado momento o leitor seja arrebatado por uma ideia que contém ali e que muda a maneira dele agir diante da realidade.”

As mudanças no Barroso podem ser vistas por meio de Edegarde Dantas, uma devoradora de livros nata, que continua com as leituras em dia enquanto economiza por não precisar ir à livrarias ou à bibliotecas mais afastadas; ou o Eduardo, que aos 13 anos já leu mais de 200 livros de aventura e suspense; ou até mesmo as crianças que ao saírem da escola passam ali para devolver as leituras finalizadas e começarem novas. E assim a biblioteca comunitária vai conquistando mais frequentadores e voluntários, e incentivando a mudança dos indivíduos e da sociedade por meio do compartilhamento de livros.

Um café e um livro na Estação Mauá

Um nome que não passa despercebido por quem passa a pé, de bicicleta ou de carro pela avenida Santos Dumont, na altura do númeo 1453, é o Café Patriota. O nome já é elemento suficiente para chamar atenção, e combinado à decoração com as mini plantações de café, a pequena muda de pau-brasil e a réplica da primeira locomotiva que chegou ao país, denominada a “Baroneza”, refoça a sensação de surpresa maior. Ao entrar, recebe-se um folhetim contando a história dos quadros dispostos na parede que guiam o caminho até o local desejado. O cliente entra para tomar um café, e sai conhecendo um pouco mais sobre a história do Brasil.

O projeto Café Patriota, como os donos Anapuena Havena e Lincoln Chaves gostam de chamar, surgiu quando Havena estava fazendo pesquisas sobre a história do café no Brasil para escrever o romance Encantos do Café, ambientado no século XIX. “Durante os estudos, o patriotismo despertou na gente e o desejo de compartilhar esse sentimento também, por isso criamos o Patriota. Ele não foi uma ideia isolada, foi desenvolvido por nós e aqui colocamos a nossa alma.”

O Café busca incentivar não só o conhecimento sobre a história do Brasil, mas também difundir a leitura e os autores cearenses, com um espaço aberto para debate e lançamento de livros. “Antes de inaugurarmos a cafeteria promovemos o primeiro concurso literário de autores cearenses não só para motivar, mas para incentivar e divulgar os autores da terra, então nós selecionamos 3 premiados. Já no segundo concurso literário selecionamos 12 poetas cearenses que estão produzindo o livro Brasilidade – um canto de amor a pátria, que compila poemas de exaltação e de amor pelo Brasil.”

O espaço da livraria fica aberto ao público e os livros podem ser “degustados” no local, sem a necessidade de compra. E seja lendo os escritos dispostos na livraria ou trazendo o seu de casa, o ambiente ainda proporciona que o cliente aprecie chás com nomes de princesas e príncipes, a sobremesa do monte Pascoal e outros diversos pratos que remetem às origens brasileiras.

Serviço

Bibliotecas Livres


Garrateca
– Clínica Veterinária Garra

Rua Frei Mansueto, 1427 – Meireles

Funcionamento: Segunda a sexta (7h30 às 18h) e sábado (7h30 às 16h)

Mais informações: (85) 3267-2625

Viva o Barroso

Av. Capitão Waldemar Paula Lima, 680 – Residencial Lago Azul – Barroso I

Funcionamento: Terças, quintas e sextas (14h às 18h) e sábado (13h30 às 17h)

Mais informações: (85) 9.9698-6435


Mais+

Livro Leve e Solto – Faculdade CDL

R. Vinte e Cinco de Março, 882 – Centro

Funcionamento: Segunda a sexta (8h às 21h30)

Mais informações: (85) 3433-3042

Troca de Livros Lamarca

Av. da Universidade, 2475 – Benfica

Funcionamento: Segunda a sexta (9h às 19h) e sábado(9h às 17h)

Mais informações: (85) 3122-6130

Café com Livro

Café Patriota

Av. Santos Dumont, 1453 – Aldeota

Funcionamento: Segunda a sábado (12h às 22h) e domingo(14h às 22h).

Mais informações: (85) 3121-5620

Mais+

Aimê Café

Av. Barão de Studart, 2821 – Dionísio Torres

Funcionamento: Segunda a sexta (9h às 20h30) e sábado(8h às 18h)

Mais informações: (85) 3055-6960

Blend CoffeeHouse

R. Sábino Píres, 17 – Aldeota

Funcionamento: Segunda a sábado (13h às 20) e domingo (15h às 20h)

Mais informações:
(85) 3121-6455

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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