Vós

menu
Colunas

[Afetos] - Copo de Alumínio

Por Jéssica Welma, Igor de Melo
04.out
2018

“Olha, Simone, o que eu trouxe pras meninas”, dizia minha avó Selma, entrando casa adentro, em pleno meio-dia, segurando dois copos de alumínio. “Troquei por dois pratos de comida com um casal de barraqueiros das festas da novena. Mandei botar o nome delas”, completava. Foi assim que ganhei um dos meus primeiros copos de alumínio para colocar ao lado do filtro de barro em casa. Só havia um problema (já superado): meu nome ficou registrado para a posteridade daquele copo como “Gérsica”. Sorte da minha irmã, cujo nome, Ana Beatriz, nada sofreu.

O bendito copo da Gérsica viveu longos anos, porque a relação com um copo de alumínio é assim mesmo: duradoura. Acredite. Mesmo que a “moda” dos filtros de barro tenha praticamente acabado, é difícil chegar à casa de um cearense e não encontrar, pelo menos, um copo de alumínio de estimação. Pode ser feito de aço inox, não é isso que importa. Vale mesmo é aquele prazer de se ver refletido no copo e a crença de que a água nele é mais gelada.

Procurei estudos sobre a origem de tal hábito, mas não os encontrei. Fico, então, com as histórias dos mais velhos. Minha bisavó Maria Balão, por exemplo, morava numa casa bem pobre, feita de barro, com teto baixo, contudo se havia algo precioso lá dentro eram os copos de alumínio. Chega brilhavam de tão areados! E ai de quem ousasse pegar em um deles com a mão suja para tirar água do pote.

A exibição dos copos tinha modelo variado: podia ser uma tábua pregada na parede, com buracos para encaixe ou com pequenas pontas de madeira para pendurá-los. Também valia ter uma bandeja sobre o filtro, com os copos cobertos por um pano de prato. Minha outra avó, Chaguinha, que mora no Crato, lá na Região do Cariri, mantém tal tradição até hoje. E o pano de prato ainda é pintado por ela.

Em tempos em que geladeira era luxo e em bebedouro nem se falava, tomar água em caneca de alumínio era uma forma de garantir a água mais “geladinha”. Até hoje, minha mãe coloca um copo de alumínio com água dentro do congelador para beber a água quase em gelo.

Na época da escola, os copos de alumínio que a gente deixava por lá eram o ápice do “ter um copo para chamar de seu”. Tenho um deles na casa da minha avó materna até hoje. Nele, vê-se uma flor e meu nome (escrito corretamente) em letra cursiva, com aquele indicativo de avanço escolar: “2a série”, e um coração ao lado. Um mimo!

Vinte anos depois, olho para bandeja de copos de vidro da minha própria casa e confirmo: coisa rara é uma casa de cearense sem copo de alumínio. Tenho um único, trazido pelo meu marido, mas disputado pelos dois todos os dias. É o queridinho da bandeja, aquela “coisa nossa”. E que visitante nenhum ouse usá-lo.

Será que na sua casa não tem nenhum guardado pelas gavetas? Vale ter um daqueles com bandeira de time, desenho de paisagem ou nome de cidade turística. Afinal, o importante é a lembrança, porque copo de alumínio, para um cearense que se preze, é aquela recordação da casa da vó, da infância, do galego que vendia panela e copo de alumínio na porta, das barracas da feira do Mercado São Sebastião, do Mercado Central, da Avenida Beira-Mar ou de qualquer barraquinha em feira de interior em época de novena.

Não tem nenhum copo de alumínio na sua casa? Pois deixo o conselho: compre um e, se preferir, mande colocar seu nome para ter a experiência completa. Com sorte, você ainda encontra verdadeiros artesãos de nome nessas obras-primas. Mas, claro, garanta que a grafia esteja correta, porque cearense nenhum merece uma crise de identidade na hora de beber água.

Colaboradores

Jéssica Welma

Jéssica Welma

Ver Perfil

Apaixonou-se por escrever quando mandou uma cartinha para o Papai Noel aos 5 anos de idade. Jornalista, vive procurando formas de narrar melhor a história das pessoas. Adora ouvir, especialmente relatos "de interior" (se tiver um bom causo para contar, a procure). Ama literatura, amarelo e ballet.

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar