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[CRIA] - Pai postiço aos dezessete

Por Gabriel Antônio, Igor de Melo
04.mai
2017

Postiço. Adjetivo que significa “acrescentado depois de pronta a obra” ou “que se pode pôr e tirar”.

Das duas definições fico com a primeira. Fui pai postiço aos dezessete anos do meu irmão caçula Joaquim, adicionado à minha vida quando já acreditava piamente que mamãe havia “fechado a fábrica”. Descarto o segundo significado porque não é literal. Ainda que tenha sido posto, já não me vejo mais sem Jojó, assim chamado carinhosamente por todos da família.

Mas para que melhor contextualize o fato revelado acima, faz-se necessário ir mais a fundo na etimologia do termo “pai postiço”. O adjetivo esclarece uma nova atribuição, algo fora de cogitação no curso natural da nossa existência. Uma nova fase que simplesmente acontece. Para os mais poéticos se trata de uma dádiva, brindando a vida que se desenha cheia de surpresas.

Joaquim não brotou como projeto ideal, concebido em minha mente desde quando era criança e filho único: um irmão companheiro disposto a abraçar todas as minhas empreitadas infantis, somando união à algumas pitadas de competição e desentendimento.

Mas ele veio. E trouxe consigo uma pá de novas responsabilidades embrulhadas em presente, endereçadas ao meu universo, sem qualquer manual de instrução embutido. Antes que o leitor pense que crio Joaquim sozinho, preciso contar que ele teve todo o aparato dos meus pais, muito presentes por sinal. Mas no meu caso ele era novidade, afinal o contexto era o início da minha juventude e por mais rebelde que eu tentasse ser, a vida tinha me impossibilitado de agir como tal.

Numa pesquisa rápida no dicionário veremos que a teoria associa a palavra paternidade ao vínculo ou à condição de pai. Porém, na prática, sabemos que é bem diferente. E que esse vínculo se desdobra em inúmeras atividades inerentes ao amor paternal.

E me fiz presente em todas elas, ainda que não tivesse obrigatoriedade. Me entreguei ao papel. Fiz valer a justificativa que hoje dou às pessoas que pensam que Joaquim é meu filho, afinal é diferença de idade é grande (17 anos): “Ele não é meu filho. Mas é o meu melhor treino”. E quando faço essa afirmativa estou munido das melhores experiências possíveis. Não foram fáceis, mas deleitosas.

Aprendi a trocar fralda, colocar pra arrotar, dar de comer, balançar na rede até dormir, cantar música de ninar, dar banho, pentear o cabelo, passar perfume e por aí vai. E antes que exponha somente o lado “fofo” da criação, tive que ajudar a limpar muito chão com a comida que Joaquim, ainda com problema de refluxo gástrico, vivia a sujar. Jojó teve alguns problemas de saúde marcantes devido à sua baixa imunidade nos primeiros anos de vida. Logo, foram várias noites dormindo nas poltronas desconfortáveis dos hospitais.

Mas meu irmão cresceu. E a vida lhe deu mais autonomia. Hoje aos vinte e três anos vivo a sua plenitude infantil. Os cuidados básicos se transformaram em conselhos e até numa leve competição, justificada pela ideia de que ele precisa se tornar uma criança esperta e forte em seus ideais. Por isso, às vezes, regresso aos oito anos da minha idade mental, para agir como um irmão mais velho próximo. “Isso é meu, não é seu”, “Quero ver se tu me pega”, “Vou contar para mamãe” são algumas das frases.

A dependência de outrora virou amor puro e companheirismo singelo. Já cansei de chegar em casa e ver o caçula correr ao portão para me abraçar, assim como de ouvir o pedido: “Pai, posso ficar com o Gabriel, enquanto o senhor resolve as coisas?”. E o que mais me alegra, é que tudo foi natural e simplesmente me ofereci à nossa parceria.

Sei que um dia as visões de mundo irão se equiparar. Estaremos adultos. Deixarei de ser postiço para me tornar pai de verdade. Mas me orgulha notar a vontade do meu irmão de querer ser um pouquinho parecido comigo. Joaquim é um livro diário de ensinamentos preciosos. Com ele aprendo a não permitir que a inocência se dissipe de forma inteira no horizonte frio da fase adulta. Aprendo que a infância é medida por sons, aromas e visões e que a imaginação é um dos maiores tesouros da mente humana.

Me encontro no final do texto e percebo que deixei de escrever de forma mais detalhada as qualidades do Joaquim. A gentileza latente, o amor incondicional à família, à pureza dos gestos entre tantas outras. Mas, quer saber? Isso não importa muito. Isso diz respeito a nós dois, para sempre.

Colaboradores

Gabriel Antônio

Gabriel Antônio

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Jornalista na semana e surfista aos domingos, possui forte influência empreendedora da família. Amante da arte em todas as suas representações, principalmente o Cinema, encontra diariamente no texto e nas lentes fotográficas a liberdade que suas ideias exigem.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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