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Histórias

De Vândala para Carnaúba: uma casa para receber e dividir

Com Vicente Monteiro, Diego Fidelis, Anie Barreto Por Jonathan Silva, Igor de Melo
04.jun
2019

Localizada na rua Instituto do Ceará, no Benfica, a casa de número 164 se diferencia das demais residências que dão aspecto de vila ao quarteirão. O duplex de fachada branca com portas e janelas azuis, com uma geladeira estilizada na calçada, abriga mais do que moradores. É também morada de ideias. São ações individuais e coletivas que vão da política à arte, e se mostram tão essenciais à estrutura da casa quanto os tijolos e paredes.

Tão rotativo quanto as propostas são os nomes que a casa possui. Atualmente ela atende por Carnaúba Cultural, sendo gerida pelo Pé de Jambo REC, coletivo artístico ligado ao audiovisual e produção musical. Antes deles, era Casa Vândala, do cervejeiro Vicente Monteiro. Mas ele já frequentava o espaço quando ela ainda era sede da Associação 64/68 Anistia e do coletivo Aparecidos Políticos.

Cada um dos grupos que habitaram o ambiente, ainda que distintos em suas abordagens, priorizavam o apoio mútuo em diversas linguagens. Em um esforço de memória, Vicente Monteiro lembra que, antes de qualquer apropriação organizada, a casa já era habitada por outros artistas. “Existia um artista, não se sabe se foi nessa casa ou se foi na outra, que ele foi muito influente na cidade na época, acho que em 2000 ou 1990, e aí ele se matou, tem uma história trágica de amor, tem toda uma onda aqui.”

Num rumo semelhante à ideia de uma Zona Autônoma Temporária (livro escrito pelo historiador Hakim Bey em que ele idealiza espaços livres), as duas últimas formações da residência (Casa Vândala e Carnaúba Cultural) dão o norte sobre a forma de produzir arte e cultura na cidade sem estar atrelado a grandes investimentos. Tudo pode ser feito sem tirar os pés de casa.

Vandalismo praticado com cervejas e tertúlias

Faltavam quatro semestres para Vicente terminar sua graduação em Psicologia quando decidiu abandonar o curso. Era 2012. A morte do pai e as agitações políticas lhe instigaram a seguir uma outra rota. “Eu comecei a entender que esses espaços institucionais estavam falhando, estavam precisando talvez ser abandonados. Foi o que eu entendi na época para se construir outras coisas.”

Da Psicologia migrou para a fabricação artesanal de cervejas, e tão radical quanto o desvio de trabalho foi o nome dado à sua primeira criação. “A cerveja artesanal Molotov, que é uma cerveja artesanal que eu fabrico aqui desde o finalzinho de 2012, acabou se tornando um produto muito interessante, pois é um antiproduto.”

Não comercializada em “canto nenhum”, a cerveja foi apresentada em 2013 na abertura da sede da Associação 64/68 Anistia e do ateliê do coletivo Aparecidos Políticos, que funcionava no andar de cima. Os dois grupos utilizavam arte e discurso político em intervenções urbanas e demais encontros para preservar a memória da luta contra o regime militar.

Após a saída dos dois grupos, em 2015, Vicente assume a gestão da casa. Inicialmente, o local serviria para a venda de insumos para fabricação de cerveja, mas depois virou (nas palavras de Vicente) uma “polifonia cultural”. De uma ex-namorada foi que veio o nome: Casa Vândala.

Todo o tipo de linguagem era permitido, desde “que não implicasse em delito ou crime, que ocasionassem uma prisão ou invasão, tipo uma morte ou assassinato…” A “explosão de sentidos” pensada por Vicente teve ajuda de artistas da cidade que atuavam com música, pintura, poesia e audiovisual. Isso dentro dos exemplos mais comuns. “Aconteceu uma noite de BDSM, que foi uma noite que se discutiu e teve poesia sobre bondage, práticas sexuais diferentes e são sensações.”

O estímulo mais famoso da Casa Vândala acontece da porta pra fora. Inspirada nos antigos bailes de black music, a Tertúlia Black Vândala é uma festa itinerante realizada por sete DJs: Rafael “Gato Preto” Tavares, DJ Kinas, Carlos Augusto (Memória e Projeto), a Mariana “Maarji” Castilho, DJ Aires, Nego Célio e Tomé Braga.

 Foto por Nicolas Leiva 

A ideia veio quando Vicente (que atua como produtor cultural do evento) estava viajando em Minas Gerais e viu um baile semelhante. “É tão natural de envolver o corpo, aquele som da década de 70, que eu fiquei ‘por que isso aqui não existe em todo lugar?’ E aí eu tive essa memória na minha cabeça e encontrei pessoas que pesquisavam isso.” A Tertúlia já teve apresentações no Maloca Dragão, no Carnaval de Fortaleza, Mercado dos Pinhões e no Poço da Draga. Nessa última, o rapper carioca BNegão participou como DJ convidado.

Fotos por Clara Capelo

Depois de anos trabalhando na Casa Vândala e seus projetos, Vicente decidiu deixar o espaço. A “entrega total” foi sendo substituída pela vontade de fazer outras coisas. Mas, como forma de manter a atividade cultural viva, o bastão foi passado ao coletivo Pé de Jambo, que já realizava atividades na casa e precisava de um espaço para trabalhar. “Começamos uma comunicação com o pessoal do Carnaúba (novo nome dado à casa) e esse pessoal tá assumindo exatamente para isso, para não deixar o espaço morrer. E ele não vai morrer. Esse espaço físico vai permanecer como espaço de luta.”

Pé de Jambo e Carnaúba no mesmo ambiente

Vindos da periferia de Fortaleza e outros municípios da região metropolitana, o Pé de Jambo REC funciona como gravadora independente e produção de eventos musicais. A pegada dos trabalhos já produzidos tem uma veia alternativa, inclinada ao synthwave e o pós-punk, com uma estética visual aplicada nas redes sociais que é sustentada por essas vertentes.

Fotos de aquivo/Carnaúba

Fundado em 2017 por Mike Dutra, Íron Cavalcante e Diego Fidelis, o coletivo foi transformando a própria abordagem para se expandir. De acordo com Diego, que é músico e toca nas bandas Old Books Room e Lascaux, “estávamos querendo gravar os sons dos nossos amigos, mas tivemos que convergir para várias coisas”. Dentre as produções, estão singles de artistas como Orlok Sombra, Leaodosol e Caustico Lunar.

Após realizar um evento musical na antiga Casa Vândala – o Desbaratinagem -, as primeiras relações entre Vicente e Pé de Jambo foram se fortalecendo. “O Vicente gostou muito da nossa vibe e do jeito de trabalhar. Ele começou com essa conversa que ele ia sair da casa, iria começar viagens e tal. Foi alimentando essa ideia e a gente foi alimentando a ideia de ter um espaço”.

Fotos de aquivo/Carnaúba

Uma vez firmada a transição, houve a mudança de nome e identidade. De Vândala passou a ser Carnaúba Cultural, por ser um patrimônio ambiental típico do Ceará. Dentro da casa há subdivisão de trabalhos e ambientes. No andar de cima as atividade de produção musical do Pé de Jambo REC. Na parte de baixo, exposições e demais eventos culturais da Carnaúba Cultural, com curadoria de Anie Barreto.

Fotos por Lua Alencar

A integrante do coletivo é fotógrafa na área da moda. Assim como ela, há outros jovens que impõem dentro do Carnaúba suas demandas sobre o que podem oferecer à cidade. “São nove pessoas ocupando a casa e essas nove pessoas deliberaram que seria melhor a gente focar no que todo mundo tinha interesse ali, que era exposição, não só de certas pessoas, mas um viés de pessoas que nunca expuseram na vida.”

Além de exposições, oficinas, workshops, apresentações musicais e até jogatinas de videogame já foram realizadas na Carnaúba. Os novos moradores também visam o melhor relacionamento com a vizinhança. Isso, para Diego, faz parte da nova rotina. “A gente tá até tentando sair da estética de fazer festa muito zuadenta. Começamos a fazer oficinas e tal. Pra não desgastar a vizinhança.”

Fotos de arquivo/Carnaúba

Apesar dos poucos meses de existência, o agrupamento parece seguir a mesma tendência de administrações anteriores da casa de número 164. Uma porta aberta para sugestões e relacionamentos que visem a invasão cultural, seja com tertúlia, cerveja, produção musical ou jams sessions. Uma coletividade que começa quando outra termina.

SERVIÇO

Carnaúba Cultural

Rua Instituto de Ceará, nº 164, bairro Benfica – Fortaleza/CE

Facebook: @carnaubacultural

Instagram: @carnaubacultural

Pé de Jambo REC site: https://pedejamborec.wixsite.com/pedejamborec/

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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