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[Opinião] - Direito do pedestre e uma cidade que começa a parar na faixa

Por José Otávio Braga, Gabriel Gonçalves
16.mai
2017

Ser pedestre: dificuldades e possibilidades de viver as cidades

Ser pedestre é algo intrínseco ao fato de viver nas cidades e em qualquer outro lugar. Tenha você o veículo que seja ou locomova-se da forma que prefira, provavelmente em algum momento você caminhará (ou mesmo moverá sua cadeira de rodas) nas ruas e demais espaços públicos da cidade, seja de casa ao trabalho, da parada de ônibus às compras, do estacionamento a um restaurante, qualquer um estará pedestre. No entanto, muitas dificuldades permanecem e delimitam obstáculos à boa experiência da caminhada e muitas dessas vêm de uma cultura longeva – e ultrapassada – de garantir prioridade aos automóveis sobre as pessoas. Por isso, muitos aceitam – e replicam – que nossas calçadas virem estacionamento particular, que tenhamos que correr para atravessar mesmo na faixa de pedestre, que precisemos andar dez vezes mais e subir rampas/escadas em passarelas para não interferir na “fluidez do trânsito” e, o mais perverso de todos, que atropelar alguém possa ser compreensível quando a vítima atravessa fora dos espaços delimitados.

Felizmente, avanços vêm sendo tomados (não sem um grande esforço) em direção à humanização de nossas cidades. Grupos têm se movimentado para conscientizar os outros sobre os direitos de quem caminha, acessibilidade universal, urbanidade e humanidade, respeito e empatia. Profissionais têm feito estudos e comprovado as vantagens do incentivo à caminhabilidade (a qualidade em caminhar) e setores da administração pública já despertaram sua atenção e foco para isso, como é verificável nas faixas de pedestre em X nos cruzamentos e nas passagens elevadas ao nível do passeio, que reduzem a velocidade dos automóveis enquanto fornecem segurança e uma travessia mais fácil aos pedestres.

Todas essas mudanças favorecem o despertar de um novo conjunto de relações interpessoais no trânsito que não devem ser aguardados, mas buscados com afinco e, talvez, o ato mais singelo e perceptível dessa mudança seja quando um motorista decide parar seu automóvel para a travessia segura de um pedestre na faixa (e fora dela também, para os de melhor coração), alheio aos segundos de “atraso” ou às buzinas que sejam acionadas. A pressa de ninguém vale mais que a vida de outros.

Sobre isso, tenho algumas experiências pessoais a compartilhar, como quando em fins de 2015 fizemos uma ação – por meio do grupo Direitos Urbanos – para auxiliar as pessoas a atravessar com segurança numa faixa de pedestre na Washington Soares. O resultado foi bastante positivo, mas ainda longe do ideal que buscamos. Além disso, vim complementar meus estudos em Portugal na cidade de Aveiro, uma cidade pequena – menor do que muitos bairros de Fortaleza – onde tive a ótima surpresa de os motoristas respeitarem imensamente o pedestre que atravessa a rua na faixa. Estou mal acostumado, por vezes nem olho mais a rua ao atravessar. Desejo que Fortaleza um dia seja assim também, mas temos um longo caminho e é preciso que fique claro que não é por ser Europa que é melhor, pois aqui também já verifiquei situações de desrespeito no trânsito em outras cidades e países. As boas referências são necessárias, mas é importante ter em mente que a mudança deve vir de nós mesmos e precisamos agir para isso.

Colaboradores

José Otávio Braga

José Otávio Braga

Ver Perfil

É arquiteto e urbanista e mestrando em planejamento regional e urbano. Gosta de estudar as cidades, as pessoas e interações que a compõem e participa de vários grupos que desejam ver uma Fortaleza melhor, mais humana e democrática.

Gabriel Gonçalves

Gabriel Gonçalves

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É fotojornalista desde 2008, tendo passado pelos três maiores jornais de Fortaleza. Trabalha com cinema, tenta ser músico, e à noite é facilmente encontrado servindo cerveja em alguns vários bares da capital alencarina. Atualmente atua como freelancer e em parceria com coletivos de produção audiovisual, ONG's, e entidades de direitos humanos. Acredita que a fotografia é meio e fim para a revolução social.

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