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Histórias

Do lixo à robótica de baixo custo

Com André Cardoso Por Jonathan Silva, Igor de Melo, Gabriel Lage

Acredita em Vós

29.nov
2019

O conceito de robótica está costumeiramente atrelado à alta tecnologia, aparelhagem hi-tech e um investimento financeiro alto para viabilizar as pesquisas. Sendo uma exceção à regra, o Laboratório de Ciências da escola de Ensino Fundamental e Médio Dom Hélder Câmara, no bairro Quintino Cunha foi onde o professor de Biologia André Cardoso encontrou uma maneira de subverter o padrão: na sustentabilidade ele mecanizou sua ideia.

Logo em frente à porta do laboratório já nos deparamos com estantes cheias de muito lixo eletrônico doado por pessoas do bairro. Algo descartável para a comunidade, mas matéria prima para André e seus 20 alunos envolvidos no projeto Robótica Sustentável, uma ação interdisciplinar que trabalha mecânica, eletrônica, elétrica e programação numa proposta sustentável.

Isso explica as invenções que vemos dentro da sala de criação:  tanques de guerra, homens robôs, carrinhos de controle remoto e o mascote DinoCleyton, um dinossauro articulado que fala e canta funk. Todos feitos com papelão, tampas de garrafa, potes de margarina, restos de caneta e componentes eletrônicos simples.

O projeto surgiu em 2016 quando o professor foi lotado para o laboratório de ciências da escola. “Eu decidi criar projetos interdisciplinares onde conseguisse trabalhar os alunos como um grupo que pudesse utilizar o laboratório como um ambiente de criação de projetos.” Doutorando em Ecologia e Recursos Naturais pela UFC (Universidade Federal do Ceará), pensou em trazer a programação que já fazia na universidade para o ambiente escolar.

Antes disso, muito pouco os estudantes conheciam sobre robótica e acreditavam menos ainda que ela fosse acessível. “É engraçado que eles ainda tinham essa ideia de que ‘uma coisa tecnológica não tem que ser sustentável’. Quebramos esse paradigma.” Outra barreira a ser vencida é a viabilidade de recursos para manter o Robótica Sustentável.

“Hoje a gente sobrevive muito sobre doação. O projeto hoje tem como fonte de recursos a reciclagem, então parte do material excedente a gente transforma nos projetos, mas outra parte também vai para a reciclagem.” É com a venda de ferro e outros materiais que André consegue comprar materiais como cola quente e estanho.

A insistência não tira a vontade dos alunos de participar e inovar. E nesse ritmo de empolgação eles saem da escola e vão expor o que constroem em outros lugares. A primeira feira de ciências foi no Ceará Científico, organizado pela Secretaria da Educação do Ceará (Seduc). Fora do estado, André e seus alunos já estiveram na Mostratec (Mostra Internacional de Tecnologia), no Rio Grande do Sul, e em duas Campus Party, em São Paulo e Natal. 

Além de exibirem suas criações, eles mostram que é possível aliar tecnologia e sustentabilidade num conceito educacional. E para isso André tem suas metodologias: o faça-você-mesmo possibilitado pela quantidade de material e criatividade dos alunos, e a interdisciplinaridade do que é visto em sala de aula. 

Com o tempo, o projeto foi se expandindo de formas imprevistas. De dois alunos do ensino médio da escola surgiu o Robofest, uma empresa voltada ao entretenimento da robótica, apresentando robôs em batalhas, competições e em festas de aniversário. André acreditou tanto no projeto que não pensou duas vezes em investir o próprio 13º salário na ideia. 

E com o excedente do material, o núcleo feminino do Robótica saiu um pouco da tecnologia para entrar na arte. Despretensiosamente, pegavam itens excedentes e faziam quadros, mesas e até sofás. De brincadeira virou o projeto Arte Sustentável. “Hoje o projeto anda sustentável com os próprios pés, pois ganhou um edital chamado Edital das Artes, onde eles têm oficinas para ministrar para alunos da escola municipal e atuam até em coletivos.”

A devolutiva de todas essas construções é uma turma mais engajada para aprender e ensinar. “Hoje acredito que muito do que eu consegui é ser feliz com o que eu faço e meus alunos serem felizes com o que fazem.” A tecnologia cotidiana de André e seus alunos dentro do laboratório é fazer girar todas as engrenagens que articulam a educação do futuro.

SERVIÇO

EEFM Dom Helder Câmara: R. Rosinha Sampaio, 1157, Quintino Cunha – Fortaleza/CE

Facebook: @roboticasustentavel
Instagram: @robotica_sustentavel
Telefone: (85) 99621-4279

Colaboradores

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Gabriel Lage

Gabriel Lage

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Cearense, empresário, filmmaker e fotógrafo. Acadêmico de audiovisual pela Unifor. Fã de Star Wars e dos anos 80.

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