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Histórias

Escritor nas horas vagas

Por Marcela Benevides, Jonathan Silva, Igor de Melo
11.jun
2019

De acordo com o dicionário, escritor é aquele que escreve e é autor de obras literárias, científicas, ficcionistas, culturais; é também a pessoa que utiliza palavras escritas, com várias técnicas e estilos para comunicar ou passar ideias. Como leitora, prefiro acreditar que escritor é aquele que escreve com a alma e nos transporta para uma realidade ou sensação pouco explorada por nossa mente na correria da rotina.

Em terras cearenses, para citar só alguns exemplos, temos esses mágicos das letras como Rachel de Queiroz, que foi jornalista, romancista e a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras; Ana Miranda, que é atriz e escritora; Lira Neto, jornalista e escritor; Socorro Acioli, também jornalista e escritora; José de Alencar, que foi político e romancista… Todos marcaram e marcam a história da narrativa escrita do Ceará e do Brasil com suas obras. Todos eles, apesar de suas diferenças no estilo, possuem algo em comum além do destaque literário: nenhum foi ou é apenas escritor.

Uma característica que atravessa gerações e se apresenta como desafio também para os novos escritores cearenses, que fazem malabarismo para conseguir conciliar a paixão pela escrita com uma outra profissão, por vezes igualmente amada.

Vós foi conhecer a história de um engraxate que também é escritor, de um empresário que tem 30 mil livros vendidos, de um jovem jornalista que acabou de publicar seu primeiro livro de poesia e de uma professora que passou 20 anos para publicar sua primeira história. Eles, da forma que podem, vão acrescentando páginas à história das narrativas cearenses com novas visões e mostrando que é possível resistir aos obstáculos impostos pelo mundo editorial.

20 anos na gaveta…

Ela lembra que desde que foi alfabetizada sua relação com as palavras foi diferente. Não queria só ler, por isso a escrita passou a fazer parte da sua vida de uma maneira central. Com voz doce e paciente, Marília Lovatel é professora de escrita literária e redatora publicitária. Aos 17 anos ganhou um prêmio nacional coordenado por Luís Fernando Veríssimo, mas não tinha a perspectiva de uma publicação imediata dos seus textos. Ao longo dos anos passou a se dedicar ao trabalho educacional e acabou deixando os escritos na gaveta durante duas décadas.

O rumo da história só mudou porque ela se inspirou no filho de 13 anos. Durante dois anos os dois escreveram um livro de literatura fantástica e, no fim, ao perceber a expectativa dele em ter seu livro publicado, ela decidiu fazer por ele o que nunca havia feito pelos próprios textos: tentar publicar.

“Fui atrás de editoras para conseguir uma oportunidade de publicar e, no meio desse caminho, quando eu ia às editoras acabava que eu contava a história da minha vida e falava que tinha um material que estava guardado e que foi lido pela própria Rachel de Queiroz… E nesse processo descobri que precisava procurar editoras que tinham a mesma linha editorial do que eu havia escrito, que era algo que eu não tinha me atentado e uma delas resolveu publicar o meu primeiro livro que foi A sala de Aula e outros contos”

Desde então já são seis anos e 11 livros publicados, dentre eles A menina dos sonhos de renda, que foi finalista do prêmio Jabuti em 2017. Ela lembra que ao descobrir que a obra tinha sido finalista no prêmio foi um misto de susto com alegria, devido ao pouco tempo de estrada e por saber que ainda está nos primeiros passos da carreira.

“A gente fica torcendo, mas se trabalhando para não criar expectativas, porque quem concorre a esse prêmio são os escritores que a gente aprende a amar ao longo da vida. Mas foi importante porque enxerguei a possibilidade de poder exercer profissionalmente o trabalho de escritora, além de ter sido uma alegria enorme poder compartilhar desse espaço com esses escritores que eu venho acompanhando e sou fã dos trabalhos.”

Marília enxerga que, apesar da crise no mercado editorial com livrarias e editoras fechando, os movimentos de incentivo à leitura, como os clubes de leitura e coletivos de escritores, por exemplo, são ações de resistência que não deixam a nova geração de escritores desanimar e continuam propagando e valorizando o livro, a leitura e o autor.

O cariense de meio século

Apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, mora em terras alencarinas desde os seis anos de idade e se considera um cariense, a mistura de carioca com cearense. Aos 50 anos Denilson divide sua rotina como engraxate no Fórum Trabalhista e escritor. Enquanto não aparece ninguém querendo deixar os sapatos mais lustrosos, ele escreve as linhas do seu livro.

Estudou no Colégio Militar e foi lá que recebeu o primeiro estímulo voltado para a leitura e não parou mais. “Comecei a levar livros para casa, li Graciliano Ramos, dentre outros grandes autores, e aí fui despertando para essa outra relação com as palavras e com a ajuda da imaginação, que é muito fértil: comecei a escrever.”

Sua primeira publicação saiu em setembro 2017, com o livro infantil A Invasão, que conta a história de uma invasão de mosquitos ETs no Brasil – que são, na verdade, mosquitos da dengue. Ao todo são 4 livros escritos, um publicado e um quinto em produção que, diferente dos outros, é mais direcionado ao público adulto por ser um livro de crônicas sobre o dia a dia no fórum.

E é da realidade em que vive que Denilson tira a inspiração para escrever as histórias. Ele gosta de observar o que está ao seu redor para tirar a inspiração que precisa para os seus textos. Depois da Bíblia, que é o seu livro de cabeceira, sua obra favorita é Síndrome de Peter Pan, do autor Dan Kiley,além de Graciliano Ramos e Ariano Suassuna.

Um poeta de três vidas

Desde os 7 anos ele gostava de ir à biblioteca da escola e se perder nas possibilidades de histórias do lugar. Foi nessa mesma época que descobriu e se encantou pela poesia e começou a fazer as primeiras rimas. Aos 24 anos, Adailson Silva garante que, mais do que publicar um livro, ele realizou o único sonho que carregava desde a infância.

Sempre soube que queria ser escritor, por isso buscou uma profissão que pudesse casar com a escrita e, entre o Jornalismo e Letras, optou pelo Jornalismo. Atualmente o poeta trabalha com marketing de conteúdo e tenta conciliar as duas formas opostas de usar as palavras da melhor forma possível.

“Quando você começa a trabalhar com o que você faz habitualmente, que é escrever, você acaba mecanizando as coisas, então, se eu não fizer o exercício diário que é escrever literatura, pensar literatura, se eu não chegar à noite em casa e pensar coisas que são voltadas para o lado poético, eu acabo mecanizando o meu texto. Sempre tento deixar o trabalho um pouco de lado, porque tem gente que não consegue, que é workaholic, que não consegue desconectar. Eu não consigo, eu preciso sair de lá e desconectar, observar o tempo para, a partir daí, eu pegar novas impressões para escrever poesia.”

A publicação do livro 3 vidas de um poeta só aconteceu de forma independente, tirando os recursos para a publicação do “próprio bolso para fazer acontecer”. “Cresci querendo meu nome na capa de um livro assim como eu via os dos meus ídolos, como Drummond, Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes e essa galera que me inspira e aflora em mim esse meu lado mais poético. Então quando eu vi meu livro publicado, fiquei extasiado, não conseguia acreditar, e no dia do lançamento que eu estava lá, mostrando o meu trabalho, comemorando com amigos o lançamento não de um livro, mas de um sonho.”

Adailson não acredita em inspiração, mas em criatividade. Seus textos estão sempre voltados para o que ele observa no dia a dia, relacionados ao que sente e compartilha com os outros. São a essência do que extrai das suas revoluções internas, das referências literárias e cinematográficas.

Primeiro um leitor, depois um escritor

Nasceu no município de Aiuaba, distante 435 km da capital cearense. Com três anos foi morar no Crato e lá ficou até os 16 anos. Decidiu que viria para Fortaleza porque enxergava que aqui as possibilidades eram maiores. Passou por apertos, mas não desistiu, já que carregava na bagagem um sonho.

O gosto pela leitura do professor e empresário Well Morais foi estimulado pela tia, que levava gibis para o sobrinho. “Minha tia trabalhava numa loja que vendia gibis e ela trazia à noite. Eu não podia comprar, então lia pela noite e ela devolvia pela manhã, e isso virou uma rotina”, rememora. Com o passar do tempo e o crescimento do interesse pelas palavras, Well começou a ler os clássicos da literatura brasileira e não parou mais.

Ele acredita que para que exista um escritor é preciso que, antes de tudo, exista um leitor. E foi assim que a sua história com as palavras tomou novos caminhos. Lia tanto que nutriu e amadureceu a ideia de contar a própria história. “Queria narrar sobre a minha adolescência, mas não tinha condições financeiras e fui maturando a ideia. Em 1999, mais ou menos, eu tinha uma moto e um livro todo rabiscado e foi nesse momento que decidi colocar a ideia para frente.”

Well vendeu o transporte, ficou a pé e produziu o primeiro livro: Amigo, amigo meu. E esse foi o primeiro de uma lista de 10 publicações e mais duas produções ainda para este ano. O professor, empresário e escritor independente já vendeu mais de 30 mil livros e garante que, apesar de difícil, é possível fazer tudo isso. Foi preciso sacrificar algumas coisas para que outras se tornassem realidade.

Se afastou das salas de aula para que pudesse distribuir o próprio material. Passou a trabalhar com aulas à distância para conseguir estar mais perto do seu público, seja dando palestras ou autografando livros. É um trabalho de equilíbrio e dedicação.

Para os iniciantes nesse universo ele deixa um conselho. “É muito importante não achar que os obstáculos te impeçam de criar uma história, porque é importante que primeiro você crie uma história independente de qualquer coisa. Pede para alguém ler seus textos e vai fazendo. E depois manda pra uma editora revisar e quem sabe publicar ou até mesmo publicar de forma independente, só não pode deixar de arriscar… Por que não arriscar?”

A cada meta atingida, uma nova história para contar

O desejo de registrar histórias nas páginas dos livros foi uma ambição no meio de tantas outras na vida de Pedro Júnior. Vindo de uma família de educadores, o dentista e empresário seguiu uma carreira colecionando metas: começou na licenciatura, ensinando Matemática no ensino fundamental. Inquieto, decidiu mudar de área e assumiu a Odontologia. Há 25 anos atende no bairro Conjunto Ceará, com seu consultório fixo. É também presidente da Uniodonto Fortaleza e vice-presidente da Uniodonto Brasil.

“Eu sou um cara que não gosta de acomodação”, admite. Acostumado a fugir do lugar comum, nunca deixou de lado seu gosto pela leitura, que o acompanha desde a infância. Só que ele queria ir além. “Sempre gostei de ler, mas a ideia era realmente escrever e ficava sempre no papel”. Após um “empurrãozinho” dado em sessões de coach, Pedro conseguiu escrever, em 60 dias, seu primeiro romance: O Segredo de Anthony.

*Imagens de arquivo 

Lançado em 2012, o livro conta a história de superação do garoto que dá nome à história. De influência para o enredo, a história real do segundo filho de Pedro Júnior, Lucas, considerado um exemplo de superação aos olhos do dentista. Em 2014, Pedro migrou do romance para o suspense no seu segundo livro, Mistério em Alto Monte. O enredo é baseado num fato real ocorrido no interior do Ceará.

A história de Pedro Júnior como dentista e escritor é semelhante ao de Mailson Furtado, poeta e diretor de teatro que também atua na Odontologia. Entre os dois, há o desejo de contar histórias não importa o palco, seja o de teatro ou de palestra.

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Jonathan Silva

Jonathan Silva

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Garoto diferentão do Bom Jardim, entrou no Jornalismo com a intenção de escrever sobre música, uma paixão herdada da mãe. Hoje usa essa ferramenta para escrever sobre o cotidiano, a cidade, pessoas especiais, artes, fatos marcantes e a luta nossa de cada dia pela dignidade. Se não fosse jornalista, com certeza seria um astro insano do rock.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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