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Histórias

Esse tal Antônio Carlos Belchior

Por Marcus Caffé
26.out
2018

26 de Outubro de 2018 – Antônio Carlos Belchior, 72 anos

Eram anos de muita efervescência cultural pelo surgimento da Lei Jereissati. Um frisson se dava na perspectiva em que um e outro colega aprovava seus projetos, executava e daqui vibramos na mesma perspectiva.

Eram tempos de outras possibilidades de interação e de trabalhos. A publicidade nos recepcionava enquanto fornecedores de áudio e nossas vozes estavam nas rádios, não só nos discos, mas nas campanhas locais e nacionais.

Foi nesse período que soube que Belchior sabia de mim. Ele ficava de olho em todos nós, atento ao que estava por vir e disposto a colaborar como pudesse junto aqueles nos quais apostava suas fichas.

Sem muita pressa, só o encontrei em São Paulo quando já produzia meu segundo CD de título Matiz (em homenagem à uma linda canção de um compositor em ascensão chamado David Duarte).

Numa certa manhã de frio (em São Paulo né, como não ser frio?) consegui contato com Belchior. Não lembro como obtive o telefone, mas lembro que estava na sala da casa de meus padrinhos, Valentim e Aila, e logo que a ligação completou ele mesmo atendeu com aquele vozeirão circunspecto e simpático ao mesmo tempo.

Fiquei um tanto nervoso porque o cara era um ídolo – um mito – e eu estava falando com ele, ali, sem nenhum preparo para isso, mas desenrolei dizendo que estava lá para gravar meu CD e que havia sabido por alguém que ele queria distribuir meu primeiro disco. Daí marcamos de conversar e quando eu falei onde estaria gravando e com quem, ele se prontificou em ir me pegar lá. O estúdio Concord estava há poucas quadras de seu ateliê no bairro Ibirapuera.

Assim se deu nosso primeiro encontro, em seu ateliê. Eu mesmo fui até lá! Uma casa de esquina com portão de madeira, uma varanda de canto e uma imensidão de quadros por todos os lugares (risos). Conversamos um tempo e nem lembro de tudo porque estava sob o impacto da presença do ídolo, mas tomamos um vinho sentados no chão. Ele me mostrou todos os CDs que recebia e que ouvia todos. Acho que foi nessa tarde-noite que recebi a fita k7 com as canções que perguntei se poderia gravar e ele autorizou na hora.

Havia um terminal de táxi bem perto do ateliê e foi de lá que parti pra casa…meio besta!

Dias depois, e eu não sei quantos, retornei ao estúdio para por voz em “Coração Selvagem” e “Lira dos 20 anos” (essa última em parceria com Francisco Casa Verde). Ele foi ao estúdio porque queria me ver gravar, encontrar Serginho Sá (meu produtor) e também cumprimentar Santiago, o dono do estúdio que trabalhara por décadas com Tim Maia.

Confesso que a ansiedade se misturou à emoção e, naquele momento, eu não cabia em mim e ao mesmo tempo achava que não era real, mas foi!

Tivemos outras vivência amistosas depois disso, já aqui em Fortaleza, quando fui visitá-lo num hotel na Av. Beira Mar e levei-o à casa de D. Dolores (sua mãe) onde ele ficou.

Nos encontramos no Rio de Janeiro, depois, já na época da produção do CD de Karla Karenina onde fui seu consultor e preparador vocal. Foi nesses dias que recebi das mãos dele, no escritório do Gutti de Carvalho, a primeira caixa de meu CD MATIZ …emocionado.

Jantamos no Barra Grill (Barra da Tijuca) inclusive fomos andando, rimos muito e ele pagou a conta, era uma celebração.

Estávamos num Hotel na Barra da Tijuca, a cabeça rodava com tamanha ansiedade. Certo dia, depois de ter encaminhado minhas incumbências por lá, voltei à Fortaleza e fui me deliciar com meu filho novo.

Tempos depois ele me convidou a ser seu convidado no lançamento do CD “Vício Elegante” no Teatro do SESC Pompéia. Conheci seus músicos e, assim como os demais convidados, me hospedei no Hotel Lorena Flat na cobertura. Pense?!!!

Nossos encontros foram, em sua maioria, sempre muito animados e desses momentos a gente sente imensa saudade.

Não éramos próximos, nunca fomos, mas fomos transparentes e parceiros em todos os momentos nos quais nos foi permitido conviver. Ele chamava os amigos mais chegados de “professor” e esboçava aquele sorriso que não se continha sob o bigodão encorpado.

Esse foi um breve relato de bons momentos que passei com um rapaz latino Americano, esse tal de Belchior!

*Foto da Capa: Arquivo pessoal
*Foto do texto: Light Panic

Colaboradores

Marcus Caffé

Marcus Caffé

Ver Perfil

Interprete cantor brasileiro nascido em Fortaleza é considerado pelos especialistas a referência de expressão e técnica do canto popular brasileiro. Autor de três discos solo (DIGITAL, MATIZ E DEJA VU) onde prestigia compositores e obras de seus conterrâneos tem assinatura forte por seu timbre raro e seu cantar pautado na palavra.

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