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[CRIA] - Há 13 anos perdi minha mãe. Agora estou prestes a me tornar uma

Por Marianna Coelho, Igor de Melo
15.jun
2017

Há exatos 13 anos eu perdi a minha mãe. Agora estou prestes a me tornar uma.

Mas não foi esse o pensamento que me tomou quando descobri que estava grávida. Minha preocupação maior era a evolução da gestação: ouvir o coração bater a primeira vez (claro que chorei feito um bebê, é o som mais lindo do mundo), ver se a formação estava toda perfeitinha, sentir o bebê mexer e ter isso como uma lembrança diária de que está tudo bem. Minha preocupação era sempre com a Isabella. Se estava tudo bem com ela, se ela estava se desenvolvendo dentro do esperado, se tinha todos os dedos das mãos e dos pés, se os órgãos estavam todos se desenvolvendo, se os exames estavam descartando qualquer problema de saúde, se ela estava confortável, se ela estava bem… Acho que essa preocupação me acompanhará pra sempre.

Além disso, eu também me preocupava em estar preparada para os tão falados sintomas da gravidez. Os fortes enjoos e vômitos, a profunda sonolência, cólicas, inchaços, abuso de comer o que gostava e desejo de comer o que já amava, abuso do cheiro do marido… Estava preparada com todas as forças para enfrentar os mais diversos sintomas que ouvia muito falar, mas nada! No início, senti bastante azia, indigestão e gases, inflamação na gengiva (sim, isso é bem comum na gravidez), um pouco de constipação intestinal, mas nada que me fizesse parar ou desacelerar a minha rotina, nada que me exigisse esforço extra para compreendê-los ou amenizá-los.

Mas hoje, aos 8 meses de gestação: a barriga pesa; a fome não é mais proporcional ao que cabe no estômago; sentar de pernas fechadas se tornou humanamente impossível e um luxo ao qual não tenho mais direito; entrar no carro requer uma certa habilidade na posição nada elegante de “15 pras 3” das pernas; deitar na cama e não morrer sufocada pela própria barriga exige agilidade em mudar de posição rapidamente antes que perca a consciência; também deitar na cama e não se sentir um peixe-boi encalhado (sinal de uma alta autoestima); armazenar mais de 100 ml de xixi na bexiga com um auto-tortura tremenda; precisar da ajuda de terceiros pra saber se a depilação está em dia; dormir uma noite inteira sem crises de insônia ou sem mudar de posição diversas vezes, sempre tomando cuidado pra barriga estar bem apoiada…

É bem complicado e incômodo, mas ainda assim são sintomas totalmente compatíveis com o que está acontecendo com meu corpo: gerando uma vida, a vida da minha filha com a qual eu tanto me preocupo! E tudo isso recompensado no primeiro chute do dia. É amor que transborda!

Eu só não estava tão preocupada nem preparada para as pessoas. Isso mesmo, as pessoas!

“Você não pode beber refrigerante!”
“Você não pode comer muito!”
“Você não pode comer salada, nem sushi, nem presunto, nem frutos do mar…”
“Você não pode se agachar com esse barrigão todo!”
“O que você vai fazer com seu cachorro quando a Isabella nascer?”
“Você já fez o enxoval do berço? Tem que ter, viu?”
“Você já pegou abuso do seu marido?”
“Você vai fazer hidroginástica? Não pode porque você vai pegar infecção urinária!”
“Nossa! Como sua barriga tá medonha!”
“Mas você vai deixar ela em berçário quando voltar a trabalhar? Por que você não fica cuidando dela até um ano?!”
“Você vai ficar cuidando dela até um ano? Você tem é que voltar a trabalhar logo!”
“Tem certeza que tem só um bebê aí dentro?!”
“O Bruno vai assistir ao parto? Tem certeza?”
“Mas você tem que contratar uma pessoa pra ficar com você todos os dias porque você não vai dar conta!”
“Vai já já nascer, né? Tá de quantos meses?”
“Você vai contratar doula?! Tá na moda, né!”
“Mas você vai colocar ela na cama no chão tão nova? Não pode!”
“Você tem que lavar todas as roupas dela na mão!”
“Você vai pagar taxa de disponibilidade?! Mas isso é errado!”
“Porque você não sabe o dia que ela vai nascer?”
“Tem certeza que não vai marcar a data?”

Eu podia ficar aqui o resto do dia aumentando essa lista. Quando não são as determinações sobre a minha gestação ou sobre a criação que escolhi dar para a minha filha, são os relatos mais assustadores sobre quanto o bebê chora sem motivo por horas, sobre a crise na relação devido à chegada do bebê, sobre a cena de horror que é a saída do bebê seja via parto cesárea ou normal, sobre tudo de bom na vida que se abre mão, sobre as baladas que não vou mais poder ir por um bom tempo, sobre a grana que não vamos mais poder gastar com supérfluos, sobre a cervejinha que não vou poder tomar por, pelo menos, um ano, entre outras milhares de privações que envolvem a chegada de um filho.

A minha reação, à princípio, foi de espanto com a capacidade das pessoas de, tão inocentemente, assustarem desnecessariamente uma gestante, uma futura mãe. Obviamente, eu tenho uma profunda compreensão de que tudo isso é fruto da preocupação e cuidado das pessoas em relação a mim e à minha filha, tudo reflexo de um enorme carinho. Mas eu via uma certa irresponsabilidade nesses discursos. Ninguém me perguntava sobre o que eu tinha dúvida ou no que eu precisava de orientação. Ninguém me falava sobre alguma dificuldade e logo em seguida sobre uma forma de superar ou estar preparada para ela. Ninguém mostrava que havia uma luz no fim do túnel. Claramente não são todas as pessoas que adotam essa postura, mas uma boa parte delas, sim! Me assustou e me perturbou muito o discurso da desromantização da maternidade que, hoje, não é mais tão novidade assim. Mas pra mim, antes de engravidar e bem no início da gravidez, não parecia ser algo tão arraigado nas pessoas, fossem elas já experientes na maternidade ou não.

Eu também curto e apoio a ideia de que deve haver essa desromantização da maternidade, mas, acima disso, acredito que ela deve vir acompanhada do incentivo à busca pela preparação e por informação. Poucas pessoas sabem o que é uma rede de apoio e o que fazer para criar uma – menos ainda o que é puerpério. A maioria não acredita nem que o pai pode ser participativo e ativo no parto, mas isso é assunto para outro momento. Eu e o Bruno encontramos muita informação de qualidade – baseada em evidências científicas – em rodas especializadas acerca do universo da maternidade, do processo do parto e outros. Nós optamos por estar bem informados e bem assessorados. Talvez por isso eu tenha me incomodado com a atitude das pessoas que, depois, entendi que era comum e consequência do amor e preocupação que todos têm por nós e, agora, pela Isabella.

Na gravidez, a gente passa por alguns perrengues, mas também por coisas boas e super agradáveis. A gentileza das pessoas, conhecidas ou não, é algo quase palpável. A todo instante uma cadeira é puxada pra você sentar, braços são abertos pra dar passagem nas filas, um sorriso diferente e sempre uma referência ao serzinho que tá aqui dentro, uma curiosidade muito fofa pelo nome e pelo sexo do bebê, o choque das crianças ao verem o tamanho de uma barriga de 8 meses e o choque maior ainda quando eu falo que engoli um chiclete. Muito bom!

E as pessoas ao meu redor também são responsáveis pelos melhores momentos da minha gravidez. Dar a notícia “de presente” para a família no Natal, ver a surpresa dos amigos de colégio ao saberem que foi dada a largada para a próxima geração, a alegria que brotava e explodia feito um rojão nos amigos do condomínio, o surgimento de um amor imenso das pessoas pela Isabella em fração de segundos e sem nem saber ainda se era a Isabella ou o Miguel… Teve choro, teve riso, teve festa, teve a decoração mais linda de abelhinha no chá de fraldas, teve papo sério, teve muita mão na barriga, teve beijo na barriga que nem era protuberante ainda, muitos presentes, muitas fraldas, muito acolhimento, roupa emprestada pra mamãe, roupa doada pra Bebella, promessa de casamento, amizade começando no útero, muita foto, muito repelente, gente aprendendo o que era método montessoriano, avô comprando Havaianas pra neta, tia caducando e bordando todas as fraldinhas da Isabella, marido espantado com a festa que a Bebella faz na barriga da mamãe – principalmente à noite -, e amor, muito amor! E continua “tendo”! Foi o que eu mais senti e melhor senti: o amor!!!

Ah, e teve a avó materna se fazendo presente também! Pra quem não sabe, o traje oficial no pós-parto é a camisola, e minha irmã achou uma sacola com várias que eram da mamãe. Muitas camisolas, umas de algodão e a maioria de linho com bordados, muito lindas e novas; acredito que ela mal tenha usado. Foi poético ser presenteada por uma pessoa que está fazendo muita falta e com algo que vai ser extremamente útil pra mim, nesse momento. Um especial agradecimento à minha irmã por ter feito esse presente chegar até mim após tantos anos.

E, de tudo, o que fica e o que predomina é, sem dúvida, o tantão de amor que recebemos de todos, mesmo que seja necessário interpretá-lo. Imagina quando a Bebella chegar: vai ter mais amor, mais alegria, mais de tudo!!!

Colaboradores

Marianna Coelho

Marianna Coelho

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Administradora com pé na comunicação, pós-graduanda em comunicação estratégica, esposa do Bruno, mãe do Freddie, o beagle mais lindo de todos, e mãe da Isabella, que está pra chegar. Tem mania de fazer lista pra tudo, ama comer e ouve música o tempo inteiro. Lê menos livros do que gostaria, é mais ansiosa do que deveria e sua altura diretamente proporcional à velocidade com a qual perde a paciência.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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