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Um escultor de Messejana nos estúdios de Hollywood

Com Alex Oliver Por Marcela Benevides, Igor de Melo
19.dez
2018

Herdou do pai o talento para as artes, mas as influências vieram de outros universos. O interesse por desenho e escultura foi alimentado pela cultura pop. Filmes como Star Wars e E.T – O Extraterrestre, despertaram uma curiosidade que, ao longo dos anos, se tornou amor e dedicação.

No começo achava que iria desenhar histórias em quadrinhos e foi até por isso que Alexandre Rodrigues se tornou Alex Oliver. Mas o que fazia – e faz – bater o coração mais forte é a escultura e os efeitos especiais.

Fortalezense, nascido e criado em Messejana, não sentia que o pai o incentivava a seguir na profissão, mesmo sendo artista plástico também. Mas ele entende e defende que a arte do pai, por ser voltada mais para a pintura e ser completamente diferente do que ele almejava para si – trabalhar em estúdios de cinema -, era uma realidade abstrata e distante para ele.

A ponte entre Fortaleza e Los Angeles foi feita por meio dos fóruns da internet, onde Alex começou a divulgar o trabalho e passou a ser reconhecido por olheiros que buscavam novos talentos. Durante 1 ano e 2 meses morou na Califórnia e desenvolveu trabalhos com aqueles que considerava seus ídolos. Voltou ao Brasil por motivos de saúde, mas fez um pacto consigo mesmo de que não iria continuar aqui para sempre, não por não gostar, mas para não se anular como artista.

E seu mais recente trabalho aqui em Fortaleza, para mostrar a diversidade dos seus trabalhos, Alex Oliver será um dos artistas a compor o Jegue Parêidi, uma ação do Sistema Jangadeiro, inspirado no movimento Cowparede, mas com uma proposta mais regional.

Entrevista

Vós – Como Alexandre Oliveira Rodrigues virou Alex Oliver?
Alex – Como eu comecei com os quadrinhos, porque era algo que eu gostava de desenhar, enviei um trabalho e era preciso ter um nome artístico, mas eu não gostava porque acho meio chato essa coisa… Mas tinha que abreviar e seria no mínimo Alex, e o resto eu ia fazer o que? Eu fui relutante, disse que não queria, mas o cara chegou pra mim e disse que tinha mandado o meu trabalho assinado como Alex Oliver para o agente e ficou como Alex Oliver.

Vós – Quando você começou a se interessar pela arte?
Alex – Eu tinha uns 9 anos. Meu interesse mesmo por escultura e desenho veio por conta da cultura pop, os filmes do Star Wars, E.T e as animações da Disney. Eu queria entender como era feito aquilo, era algo que me interessava bastante. Eu desenhava e queria ser mais desenhista do que escultor, mas tive uma frustração muito grande porque queria fazer animação tradicional, mas já não existia mais essa possibilidade e com o tempo eu fui me desligando e comecei a me interessar muito por escultura em meados da década de 1980, principalmente pela área de efeitos especiais, maquiagens animatrônicas, e comecei a sonhar em querer morar em Los angeles, em Hollywood e fazer filmes.

Vós – Você diz que a cultura pop te influenciou bastante. Seu pai também é artista plástico. De alguma forma você pegava referências do trabalho dele?
Alex – Mesmo sendo artista plástico não senti apoio muito grande dele. Teve a influência genética, claro, mas foi muito difícil para ele entender o que eu queria fazer por causa da temática que escolhi. Eu dizia que queria trabalhar em estúdio de cinema, fazer personagem para filmes… Era complicado até pro meu pai imaginar essa realidade, acho que ele acreditava que eu estava delirando, então foi bem difícil mesmo.

Vós – E quando você começou a ter contato com os estúdios de Hollywood?
Alex – Comecei a descobrir que os estúdios tinham um endereço através da internet, que me ajudou muito nesse aspecto. Os meus primeiros contatos foram através dos fóruns que existiam, hoje você tem as redes sociais. Alguns artistas que trabalhavam em estúdios de Hollywood divulgavam os trabalhos em grupos de pessoas interessadas e eu consegui entrar nesses grupos e comecei a compartilhar os meus trabalhos também e houve uma aceitação muito boa. Até que alguns dos meus trabalhos chegaram nas mãos dos donos de um desses estúdios e comecei a trocar e-mails. Muita gente não acreditava que eu estava em contato com eles, achavam que eu inventava ou estava viajando demais…

Vós – E depois desses trabalhos chegarem nas mãos certas, quando você foi para Los Angeles?
Alex – Saí de Fortaleza e fui morar em São Paulo para dar aula em 3D. Nesse mesmo período fui chamado para ser beta test do software Zbrush, que era o software que estava revolucionando o mercado digital e eu fui o único brasileiro a testar esse software. E isso deu um reconhecimento muito grande nos fóruns ao redor do mundo e meu trabalho foi ganhando destaque. Lá tinha os olheiros que saíam procurando novos talentos para as empresas de gamers. Então, eu estava no meio dos caras e ia fazendo os testes e postando meus trabalhos constantemente. Depois, comecei a receber os convites das empresas e acabei escolhendo a Blizzard porque ela tinha experiência em levar artistas para trabalhar com eles.

Vós – E como foi essa experiência?
Alex – Fantástica! Nesse aspecto podemos dizer que é um país de primeiro mundo, em termos de tecnologia e das pessoas ao redor. Aqui eu me sentia só, porque o crescimento vem muito de você conseguir ver de perto outros artistas fazendo trabalhos muito bons. Então, estar em um local rodeado de artistas muito bons e ver trabalhos que você só encontrava em revistas é outra coisa, é uma experiência muito enriquecedora. É uma inspiração absurda! O acesso ao material, aos estudos, livros, o reconhecimento é absurdo.

Vós – E você acha que é mais reconhecido aqui ou fora do país?
Alex – Acho que sou mais reconhecido lá fora do que aqui, mas isso não me deixa triste de forma nenhuma. Eu sabia que eu era conhecido lá fora, mas quando eu cheguei lá se transformou em outra dimensão…

Vós – Como assim “se transformou em outra dimensão”?
Alex – É algo que eu não consigo nem explicar. Aqui no Brasil a gente tem a cultura de que o chefe é meio distante do seu subordinado, então, lá era muito estranho saber que meu chefe chegava pra mim e dizia que era fã do meu trabalho, que sempre quis me conhecer, que era uma honra eu estar trabalhando com eles, então era surreal pra mim. E eu ouvi isso do Rick Baker, que ganhou 7 Oscars de melhor maquiagem.

Vós – As suas obras são bastante realistas. Por que você escolheu seguir por esse caminho?
Alex – Como eu queria trabalhar em Hollywood com efeitos especiais, e na época se utilizava muitos dublês que eram os bonecos, então para fazer um ator se transformar num lobisomem, eles tinham que fazer réplicas de uma pessoa até se transformar no monstro que eles queriam e por isso a escultura tinha que ser muito realista. O requisito para você entrar numa empresa dessas é que você tivesse uma referência acadêmica, você não podia só saber fazer monstros, tinha que saber esculpir pessoas reais e monstros, e essa foi uma meta traçada na minha vida. E aí acabo retornando aos grandes mestres como Bernini, Michelangelo para beber dessa fonte.

Vós – E por que você decidiu voltar para o Brasil?
Alex – Foi por uma questão de saúde. E é aquela coisa, quando você gosta de fazer algo é preciso tomar as decisões certas e tive que fazer uma escolha. Ou continuaria lá e complicaria minha saúde ou voltava. Para mim não foi muito difícil escolher voltar, mesmo assim, diferente de muitas pessoas que desistem, eu voltei a me organizar e hoje eu consigo trabalhar e viajar. Talvez se não tivesse ido e voltado, não tivesse conseguido realizar algumas coisas. Mas eu não quero ficar permanentemente em Fortaleza, essa é uma regra que eu tenho, um acordo que fiz comigo mesmo; eu volto mas não fico permanentemente, se não eu também me anularia.

Vós – Você tem algum projeto autoral?
Alex – Ainda não, mas tenho um projeto pessoal que é até ambicioso, é quase um sonho de consumo. O pessoal tá querendo trocar de carro e eu quero outra coisa. Quero ficar um período de um ano sem pegar nenhum tipo de trabalho, mas isso requer dinheiro para ter estabilidade. Sumir e passar um ano produzindo um material do jeito que eu quiser, no tempo que eu quiser para depois levar para as galerias.

Vós – Como você definiria arte?
Alex – O ser humano sempre tentou se expressar de diversas maneiras e a arte é essa expressão do ser humano, desde a época das cavernas os homens primitivos tentaram contar as histórias, imprimir literalmente na pedra algumas ideias deles. A função da arte é tentar passar alguma ideia e conceito para alguém. Quando você faz um desenho ou uma escultura a ideia é chamar atenção para aquilo. Ao fazer uma linha reta, por exemplo, quem olha diz que é “só uma linha horizontal ou vertical”, mas quando você curva essa linha e quebra a monotonia, chama atenção e seu olho passa por essa linha e prende atenção de quem está olhando. A arte é uma forma de sedução.

Vós – Você acha que conseguiu seduzir as pessoas com seu trabalho?
Alex – Não sei, mas estou tentando, estou tentando…

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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