Vós

menu
Mora

“Gosto de cores com coragem”

Com Rozi Cariri Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
24.abr
2017

Na Sapiranga, um muro azul, portões verdes e marcos amarelos são os guardiões de uma casa que, em plena Fortaleza, é um retrato colorido do sertão

Está na música, na poesia, na literatura: apesar de todas as dificuldades, das provações e até das partidas, o sertanejo é apaixonado pelo sertão. A vivência, os costumes, a cultura, a arte, a morada. São imagens e sensações que eles carregam consigo na lembrança, na alma, no coração.

Mas para a artesã Rozi Morais ou, como prefere ser chamada, Rozi Cariri, fechar os olhos e recordar com carinho da terra natal não foi o suficiente. Ela precisava de mais. “Eu carrego esse sertão dentro de mim. Sou filha de sertanejo, então essa coisa da terra, o cheiro, a mata estão dentro de mim. Eu não sei viver sem ele”.

Filha de Quitaiús – um distrito de Lavras da Mangabeira, a 424 kms de Fortaleza – Rozi mora em Fortaleza já há dez anos. Aqui, encontrou de cara outro interiorano, Lúcio Holanda, de Limoeiro do Norte, alguém que também carregava esse amor pela cultura do interior do Estado. Foi essa paixão que os aproximou. Isso, e uma música de Fausto Nilo. “A gente tava na casa de uma amiga e eu falei dessa música, e depois ele me deu o CD do Fausto”.

“Casa tudo azul eu me lembro de você”

O nome da música ela não lembra, mas cita outra igualmente importante: Casa Tudo Azul, que foi a canção que deu cor à morada que o casal viria a construir. “A princípio a gente ia fazer uma casa de taipa, mas nos preocupamos com a questão da limpeza e mudamos de ideia. Optamos por uma casa de tijolos aparentes, que fosse arejada, que tivesse espaço para os meninos correrem… Porque a gente queria ter uns ‘comedozim de rapadura’. Mas não deu tempo, porque ele foi embora antes de mim… Lá pro outro lado”.

A construção da casa durou cerca de um ano e o desenho foi todo projetado por Lúcio, que era arquiteto de formação. “Ele que construiu essa casa; o único projeto de arquitetura dele”. Mas eles ainda conseguiram passar quatro anos desfrutando o reduto sertanejo no meio da Sapiranga. “É uma casa pra ser preservada!”

As paredes são desniveladas e o piso, de cimento batido com vários mosaicos espalhados pelo chão, como se fossem tapetes. “Todos são reproduções de obras de artistas cearenses. Mas prevalecem as do Audifax Rios. Depois ele ainda veio aqui e assinou algumas”. Mas o preferido, sem pensar duas vezes, é o de um bode inspirado no Movimento Armorial, do dramaturgo paraibano Ariano Suassuna, onde estão escondidos um “L” e um “R”. “O Lúcio mandou fazer quando eu tava viajando. Mas só fui perceber as letras um ano depois”.

“Eles têm a coragem da cor”

Foi também de Ariano Suassuna a frase – dita no Cine Ceará de 2006 – que inspirou o casal a construir um lar colorido. “Sou que nem ele. Eu gosto de cores com coragem! Detesto aquela coisa cinza, pálida. E, no começo, eu tinha muita dificuldade de me concentrar aqui… Porque ficava admirando as cores”.

E para casar com tanta cor, madeira. “Todos os móveis daqui eu trouxe de Barbalha, de uma associação que tem no Alto da Alegria. Eles recebem doações do Ibama de pés de pequizeiros que morreram na serra por conta de queimadas. E, a partir dessa madeira, eles fazem esses móveis. E são todos de lá, fora algumas cadeiras do Seu Espedito Seleiro”.

A decoração ficou a cargo de quadros e peças de artistas como Audifax Rios (quase um padrinho da casa), Vlamir, Bivar, Nogueira e algumas reproduções da casa pintadas por Nelson Barros, companheiro de Rozi já há três anos. “Ele fez uma coletânea. Disse que se algum dia eu vender a casa, pelo menos fico com os quadros”, ri.

Afora as pinturas, também tem muito artesanato do Cariri, é claro. “A gente foi juntando artistas de lá, como a Lulu e o Pebinha (Lusyennir e Demóstenes), que fazem um trabalho com fécula de mandioca. Além disso, tem o trabalho de um artista, do Juazeiro, chamado Di Freitas, que constrói instrumentos musicais a partir de cabaças, que ficam expostos na casa para as pessoas verem e, pra quem quiser, tocar”.

“E a canção é a Lua Cheia a nos nascer do coração”

E de todos os espaços da casa grande, o preferido da artesã é a varanda, “porque tem esse vento, uma lua linda, os passarinhos cantando, os macaquinhos que vêm comer banana”.

É lá que o grupo de mandalas, monitorado pela artesã, se reúne para tecer os círculos com linhas coloridas, e também é lá que ela faz suas pinturas. “Eu queria fazer algo que me remetesse a onde moro e de onde vim, que é o universo sertanejo. Então resolvi dar um colorido a objetos – como quartinhas, lampiões, regadores e pratos de barro -, já que no sertão tem essa coisa mais fúnebre das cores, mas ao mesmo tempo viva”.

São as cores que transformam objetos simples em arte e uma casa num reduto cultural que tem como objetivo lembrar das origens e “pra mostrar a vida desse povo. É através da arte e da cultura que eles se fazem presentes, onde são vistos, conhecidos. É o que dá coragem”.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar