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[Patrimônios Históricos] - Saiba tudo sobre a Igreja mais antiga de Fortaleza

Por Leila Nobre, Gabriel Gonçalves

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19.jul
2016

Sobre a Igreja onde está enterrado o Major Facundo, Leila Nobre detalha tudo. A Igreja do Rosário foi Catedral por 40 anos ininterruptos até a conclusão da Catedral da Sé. Lá, muito sangue já foi derramado em batalhas que fizeram rodopiar até a estátua de General Tibúrcio! Hoje a construção é tombada pelo Patrimônio Histórico, e tudo começou quando negros escravos e forros lutaram para ter seu próprio templo! 

O templo mais antigo de Fortaleza 

Considerado o templo religioso mais antigo de Fortaleza, a igrejinha do Rosário era apenas uma capelinha de taipa e palha em 1730. Segundo conta à história, foi erguida por iniciativa de um escravo africano. Cinco anos depois, foi refeita em pedra e cal com apoio de tesouras de madeira, que compõem a estrutura da coberta.

O desenho da construção apresenta uma nave central e uma nave lateral, com um átrio em sua entrada principal e dois altares laterais, além do altar-mor, conservado com aparência original, que se encontra na parte posterior da edificação.

Há também um espaço destinado ao coro, um nicho com uma imagem antiga de nossa Senhora do Rosário e uma tribuna realçada por balaústres. O interior da igreja é tão simples quanto a sua fachada, e o piso de madeira confere aquela sensação de aconchego. A única torre, com duas janelinhas redondas, compõem com o teto pintado de azul e trabalhado com florões.

Localizada na Rua do Rosário, a igreja foi construída pelos escravos em um largo areal que depois de planejado virou o Largo do Palácio, sendo posteriormente urbanizado e hoje é a Praça General Tibúrcio, ou Praça dos Leões. Na época, a igreja era considerada distante da Vila, centralizada em redor da Matriz de São José. Nela os escravos rezavam seus terços, novenas e outros atos de devoção. Apesar da construção datar do século XVIII, não é possível precisar ao certo quando a dita Irmandade doRosário começou a trabalhar na construção.

O templo negro dedicado a Maria

Em Fortaleza, como em muitas outras cidades do Brasil, os negros procuraram desde cedo ter o seu próprio templo, já que eram discriminados nas igrejas construídas pelos brancos. E, assim como em outras partes, sua devoção dirigia-se a Nossa Senhora do Rosário, considerada sua Padroeira.

Em 28 de Abril de 1742, de passagem pela Vila de Fortaleza, o padre visitador Lino Gomes Correia, determinou que os senhores de escravos permitissem que estes trabalhassem na manutenção e fizessem devoções na igrejinha. Os escravos teriam então o dia de sábado livre para granjearem o sustento e os dias santos para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário.

As festas pomposas do Rosário 

No dia 27 de outubro de 1747, ocorre a primeira festa dedicada a Padroeira, cobrando os padres que ficaram responsáveis pelos atos religiosos, à quantia de 10$000 (dez mil réis) pela missa e 7$000 (sete mil réis) pela música. A partir de então, todos os anos, vinham os negros, escravos ou forros, nos bandos de congos dançarem na noite de Natal em frente à Igreja. Era grande o número de pessoas que vinham prestigiar a solenidade, inclusive autoridades. Em certas ocasiões a festa do Rosário alcançava esplendor, conforme relato de João Nogueira no livro “Fortaleza Velha”:

Era festa de pretos, [….] levada com grande pompa e luxo, as negras escravas ostentando cordões de ouro, brincos e joias de valia, que suas [….] senhoras lhes emprestavam para que se apresentassem como o espavento e brilho exigido pela importância da missa e coroação dos reis.”

Pelas ruelas nascidas na beira do mar, rumo à igrejinha do Rosário, vinha o cortejo cantando e executando bailados e jogos de agilidade, simulando combates:

O Secretário, então, perguntava: Os pretinhos dos congos, pra onde vão?
O coro respondia: Nós vamo pro Rosário. Festejá a Maria.
Secretário: Oh! Festeja, oh festeja, oh festeja. Com muita alegria.
Coro: Nós vamo pro Rosário, Festejá a Maria.
Secretário: É de zambi a pumba. É de bambê.
Coro: Miserere, miserere. Misere rê.
Secretário: Papaconha, papaconha. Peneruê.
Coro: É de zambi a ponga. E qui bambê.

Apesar de haver uma Irmandade, com dirigentes e um Juiz (Presidente), no início, o grupo tinha dificuldades em manter o imóvel em perfeitas condições, tanto que, em 1753 a igrejinha estava ameaçada de cair e com a permissão das autoridades eclesiásticas, iniciaram-se a reconstrução, agora em pedra e cal, ficando pronta em 1755.

Sangue derramado 

Em 1821, a igreja de São José (Matriz da cidade) estava em estado deplorável, precisando ser reconstruída com urgência. Como a vila já havia crescido para o lado da Igreja do Rosário, foi transferido para lá o Santíssimo Sacramento (em procissão) e todas as imagens. Assim, a igreja do Rosário funcionou como Matriz até 2 de abril de 1854, quando as imagens voltam à nova igreja.

Antigamente, os templos eram usados também para realização de atos públicos, pois a igreja era unida ao estado. Nas eleições de 1848, ocorreu um grave conflito, resultando inclusive em derramamento de sangue dentro do próprio recinto sagrado, e a capela foi até interditada.

A estátua que rodopiou em caiu em pé

Em 16 de fevereiro de 1892, na revolta contra o Presidente Clarindo de Queiroz, promovida por Floriano Peixoto, uma bala de canhão das utilizadas no bombardeio doPalácio da Luz, pelos alunos da Escola Militar, foi arremessada contra a porta principal da igreja do Rosário, arrebentando o púlpito, 2 balaústres da mesa de comunhão e a parede que dá para o corredor esquerdo; depois, em ricochete, destruiu o altar de Nossa Senhora das Dores e mais 3 balaústres. Outra bala dessas acertou a estátua doGeneral Tibúrcio, que, reza a lenda, rodopiou no ar e caiu em pé!

Catedral por 40 anos

Desde os séculos passados, a igreja já foi cenário de graves conflitos políticos, balas de canhões, celebrações ecumênicas e muitas, muitas reformas!

Em março de 1929 novas janelas foram abertas na altura do primeiro andar e em julho de 1935 foram construídos dois nichos, ao lado do sacrário, um com a imagem de Nossa Senhora do Rosário e outro com a de Santa Teresinha.

Em setembro de 1938, assim como ocorreu em 1821, a Matriz de São José foi novamente demolida para construção de uma nova igreja. Mais uma vez, a Igreja doRosário passou a ter as honras de Catedral, embora muitos atos, os mais solenes, fossem realizados na Igreja do Pequeno Grande.

Quarenta anos foram necessários para a construção da nova Catedral da Sé, durante os quais a Igreja do Rosário funcionou como a principal de toda a Arquidiocese!

Ossadas de 10 homens e 1 criança

Em março do ano 2000, uma reparação da coberta acabou se transformando numa obra de restauração que se estendeu por quatro anos, reabrindo as portas para os fiéis em 30 de julho de 2004. Foram realizados trabalhos de prospecção da pintura interna e externa, portas e janelas pintadas, recuperação do piso, telhado e das instalações hidráulicas e elétricas. O trabalho de restauração foi criterioso e acompanhado por técnicos do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Apesar dolongo tempo que durou os serviços, as gravuras que foram descobertas no teto e nas laterais do altar não foram recuperadas. Durante as obras, os restauradores encontraram, sob o piso, covas com ossadas de dez homens adultos e de uma criança. Eles foram enterrados entre os séculos XVIII e XIX. Após trabalho de investigação arqueológica, a previsão é de que os sepultamentos tenham ocorrido entre 1755 e 1848. Até meados do Século XIX, era costume enterrarem os mortos nas igrejas.

Um dos túmulos encontrados foi o do Major Facundo, um dos principais líderes políticos do Ceará. No local existe uma lápide com inscrições relativas ao fato. A pedido de sua esposa, foi sepultado de pé, no interior de uma coluna da Igreja. Durante a reforma e restauração, importantes descobertas arqueológicas foram efetuadas nas escavações realizadas no local.

Em 2008 teve as portas fechadas por seis dias, devido a constantes assaltos. A decisão foi da Arquidiocese de Fortaleza, responsável pela manutenção da igreja que informou que os constantes assaltos a fiéis, sacristãos e funcionários da arquidiocese foi o principal motivo.

A igreja do Rosário tem capacidade para abrigar 150 fiéis e é tombada pelo Patrimônio Histórico estadual, através do Decreto n° 16.237, de 30 de novembro de 1983. Testemunha de acontecimentos históricos, foi nela que ocorreu a missa derradeira em prol das almas dos mártires da Confederação do Equador e o batismo do grande benemérito do Ceará, Rodolfo Teófilo.

Colaboradores

Leila Nobre

Leila Nobre

Ver Perfil

Leila Nobre é pesquisadora Memorialista. Idealizou e mantêm o site Fortaleza Nobre, onde procura resgatar a Fortaleza antiga, em suas ruas, praças, praias, monumentos. É casada e mãe de três meninas. Ama ler e escrever.

Gabriel Gonçalves

Gabriel Gonçalves

Ver Perfil

É fotojornalista desde 2008, tendo passado pelos três maiores jornais de Fortaleza. Trabalha com cinema, tenta ser músico, e à noite é facilmente encontrado servindo cerveja em alguns vários bares da capital alencarina. Atualmente atua como freelancer e em parceria com coletivos de produção audiovisual, ONG's, e entidades de direitos humanos. Acredita que a fotografia é meio e fim para a revolução social.

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