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Histórias

Inspirar para expandir as possibilidades de liberdade

Com Meg Banhos Por Marcela Benevides, Igor de Melo
08.fev
2019

Adjetivos são usados para expressar características de algo ou alguém. Arrisco dizer que, quando colocados corretamente, podem transformar o dia – ou a vida – de quem os recebe. Mas para definir a artista que tentou seguir tantas direções diferentes daquela que acabou por descobrir fazer parte de sua essência, usaremos o verbo que a guiou: inspirar.

Antes de ser quem é hoje, Meg Banhos tentou ser muitas outras coisas. Do Direito à Publicidade, só se apaixonou pela última quando fez especialização em Design e percebeu que era por esse caminho que gostaria de seguir. Mas na memória, recorda que desde pequena já tinha uma veia artística inflamada.

“Quando pequena eu já desenhava e achava que isso era normal pra todo mundo, tanto é que na época da escola o pessoal pedia para eu fazer as capas dos trabalhos e eu ficava “por que você não faz?”, e eles diziam que era porque eu fazia diferente, e foi aí que eu comecei a me tocar.”

Pensava em levar a arte como um hobby até que ela se tornou maior e mais forte do que a própria Meg. Como não existia muito direcionamento na época e precisou escolher o que iria ser pelo resto da vida aos 17 anos, optou por fazer faculdade ao mesmo tempo em que entrava no meio publicitário conhecendo agências e ilustrando, até que o encantamento pelo desenho se tornou desejo de profissão.

Começou ilustrando livros infantis para editoras e por isso seu traço é direcionado para essa vertente. Suas referências vão de Maurício de Sousa à Disney, mas ao longo do tempo seu traço foi se transformando em algo mais publicitário. “Em cada agência e cada diretor de arte era pedido uma coisa diferente, então eu tive que tirar o traço autoral e adaptar para o que o trabalho queria, mais comercial.”

Foi com o nascimento dos filhos que voltou às origens do seu traço. “Fui voltando para o autoral com um traço mais colorido e muito mais lúdico, mas não defino meu traço. Ele é o que o momento me pede, eu sinto e faço o que é para acontecer, até porque não faço esboço.” A escolha por deixar a espontaneidade ser uma das marcas do seu trabalho está relacionada a querer evitar que a ansiedade faça parte dele.

“O esboço geralmente me dá a sensação de que “eu tenho que fazer exatamente aquilo e isso tem que sair dessa forma”, então quando faço painéis gosto de ir no local e olhar, perceber o que dá pra fazer. Sei que isso gera uma insegurança em quem tá esperando o resultado, mas ao mesmo tempo eu tenho certeza do que vai acontecer ali, é um jogo de confiança. O processo livre me dá o espaço para surpresas. Tem um buraco que não tem aqui no projeto, mas eu já vi, identifiquei e já sei o que vou fazer naquele espaço, eu já visualizei antes e já sei como vou resolver o problema e não vai ser uma surpresa pra mim na hora. Mas é claro que quando o cliente chega pra mim e diz ‘o tema é esse, fica à vontade’, rapaz, é incrível.”

E é essa liberdade que Meg tenta transmitir nos seus trabalhos e por isso criou, dentro do próprio estúdio de ideias, um projeto com escolas para inspirar crianças. “A intervenção artística com crianças é para inspirar. Se podemos deixar um desenho, uma marca ou uma conversa que inspire as pessoas, nós estamos dentro. Quando criamos essa atividade com as crianças optamos por fazer um painel para que elas, dentro de um tema, criassem. Existiu o processo de fazer com que eles entendessem o que é a ilustração e como é desenvolver esse tipo de trabalho, só que elas fazem com divertimento porque é uma atividade lúdica.”

Para a artista, esse é um trabalho que se torna “muito especial” porque é um resultado surpresa. “A gente expõe o painel na escola e os pais ficam ‘meu filho quem fez isso?!’, e nós também conseguimos identificar alguns talentos e já conversamos com os pais sobre a veia artística da criança”. A ideia é estimular nas escolas um lado mais “construtivista”. “A maioria das instituições foca muito no estudar todas as disciplinas, aprender o cartesiano. Essa é uma maneira que encontramos de inspirar as crianças, os pais e os professores.”

Meg defende que ao trabalhar com crianças nos tornamos completamente livres. “O céu pode ser de qualquer cor, o cavalo pode ter asa e eu adoro esse tipo de liberdade, porque eles acreditam naquilo e se empenham.” E é por ser essa incentivadora e inspiradora de processos criativos livres que a artista foi a curadora do Jegue Parêidi 2018, um workshop promovido pelo Sistema Jangadeiro com as crianças atendidas pelo Lar de Clara, instituição filantrópica da Caucaia.

“Quando foi lançado o desafio, assim como todo mundo, já fiquei apaixonada porque era para trabalhar com criança, que já é algo que está nas minhas veias. Inspirar crianças já é algo que eu vinha fazendo, mas fiquei mais feliz por ser outro padrão de crianças, porque estaríamos num lugar onde seríamos muito mais um agente transformador do que praticamente um educador ou uma coisa lúdica para entreter crianças, mas para poder ir além e plantar uma sementinha ali para explodir.”

Os sete artistas escolhidos por Meg são pessoas que ela sabia que tinham a “intenção de transformar e mudar a vida de pessoas”. A desenhista ressalta que todos eles já foram atentos para observar crianças que eles pudessem “pinçar e direcionar por um caminho”. “Existia essa expectativa, mas lá foi outra surpresa. Tanto fomos impactados por eles como acredito que os impactamos de alguma forma. Pra mim foi o fechamento do ano, foi muita gratidão por ter recebido tanto deles.”

A ilustradora acredita que a arte precisa ser trabalhada desde cedo nas crianças para que elas se tornem adultos com uma visão de mundo mais ampla e de permissão para explorar outros caminhos. “O adulto é super preso, ele questiona e isso é legal, mas são questionamentos presos. Com eles você precisa tirar essas limitações e os trazer para esse universo de liberdade e falar ‘olha, é só uma folha de papel, não tem problema o céu ser rosa’. O adulto tem mais experiência de vida, então ele carrega dentro dos seus trabalhos artísticos toda uma bagagem de experiência e isso é bom, mas como ele não se sente artista, se prende e se trava e diz que ‘Van Gogh é melhor que eu’, então existe todo um trabalho de desconstruir o adulto.”

Para Meg, só a arte traz uma visão de liberdade do outro, dos lugares e das coisas, e quando incentivada é capaz de fazer com que enxerguemos com mais coração.

 

 

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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