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[ISO] - Panorama das Artes - um retrato da Galeria Panorama

Com Seu Francisco Por Valdir Machado, Henrique Araújo
02.dez
2015

Eles iam apenas emoldurar umas fotos, mas voltaram de lá com uma experiência rica para compartilhar. Leia em ISO o que Valdir Machado e Henrique Araújo encontraram numa galeria no Centro da cidade. Lá eles não acharam só um Barrica na parede, mas uma carta do próprio pintor.

Era mais uma manhã de sábado na rua Rodrigues Júnior. A primeira coisa que percebi foi o olhar manso e a testa franzida, seguido de um arrastado e cearense: “Diiiga!”. Mas sabe aquela percepção que vem antes, mas só cai depois? Pois é. A saudação me fez perceber que eu já estava rodeado de quadros, para onde quer que eu me virasse. Mal deu tempo eu dizer que tinha ido ali emoldurar duas imagens recentemente adquiridas, e o dono da Panorama Molduras já tinha me arrastado passo a dentro por sua galeria. Seu Francisco é rápido.

Soube pela conversa que é assim desde quando ele era empregado do ramo de tintas, no centro da Cidade dos anos 70. Ali, ouviu insistentes apelos dos clientes para que montasse o próprio negócio. De tanto insistirem, montou. Em 1979, abriu galeria no burburinho da 24 de Maio. O negócio ia bem até uma reordenação de umas paradas de ônibus, que ficaram em frente à sua entrada e tiraram um pouco do sossego que a apreciação da arte exige. De lá, mudou-se para o endereço atual. E é ali que os mais de 50 metros de fundo do terreno – natural daqueles lotes do final do centro, início da aldeota – servem de casa e de galeria. E, porque não dizer, têm a dimensão ideal para quem anda ligeiro.

Na Panorama, de tudo se permuta: é um verdadeiro escambo ou brechó das artes, como ele gosta de dizer. Aos saudosos, preciso dizer que senti no ar a sensação daquela Fortaleza antiga que às vezes tanto buscamos. Nesse dia, a cadeira na calçada, conversa pausada e o pé do rádio que tocava um outro Francisco (o Alves, dos anos 30) me fizeram ter a certeza de que podemos fazer uma espécie de viagem – atualizada – no tempo em nossa cidade, como já vimos aqui em outras matérias.

E ousaria dizer mais. A galeria de Seu Francisco é um antidepressivo do bem: parece que gera dependência. Do tipo saudável, claro. Tem gente que vai somente aos sábados, tem gente que vai todo santo dia.

Naquele sábado, conversei com uma senhora que buscava um restauro (ia esquecendo de dizer, Dona Cidinha, a esposa de nosso personagem, é especialista nessa arte) e vi uma bailarina que chegou para emoldurar umas fotos, como eu. Entre as fotografias dela, estava uma que me chamou a atenção: uma pequena menina –  talvez de seus três anos – sentada naquelas cadeiras de balanço, de encosto de palha, onde nos acostumamos a ver descansando os nossos avós: sublime contraste de gerações e objetos, próprios de uma imagem simples e, por isso, contemporânea.

Nesse instante, olhei um Barrica. Ao se dar conta de meu interesse, Seu Francisco logo retirou da gaveta um caderno com escritos do próprio pintor, o amigo Guilherme Clidenor de Moura Capibaribe. E começou a ler, orgulhoso. “Escute, aqui, meu filho. Veja o que ele escreveu pra mim”:

“Benvinda seja mais uma galeria que vai trabalhar na divulgação das artes plásticas do Ceará. Permita Deus que todas as estradas abram-se até aqui e a luz da santa crítica faça reconhecer o valor educativo desta exposição. Os meus colegas cearenses sejam os continuadores das futuras exposições, o que demonstra à bôa vontade da Galeria Panorama”.

“Gostou? Não é lindo?”

Poderia ter ficado ali muito mais tempo. Quem sabe até a Isabel – filha do Seu Francisco e dona de uma fiel clientela, ao lado pai – me expulsar, como tantas vezes ela, sorrindo, me contou que tem de fazer aos que insistem em não ir embora. Mas era hora de voltar pra casa. Conversar e fotografar tem dessas. As imagens ficam retidas num cartão de memória imediatamente, mas com o texto é diferente: a transferência é mais lenta e exige proximidade entre a captação e o registro. Então talvez seja melhor um meio termo: ide lá, o bate papo com Seu Francisco vos vai encantar.

Colaboradores

Valdir Machado

Valdir Machado

Ver Perfil

É economista. Teve infância inquieta, só paralisada ao som dos vinis de Roberto. A escrita sempre fez parte da vida, bem como a construção mental de imagens, ações por muito tempo dissociadas. Mais tarde, porém, uma fusão das duas, atendendo pela graça narrativas visuais, foi por ele absorvida como instinto.

Henrique Araújo

Henrique Araújo

Ver Perfil

Conheceu a fotografia ainda aos 9 anos, numa oficina de pinhole com latas de leite. A dificuldade de se expressar o levou à escrita e, esta, ao Direito. Em meio a discursos semânticos sobre norma e conduta, busca entender o mundo através das lentes e escrever pequenos contos visuais.

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