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Perfil

Jackson, o antecipador de futuros

Com Jackson Araújo Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
05.abr
2017

De alma hiperativa e inquieta, Jackson Araújo passeia pela fotografia, jornalismo, cinema, internet e consultoria. Parceiro de trabalho e de vida de grandes nomes da moda e da publicidade do Brasil, dedica sua vida ao estudo do comportamento, onde cunhou o termo jiu-jitsu cultural para explicar esse jeitinho que só o brasileiro tem de passar pelas adversidades. Vós foi para São Paulo para descobrir um pouco mais sobre o caminho traçado por esse cearense desbravador

À primeira vista, de roupas pretas e largas, quase um “pijamão”, barba cheia e comprida, cabelos negros e cheios sobrepostos com um chapéu, Jackson brinca dizendo que se assemelha a um judeu ortodoxo. “Já fui confundido com um várias vezes na rua”.

A vestimenta, comprada num brechó, faz parte de uma escolha de usar roupas que tenham uma história a ver com ele. O blusão, um clássico, é versátil, confortável e elegante, pronto para qualquer ocasião; como aquele que o traja.

Jackson Araújo é daquelas pessoas difíceis de classificar, pois já fez muita coisa ao longo de seus 52 anos de idade. Multimídia, é formado em Comunicação Social, se tornou especialista em análise de comportamento, consumo de mídia e de comunicação. Mas também já foi creditado como crítico, editor de conteúdo, consultor de moda, analista de tendências e sound-stylist. Pra facilitar, ele resume: “Sou um consultor criativo”.

Nascido em Fortaleza, foi viver em São Paulo não por vontade, mas pelo acaso. “Era o lugar certo, na hora certa”. E no timing perfeito. Chegou bem a tempo de prestar atenção numa cena que estava começando e ninguém percebia: o movimento underground. Notar o fez ser notado.

Construiu uma carreira toda pautada na moda, mas nunca quis ser estilista; queria falar de comportamento, movimento, tendência. Gosto esse, reflexo de uma alma ansiosa, que não consegue ficar muito tempo fazendo a mesma coisa. Quando sente que cumpriu seu papel, parte para o próximo desafio, pois precisa mudar, aprender coisas novas.

Dizer que ele é uma pessoa “a frente de seu tempo” é ser incompleto, já que ele tem uma relação toda especial com esse cronos. Ele enxerga e se antecipa. Ele descobre.

Entrevista

Vós – O que despertou em você a vontade de trabalhar com moda?

Jackson Araújo – Engraçado que, sempre quem começa a trabalhar com moda tem uma história de família. E, pra mim, isso é verdade mesmo, pois a minha mãe era costureira. Eu adorava ver ela costurando, e brincar no meio dos retalhos, mas nunca tive vontade de ser estilista. Gostava de informação, e a que a gente tinha em casa era muito pulsante. Morei dos três aos oito anos na floresta amazônica. Meu pai era militar e minha mãe a costureira da vila militar, de um lugar muito pequeno que se chama Cucuí, na fronteira de Brasil, Venezuela e Colômbia. Era os anos de 1970, então a gente não tinha acesso a nada: nem televisão, nem rádio. O que a gente tinha para ler era o que vinha de Manaus, as revistas de moda da minha mãe e os gibis. Nisso, descobri uma das revistas que ela comprava, A Cigarra, que hoje entendo o quanto foi influente no meu trabalho, porque falava de moda, música, arte, fotografia e comportamento, o que era o mais legal. Isso pautou o meu trabalho desde o começo; foi uma inspiração de vida, que é trabalhar a moda como comportamento e não como uma roupa.

Vós – Você é formado em Comunicação. Foi difícil tomar a decisão de trabalhar com esse ramo?

Jackson – Foi muito natural. Quando meu pai morou noutra fronteira amazônica, pedi que ele me trouxesse de presente uma máquina fotográfica, porque eu queria fotografar moda. Sempre quis fazer alguma coisa ligada à comunicação. Ele trouxe essa câmera e comecei a fotografar minhas irmãs, minhas amigas. Sempre inspirado pelo trabalho do Miro [Azemiro de Sousa], do [J.R.] Duran, mas de um jeito bem low tech. Depois entrei na faculdade de Comunicação, comecei a colaborar com o jornal O Povo, na coluna do Cláudio Cabral, já escrevendo sobre moda. A dificuldade maior era o tempo em que as coisas aconteceram, o acesso à informação. Hoje a gente tem internet, mas nos anos 1980 e no comecinho do 1990, se você quisesse ter acesso a essas revistas que falavam de moda e comportamento – como a i-D e a The Face -, tinha que mandar buscar fora do Brasil. Mas, como a gente tem essa habilidade de transformar a adversidade numa saída – o que eu chamo hoje de “jiu-jitsu cultural” -, nunca ficamos presos a isso; sempre criamos estratégias, fazendo festa, nos reunindo para ver videoclipe, emprestando revistas uns para os outros… O grande barato da construção de um pensamento naquele tempo foi esse trabalho coletivo, de dividir as coisas com os amigos.

Vós – Em Fortaleza, você só escreveu para O Povo ou chegou a trabalhar em outros lugares?

Jackson – Antes d’O Povo, nos anos 1990, fazia parte de um grupo de sete pessoas que se formou e abriu uma editora, que se chamava W7, e uma revista, a Wow. Era um projeto meio kamikaze. Ninguém sabia, mas era. Queríamos fazer de três a quatro exemplares pra colocar o nosso nome no mercado. Foi muito maluco! Éramos super jovens e fizemos essa revista, com um lançamento no Náutico – chamando e reunindo os amigos – pra vender anúncio, porque a gente não tinha dinheiro, mas tinha que bancar a revistas. E foi uma movimentação tão maluca na cidade, que a Wânia Dummar convidou a gente pra editar o Caderno de Domingo do jornal O Povo. Foi aí que começamos a exercitar tudo aquilo que acreditávamos: falar de comportamento, de música, de Miss Travesti… Eu assinei a primeira grande matéria de humor do veículo, com a Rossicléa e toda aquela “gangue” na capa do jornal, resgatando essa ideia de que o cearense é bem-humorado. Ficamos por cerca de um ano por lá, mas era muito difícil, porque éramos muito “escrotinhos”. Era um caderno de domingo e a família cearense tradicional, que era quem lia, tinha que conviver com as pautas mais absurdas que a gente colocava na roda.

Vós – Mas a repercussão do caderno era boa?

Jackson – O público gostava! E foi muito impressionante porque a gente fazia, basicamente, um grande resumo cultural do que acontecia em Fortaleza. Não era um jornalismo dominical tradicional, de social e fotos de eventos. A gente fazia um jornalismo de cultura e contracultura, de falar do que era super novo, de muralistas (o que hoje é conhecido como grafite), de história em quadrinhos, de cultura gay, de música underground, de lugares que iam abrir… Pautava a cidade, de alguma forma, dos eventos que estavam acontecendo. E, como não tinha a internet, o jornal tinha um papel muito forte. E foi muito massa! Saímos depois porque já tínhamos cumprido o nosso papel. Aí cada um foi por um caminho diferente.

Vós – Foi nessa época que você se mudou para São Paulo?

Jackson – Praticamente. Vim pra cá em 1993. Depois dessa época da WOW, abri uma empresa de fazer desfile, editorial e campanha de moda. Consegui fazer algumas coisas legais e a mais bacana foi para uma marca que se chamava Anirak Jeans, que estava começando a exportar pro Mercosul. Fiz uma instalação de slides, com fotos minhas projetando a coleção nas paredes do estande deles na Fenit (Feira Nacional da Indústria Têxtil), que era onde as pessoas lançavam coleções. Não existiam esses eventos de moda; lá era o lugar onde as coisas aconteciam. E eu vim pra São Paulo fazer essa instalação e aconteceu uma coisa muito maluca… Eu tinha feito um filme experimental em Fortaleza, o “Aline, Anik, Anne e Aurineide vão à Praia” – o primeiro filme que a Aurineide Camurupim participou -, que foi exibido durante um festival na Casa Amarela e foi vaiado. Mas aqui virou capa da (Folha) Ilustrada, como uma renovação da linguagem experimental do vídeo. E também foi revelação do primeiro Festival MixBrasil de Cultura da Diversidade. Ele era uma coisa bem anti-padrão-qualquer-coisa, e como virou essa comoção em São Paulo, decidi que ia ficar aqui. Se num canto o filme era vaiado e no outro virava capa, era sinal de que eu tava no lugar errado.

Vós – E depois?

Jackson – Fiquei e percebi que estava acontecendo um movimento novo de moda em São Paulo, que era exatamente a moda underground. Já existiam as grandes marcas que fizeram parte da primeira leva da São Paulo Fashion Week, mas o que me interessou foi justamente aquilo que eu tava procurando, o novo, o que me movia sempre: a curiosidade do que está por vir. O meu trabalho é todo pautado por isso, pois sou uma pessoa ansiosa e vivo no futuro o tempo inteiro, tentando descobrir o que vai acontecer. E vi isso acontecendo em São Paulo, que era uma cena de amigo falando pra amigo. Eu tinha chegado de Fortaleza com uma certa grana no bolso, porque eu morava na casa dos meus pais, trabalhava e não gastava com nada; então resolvi mapear, por conta própria, toda essa juventude que estava fazendo roupa underground. Comprava uma peça de um e de outro, fiz uma rede de amizade muito grande, comecei a conhecer todo mundo e a entender o que tava acontecendo. Nesse momento, conheci a Erika Palomino, que me convidou pra trabalhar com ela na Folha de São Paulo pra ser colaborador da Ilustrada e assinar uma coluna nova que era publicada às quintas-feiras, que se chamava Atitude e falava justamente dessa geração e desses novos valores: música eletrônica e cultura noturna. Aí eu fiquei na Folha por um tempo fazendo isso, até quando fui chamado pra fazer a Coluna Gay que saía aos domingos na revista da Folha, onde fiquei por dois anos.

Vós – E começou a trabalhar com cinema publicitário…

Jackson – As coisas são muito malucas na minha vida. Tinha um boteco/clube perto da minha casa onde praticamente tudo acontecia. Aí, tava lá conversando e chegou um cara que perguntou se eu era o Jackson, porque ele tinha conhecido alguns amigos meus em Londres que disseram que ele tinha que trabalhar comigo. O nome dele era Billy Castilho, diretor de arte de cinema. Então, ele me chamou pra trabalhar com ele, pra fazer o figurino de seus filmes de publicitários. Larguei o jornalismo, fui pra publicidade, e fiquei no cinema publicitário de 1996 até 2000. Filmei com todos os diretores importantes daquela época: Fernando Meireles, Hugo Prata, Gisele Barroco, Sérgio Amon… Era o momento áureo da publicidade. Tinha os produtos e tinha a parte conceitual que quem cuidava era eu, das histórias malucas. Isso porque eu tinha o background de moda e de direção de arte (que eu já fazia nos meus filmes), então, quando assumi o papel de figurinista de publicidade, disparei na frente das outras pessoas, porque já tinha essa informação e um canal aberto com todas as marcas de moda de SP, por causa do meu trabalho como jornalista de moda. Aí eu comecei a ser referência dentro da área de cinema publicitário como um cara de moda. E comecei a virar referência no país dentro desse cinema, exatamente pela minha paixão pelo Brasil, por ter vivido na Floresta Amazônica, ter vindo do Ceará, ter sempre defendido de uma maneira muito natural o nordestino, ter esse sotaque.

Vós – Quando voltou a escrever?

Jackson – Cansei de cinema e saí. Já tinha feito todo tipo de mídia e queria fazer internet. Peguei cachorro, namorado, compramos um carro e fomos pra praia. Chegando de lá, tinha um telefonema da Erika Palomino dizendo que tava sendo patrocinada pra abrir um site de moda, noite e lifestyle, e me convidou pra trabalhar com ela de novo. Eu disse que só aceitava se fosse o editor. E fiquei, de 2001 a até 2006, no erikapalomino.com.br, o primeiro site importante de moda, comportamento e música na internet brasileira. Depois a gente conseguiu migrar pra uma plataforma multidisciplinar, tínhamos um galpão onde aconteciam exposições de arte, e ali eu virei diretor de conteúdo, que era exatamente onde eu chegaria hoje como consultor criativo, pegando todas as mídias, trabalhando imagem, fotografia, artes plásticas. Fiquei lá até 2006. A moda mudando, a internet mudando, eu com essa ansiedade de querer mudar e não conseguia, porque o negócio não era meu. Na época, tinha uma irmã minha que estava com câncer em Fortaleza e eu larguei tudo e fui me dedicar a ela. Quando ela morreu, decidi tirar um ano sabático. Estava exaurido.

Nesse momento, a Box 1824 estava construindo um novo pensamento de análise de comportamento de tendência – que era o que eu já fazia de um modo muito empírico. Era uma empresa super jovem que criou uma nova estrutura de pensamento dentro desse mercado no Brasil, e eles me chamaram pra ser gestor de conteúdo e análise de tendência de comportamento. E eu fui. Trabalhei na Box de 2007 a 2009, fazendo essa gestão, e fazendo o que eu considero hoje o meu MBA, porque tive contato não só com esse novo pensamento jovem na internet, mas também com metodologia de entrega, de raciocínio lógico. A partir daí, o que faço hoje, que é essa junção de coisas que eu chamo de consultoria criativa, vem desse aprendizado de olhar o mundo, de perceber todas as mídias e de tentar encontrar caminhos comuns, novas linguagens de transformação e pra onde o mundo pode ir daqui para os próximos cinco anos.

Vós – E saiu de novo.

Jackson – Foi! E abri uma empresa novamente, que é a que eu tenho até hoje e tem o meu nome. Ela funciona muito no âmbito de agente, não de agência. Sou eu e colaboradores que eu chamo para cada projeto, mas sempre ligado a essa possibilidade de entender o mercado de moda que é de onde eu vim, da minha formação que é o que eu realmente gosto. A moda como comportamento, que envolve cinema, gastronomia, artes plásticas, literatura…

Vós – Você não gosta de se demorar muito em nenhuma atividade…

Jackson – Não… Sou hiperativo desde criança e tenho um senso crítico muito apurado comigo mesmo. Na hora que entendo que cumpri o meu papel, parto pro seguinte. Mas não é jogar nada fora, porque tudo é uma mesma coisa, só que empacotados de uma maneira nova, pois é isso o que me move e o que me levou a fazer o que eu faço hoje, que é estudar comportamento e entender quem são esses jovens que estão fazendo o Brasil mudar. É o que me interessa. E fiz um projeto que começou com essa minha empresa que fala exatamente disso, o Retrato Brasília. Ele foi feito junto a uma parceira de trabalho minha, a Luca Predabon. Esse trabalho é um retrato da juventude de Brasília que estava transformando a cidade, de 2014 pra 2015, em um novo lugar.

Vós – E como você descobriu isso?

Jackson – É de mim. Eu vou observando as coisas e vou anotando, anotando, anotando… Tem uma hora que as coisas se formatam. Passei oito anos fazendo um trabalho pra um shopping em Brasília e observando essa mudança na cidade. Então, chegou um momento em que o CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) chegou pra mim junto com o Correio Braziliense dizendo que queria fazer um projeto de relevância para a cidade. Essa foi a primeira vez que eu concretizei esse pensamento de estudar comportamento jovem, com a pesquisa atitudinal, etnográfica, qualitativa, junto a instituto de pesquisa. Foi um trabalho sério, de fazer imersão, de ter essa posição do cartógrafo, de ser neutro, de não vir com pré-respostas ou de ideias preconcebidas sobre o que está acontecendo. E isso foi um aprendizado pra mim, foi um corte na minha vida para aprender a chegar nos lugares e me manter invisível, fazendo com que aquelas pessoas que eu estava estudando e observando se entendessem como um movimento. Uma geração estava fazendo um monte de coisa sobre a cidade e não se percebia como movimento. E era um movimento muito pulsante na capital do país! Era único, porque Brasília é única, é uma cidade que foi inventada e povoada basicamente por funcionários públicos, justamente o que essa geração não quer mais ser. No final, a gente lançou esse livro que conta quem eles são, por eles mesmos. E foi ali que eu desenhei essa tendência comportamental que eu chamo de “jiu-jitsu cultural”, que é se ver diante de uma dificuldade e criar um golpe, uma estratégia de defesa pra se transformar em outra coisa, que é o que essa juventude estava fazendo…

Vós – Na sua carreira, você passou de crítico para consultor. Como é deixar de ser a pessoa que analisa para a que é analisada?

Jackson – Eu nunca tinha pensado sobre essa perspectiva… Mas acho que faz parte de uma construção do desapego. Quando você tem muita opinião sobre as outras coisas, você aprende que é muito mais importante deixar as outras pessoas terem opinião sobre você. Ouvir o outro e não dizer que o mais legal é o que você fala. O grande segredo da comunicação é escutar o outro. Acho que o trabalho da consultoria veio disso. E acabei descobrindo que eu não queria mais o do it yourself. Eu quero fazer com os outros e para os outros. Não acredito em mais nenhum tipo de projeto que não seja desse jeito.

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

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Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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