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Quem me salvou foi a Arte

Com Karla Karenina Por Lya Cardoso, Igor de Melo
01.ago
2018

Ela respira arte. Atriz, dançarina, poetisa e terapeuta. As mil e uma faces de Karla Karenina – a eterna Meirinha. Cearense, suas raízes sempre foram em Fortaleza, apesar de algumas temporadas fora. Sorriso e voz únicos são conhecidos e reconhecidos de longe.

Sempre foi a mais “amostrada” da família. Apesar disso, diz que sofreu bastante durante a infância. Aos 9 anos fez mudança para o Rio de Janeiro e iniciou uma fase bem triste da sua vida encarando a xenofobia, uma dor só superada com o tempo e com uma arte que ela seguiria por anos. O piano teria papel especial na força para encarar todas as dificuldades e seguir com seu desejo de viver como artista. Já aos 7 anos sua carreira começava a deslanchar. Das apresentações na sala da casa da família aos grandes palcos da vida.

O roteiro parece ter sido traçado já no batismo. Karla credita uma carga forte de influência em sua vida ao próprio nome, uma homenagem a Anna Karenina de Tólstoi, protagonista de um dos grandes clássicos da literatura mundial. Ela garante que há traços comuns entre a Karenina russa e a Karenina cearense.

Entrevista

Vós: Você começou muito cedo, mas relata dificuldades. Como foi sua infância?

Karla Karenina: Sempre tive dificuldade de ficar na escola, desde pequenininha a minha avó tinha que ir comigo e ficar lá até acabar a aula – ela ficava do lado de fora da minha sala, na janela, fazendo crochê, lembro disso demais. Uma vez olhei e ela não tava lá, então eu fugi a pé de volta pra casa, o colégio era perto. Eu devia ter uns 3 anos de idade, sempre fui uma criança insegura, esse medo de ficar sozinha na escola e tudo mais. Quando comecei a alfabetização fui para um colégio de freira. Eu usava umas botas de ferro porque tinha problema nas pernas, aí chutava e puxava o véu das freiras, elas ficavam enlouquecidas. Eu tinha crises de choros horríveis, tinha pavor. Quando fui para o Rio, na 3ª série primária, as coisas pioraram.

Vós: Você sofreu também com preconceito?

Karla Karenina: Imagine aí, em uma idade complicada, falando de forma diferente, com sotaque cearense, isso há uns 40 anos? Até hoje é assim, né? Naquela época era muito pior, mais forte. Foi um período de minha infância muito complicado, quem me salvou foi a arte.

Vós: O que fez para superar tudo isso?

Karla Karenina: Eu nunca fiz teatro, a primeira escola dramática que eu fiz foi a dança, ela foi me mudando. Apesar de todas essas dificuldades vividas na infância, sempre fui a “amostrada” da família. No colégio eu já dançava, mas era uma coisa bem informal, fui aprendendo sozinha e aos 12 entrei no balé.

Vós: Como foi essa entrada?

Karla Karenina: Eu não comecei no balé porque eu quis, nem pela minha mãe. O médico dizia para me deixar sem as botas, falava que maltratava minhas pernas e que tinha que colocar em alguma atividade esportiva. Eu tinha a opção do balé e da natação. Sempre tive uma ligação muito forte com o piano, meu pai ia dormir após o almoço e pedia para eu colocar música. Os seus discos eram Beethoven, Chopin, Bach, nomes que sempre foram muito íntimos meus. Eu escolhia pra ele – era a discotecária – e ficava dançando em frente à televisão. Foi passando o tempo e certo dia eu encontrei um piano na hora do recreio atrás do auditório, ele tava meio abandonado, mas, mesmo assim, resolvi tocar. Não sabia de nada, aprendi só de ouvido com os clássicos que eu ouvia do meu pai.

Vós: A paixão pelo piano deslanchou a partir daí?

Karla Karenina: Sim! Eu, sempre muito danada, estava voltando do colégio indo para casa da minha vó, aí vi na rua uma placa escrito “Ensina-se piano” Entrei lá e me matriculei, isso com uns 7 anos de idade. Quando minha mãe soube que eu tinha me matriculado foi lá na mesma hora e me desmatriculou. Ela ficava dizendo que eu não tinha condição de estudar piano, que era muito caro, que levava muitos anos pra pessoa se formar e que a gente não tinha condições de ter um piano em nossa casa. Essa foi minha história com o piano. Aí, voltando a situação do médico que pediu para tirar minhas botas, nem pensei duas vezes e resolvi escolher o balé.

Vós: Então o balé foi mais uma estratégia pra você ficar perto do que você ama?

Karla Karenina: Sim! Eu disse “Mãe, por favor, o balé!” Era uma forma de ficar perto do piano, né? Foi aí que eu me realizei, a baixinha danada virou a solista, que ia a festivais de danças em grandes teatros.

Vós: Sua carreira começou aí?

Karla Karenina: Eu acho que sim, tudo o que me aconteceu foi me construindo. É difícil para um artista dizer como começou, mas profissionalmente, valendo, eu comecei no meu primeiro trabalho com DRT (registro profissional), que foi a Escolinha do Professor Raimundo, com a Meirinha. Para chegar até lá fui brincando com a voz. Um ano muito decisivo para mim foi no 2º científico, eu fazia tudo ao mesmo tempo. A Meirinha surgiu de uma brincadeira de imitar vozes, de criar. Quando ela tava no auge de shows, me convidaram para fazer o programa Meirinha 13 horas, aí que realmente começou minha carreira profissional, mas ainda sem DRT. Depois daí, fui para a Escolinha, onde fiz a emblemática personagem Meirinha.

Vós: A Meirinha foi um divisor de águas…

Karla Karenina: Com certeza, ela me abriu muitas portas. Depois dessa personagem eu comecei a fazer muitas novelas. E é muito interessante porque eu pude algumas vezes sair do mundo do humor para entrar na dramaturgia. Quando tive a primeira oportunidade de encarar um drama, a personagem perdia o filho no parto. Foi uma experiência incrível, contracenei com grandes autores. Foi uma sensação muito boa, vivi os dois momentos com muita intensidade.

Vós: E você tem preferência por um dos dois estilos?

Karla Karenina: Não. Tudo tem sua hora e seu tempo. Com a minha última personagem (a Dita, na novela A Força do Querer, da Rede Globo) foi uma explosão e a coisa mais gratificante foi ser indicada a um grande prêmio. Eu não ganhei, mas só a indicação já foi algo maravilhoso. O bom é que não era para ser uma grande personagem, mas teve um relacionamento tão grande com o público que marcou a minha história.

Vós: Você também se aventurou no teatro?

Karla Karenina: As peças sempre fizeram parte de mim. Eu fiz um espetáculo (Vontade) em 2002, que eu juntei todos as minhas facetas: dança, teatro, música, poesia, comédia e drama. Foi uma coisa que me realizou em outros dois shows, um só de comédia e outro de música, poesia e humor. Essa coisa da poesia sempre foi muito forte em mim, me levou até para a Academia Cearense de Literatura e Jornalismo. Foi muito importante porque foi através da minha poesia que me chamaram para integrar essa renomada academia.

Vós: E o seu outro papel – esse da vida real – como terapeuta, como começou?

Karla Karenina: A arte me levou à terapia. Eu comecei fazendo pedagogia, não concluí o curso, mas fiz uma formação técnica em arte, educação e arteterapia. Aí eu fui trabalhar no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) em Fortaleza. Lá eu tive contato com uma amiga que trabalhava com regressão de memória, e eu fiquei encantada. Na verdade, já conhecia o autor de alguns livros sobre o assunto, fiquei apaixonada. Eu fiz a formação e trabalho com isso já há nove anos em Fortaleza e, às vezes, no Rio de Janeiro.

Vós: Você passa mais tempo em qual cidade?

Karla Karenina: Meu porto seguro sempre foi Fortaleza. A única época que fiquei morando no Rio foi quando estava fazendo a Meirinha e durante minha primeira novela. Nas outras eu sempre fiquei indo e voltando, até quando eu fiz essa última novela, que exigia mais tempo.

Vós: E a origem do seu nome…

Karla Karenina: Meu nome foi em homenagem ao romance russo, Anna Karenina. Dizem que os nomes têm uma carga muito forte na vida das pessoas, na influência da personalidade. Ela foi uma pessoa que quebrou paradigmas, foi atrás de viver um grande amor, rompeu com questões familiares. E é assim que eu vivo, sempre em busca de romper paradigmas e em busca de novos ares.

Colaboradores

Lya Cardoso

Lya Cardoso

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Organizar um evento é com ela, seja um aniversário ou um karaokê em sua casa. Acredita que a comunicação é a chave pra resolver vários problemas. Todo lugar tem uma história e merece ser contada. Libriana nata, está sempre em busca do equilíbrio.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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