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Histórias

Mais que um jogo quando elas jogam

Por Marcela Benevides, Igor de Melo
19.jun
2019

Quando o som do berimbau se junta ao som das palmas e uma voz forte começa a cantar, é indiscutível: uma roda de capoeira vai começar. Homens, mulheres e crianças se posicionam; vestidos com calças brancas, pés descalços e munidos de ginga, eles começam a jogar.

 

Olha, pega a beriba e começa a tocar

Pandeiro, atabaque não pode faltar

No jogo ligeiro que lá na Bahia

Aprendi a jogar

Meia-lua, rasteira, martelo e pisão

Solta a mandinga conforme a razão

Na reza cantada pede proteção

 

 

Esporte, expressão cultural, dança e música. Alguns desses nomes podem tentar definir o que é a capoeira. Mas, ali no Benfica, mais precisamente na rua Padre Francisco Pinto, número 397, um grupo carrega outros significados para essa arte.

As mulheres da Associação Zumbi Capoeira (AZC) decidiram ir além do jogo e, guiadas pela Mestra Carla, iniciaram um coletivo com a ideia de se reunir para tocar, quebrar a timidez e se fortalecer dentro do próprio grupo. “O espaço da capoeira ainda é visto como masculino, existe muito o “não pode porque você é mulher”, e ter um grupo onde se possa errar porque ninguém vai julgar e aprender para que pudéssemos nos fortalecer como capoeiristas e tivéssemos força e garra para estar numa roda era algo que eu via como necessário.”

Baianinha, Camila, Dgata, Daniela, Luana, Lindete e Samara, são algumas dessas mulheres que, ao lado da Mestra Carla, conduzem o grupo. Cada uma delas tem sua história de amor e escolha com a capoeira.

Mestra Carla

Não sabe dizer ao certo quando começou na capoeira, e garante que a falha na memória não é para fazer charme. “Não gravo, eu não me preocupo com data e tempo. Trabalhei na minha cabeça para que isso não seja algo de busca pessoal, se é muito ou pouco tempo eu não lembro. Eu deletei para eu não ficar nessa cobrança de existência. Estou aqui porque eu tenho que estar, porque eu escolhi estar aqui e esse tempo pra mim é outro tempo.”

A Mestra sempre fez o que queria e corria atrás de fazer o que acreditava que era capaz, e aos poucos foi quebrando qualquer barreira, despercebida, dentro do esporte. “Na minha época não se discutia machismo, talvez tivesse alguma coisa, mas a gente não percebia porque não se falava sobre. Acho que a minha postura de fazer o que queria me ajudou a caminhar nesse universo da capoeira.”

Se conseguisse definir a capoeira em uma palavra ela diria: tudo. Porque foi ali que ela construiu a família e é onde passou – como ainda passa -, boa parte da vida. “Quando eu entendi a importância e o poder que a capoeira tinha de fazer esse lado social eu não quis outra coisa, porque tudo que você pensa, você pensa em torno da capoeira. É como o Mestre Lula, meu marido, sempre diz: ‘a capoeira me deu tudo na vida.'”

 

Baianinha  

Samara, ou Baianinha, como é mais conhecida, é educadora. Para ela, a capoeira pode ser definida em duas palavras: lazer e trabalho. “Lazer porque deixo de ir a uma festa, a um aniversário, para estar aqui. E trabalho porque dou aulas de capoeira. Ela é um trabalho de lazer.”

A capoeira é um jogo de perguntas e respostas. “Você ataca e o outro defende”. Ela lembra que em uma dessas rodas, enquanto jogava com o marido, Mestre Jackson, ela deu um golpe que “deu a entender que eu tinha batido nele”, e em seguida quem estava na bateria começou a cantar a seguinte música:  

 

se essa mulher fosse minha, eu tirava ela da roda já já

dava uma surra nela até ela gritar que chega

“Me ofendeu bastante, e eu parei o jogo e acabei com a roda. Eu disse que não era assim. Se no passado esse tipo de música era comum, hoje já não era mais porque a capoeira evoluiu. Depois a pessoa que fez isso me pediu desculpas e explicou que na hora ele não havia entendido. Mas hoje ele é um multiplicador do “não vamos cantar essa música nos jogos de capoeira.”

Baianinha explica que, apesar disso, e de ter dificuldades em manter meninas dentro do esporte porque os pais ainda acham que é um “esporte de menino”, é na hora do jogo que ela mostra que qualquer pessoa pode estar na capoeira. “Eu sou capoeirista porque eu tenho amor, acredito na transformação, e sou uma multiplicadora dessa arte.”  

Camila

Diferente da maioria, Camila chegou na capoeira mais tarde, com vinte e poucos anos. Sempre teve vontade e a musicalidade da arte a encantava. Depois que se permitiu fazer algumas aulas sentiu que poderia contribuir com a capoeira para além da “pernada pela pernada.”

“A mestra me falou das inquietações, que percebia que muitas mulheres não sabiam da importância delas e não entendiam o que era o feminismo e, aos poucos, com as conversas, fomos desconstruindo isso e eu pude dar um pouco mais de mim para a capoeira. Aos poucos vamos fortalecendo nosso pensamento, a questão de reconhecer o espaço que ocupamos e o que podemos fazer por aquele meio.”

Camila reflete que para além do esporte, na AZC, existe o ensinamento da disciplina, da humildade, do acolhimento e de não nutrir preconceitos. “Os mestres da casa têm esses braços abertos e por isso a AZC trabalha dessa forma, porque eles se importam com quem está aqui dentro. Porque não é só jogo, ou bater um berimbau, é sentar aqui e ouvir o que o mestre tem a dizer sobre o cotidiano, se importar com o que acontece com o outro, é ser humano, uma pessoa humana. Acho que é isso que agrega todos esses ensinamentos.”

Ela acredita que tinha que estar na capoeira de alguma forma. Não sabe se pelo vínculo com os mestres ou se pela paixão pela musicalidade. “A capoeira me faz sentir parte de algo, como cultura, parte social e como ensinamento de vida.”

 

Samara

Foi na capoeira que Samara descobriu a sua profissão. Ela é educadora física e trabalha com educação infantil e inclusiva. Há 10 anos tem uma relação de idas e vindas com o esporte. “Apesar da correria do dia a dia, eu não deixo a capoeira, ou melhor, ela não me deixa.”

Depois que entendeu com o que queria trabalhar, começou a desenvolver trabalhos que contribuíssem socialmente. “A capoeira é movimento, brincadeira, dança, musicalidade, é arte”. Foi na capoeira que ela teve a oportunidade de se perceber como pessoa dentro da sociedade, e por isso se direcionou para esse lado social.

“Comecei a desenvolver um trabalho com crianças autistas dentro da capoeira, levamos essa vivência da capoeira e podemos perceber, enquanto grupo, que essas crianças têm inúmeras habilidades, e percebemos que era possível incluí-las  no esporte.”

Samara está grávida de um menino e sabe que quer passar essa cultura para o filho. “Ele já vai nascer dentro da capoeira para que possa ser um replicador do que aprendemos aqui dentro. A  capoeira é base, é uma relação de amor que eu vou levar para o resto da vida.”

 

Dgata

Daniela – mas pode chamar de Dgata – começou na capoeira em um grupo onde quase todos os membros eram homens. Ela conta que o pai não gostava por ter preconceito com o esporte e que na hora dos treinos ela se dedicava mais para mostrar que tinha capacidade de ir além. “E fui. Me tornei a primeira da linha, ia para as apresentações. Acho que o machismo vem, mas é a forma como você encara que vai dizer o que você pode e o que não pode. Quando ele vinha, eu via isso como uma forma de me fortalecer.”

Hoje, dentro da AZC, e como parte do coletivo de mulheres, ela enxerga o que quer levar com a capoeira: a cooperatividade, porque no grupo, “cooperamos uns com os outros”. Ela explica que desde que as mulheres começaram a se reunir, a relação com o marido mudou e os dois, juntos, passaram a entender o que era saudável ou não dentro de uma relação.

“Começamos a entender o que é o machismo, porque era algo “normal”, já que é uma questão de cultura. A frase que mais repercute é ‘será que eu estou sendo machista?’, então foi um trabalho em conjunto. Como fui aprendendo, ele também foi. Não foi algo como ‘bater de frente’, isso pode acontecer lá fora, mas aqui dentro foi espontâneo.”

Para Dgata, a capoeira é base. É o lugar onde ela encontra amor, família e disciplina. “Ela é minha base, porque minha família está aqui.”

Lindete e Luana

Mãe e filha estão juntas na capoeira. Luana é a mais nova do grupo, mas em poucas palavras considera a capoeira como um ponto de referência e onde ela se sente acolhida. Lindete enxerga o esporte como uma base e foi onde encontrou forças para continuar vivendo.

“Durante muito tempo convivi com uma pessoa que me prendeu muito, sofri violências psicológicas, físicas, e quando eu cheguei aqui eu fui amparada e encontrei forças”. Foi com a capoeira que Lindete passou a se fortalecer como mulher, mãe e lutadora. Ela espera passar para as pessoas, principalmente para as mulheres, o que tem aprendido no esporte e com o grupo.

“Com a minha experiência quero alertar as mulheres que sofrem agressões que elas não precisam viver debaixo da asa de um homem, que elas podem conquistar seu lugar, que você pode fazer o esporte que você gosta.”

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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