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[Opinião] - Mãos livres para coisas novas

Por Adnilson Pinheiro
16.abr
2018

A Rocha e o Precipício

Ao longo da minha carreira tive a chance de participar da abertura de diversos projetos. Abri o curso de Gastronomia na universidade, abri de casas sofisticadas às mais simples, abri um próprio negócio e abri essa coluna. Foram experiências assustadoras e excitantes, que me deram felicidade e dores de estômago, cada uma à sua maneira.

Ao abrir uma casa ou um projeto, seu maior desejo, claro, é que dê tudo certo. Quando abri meu negócio de comida de rua, era o desejo de sucesso que me guiava através das enormes horas de trabalho duro e me dava força pra limpar tudo às onze da noite, sem saber se era pior dormir mais tarde com tudo organizado ou acordar mais cedo pra fazer faxina.

Mas nem sempre dá certo.

Meu negócio fechou com alguns meses de vida, e depois disso participei do encerramento de um outro projeto, ainda neste ano. Eram projetos que, depois de um tempo e apesar dos esforços, só se sustentavam pelo amor bruto e incondicional de quem não quer dar o braço a torcer, de quem comprou a ideia e a briga.

Fazemos isso, os sonhadores. Você e eu. Fazemos isso com trabalhos, com planos, com amizades, com amores e com nossas séries favoritas. Presos à imagem do que já foi, prolongamos o sofrimento na tentativa inútil de congelar o tempo, e deixamos de ver as possibilidades que se apresentam.

Existe, em todo encerramento, grande aprendizado. Na morte aprendemos que a vida é curta e que é melhor tentarmos dar algum sentido ao nosso tempo aqui. No fim de um amor, aprendemos que abrir o coração pode doer, mas nem por isso deixa de valer a pena. E é só depois do carnaval que aprendemos que não, os 30 não são os novos 20, como andam dizendo.

É preciso, então, aprender a deixar que as coisas sigam seu curso. Conservar as memórias e os aprendizados como quem guarda uma fotografia, como um gatilho de uma lembrança feliz, a fagulha de uma luz cálida e familiar. Porque só de mãos livres podemos agarrar coisas novas. Só de braços leves podemos abraçar.

Quando fazia a última faxina na cozinha do restaurante que fechei, vi nos olhos dos sócios a mistura confusa de tristeza e alívio, como aquela que acompanha as pessoas sobre quem pesa um luto por um ente amado que sofria há tempos. Existia a dor da derrota, de ter que bater em retirada e escolher viver para lutar outro dia. Mas havia também, na mesma medida, uma celebração. A aceitação de que não entendemos totalmente os rumos da vida até que já se tenha passado muito tempo e de que, por isso mesmo, nos resta só combater com as armas que temos hoje.

Talvez por isso, por entender que a vida é dinâmica e que o novo sempre vem, é que os autores sagrados sempre representaram o Espírito como vento e fogo: forças poderosas e ancestrais, mas que logo se apagam quando enclausurados.

É fácil, e até automático, procurarmos sempre a estabilidade de uma boa rocha. Mas talvez seja do limite brusco do precipício — o fim repentino da rocha — que se tenha a vista mais bonita.

 

Foto de capa: Kaique Andrades

Colaboradores

Adnilson Pinheiro

Adnilson Pinheiro

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Escritor, cozinheiro, programador, criativo. Escreve também em médium.com/@EditorChef.

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