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Histórias

A Maré Vida: onde o impossível se torna possível

Com Luiz Gustavo Por Marcela Benevides, Igor de Melo
25.out
2018

A conversa é tranquila, mas firme. Com a certeza de quem tem propriedade para falar sobre um assunto. Ele é fortalezense, criado na brisa do mar, mais precisamente nas ondas da Praia do Futuro. O esporte sempre foi a base da sua criação, tanto que ele e o irmão se tornaram atletas profissionais de bodyboard. A verdade é que dificilmente seria diferente, já que no final da década de 1980 a diversão de quem morava pela redondeza da Praia era surfar ou descer as dunas com carretilha.

Luiz Gustavo viajou pelo Brasil e fez muitos amigos. Depois de anos competindo como atleta profissional de bodyboard, decidiu se fixar na terra natal e estudar educação física para ajudar o próximo. E é com essa vontade, que não consegue explicar, de olhar para o outro com mais amor e fazer algo que possa melhorar a sua realidade, Gustavo mantém o projeto A Maré Vida.

A iniciativa surgiu em 1995, quando tentava ajudar um amigo a pegar onda. “Nessa brincadeira de ir e vir à praia conhecemos esse nosso parceiro que é paraplégico. Ele sempre nos acompanhava, assistia aos nossos treinos, ficava nos vendo surfar até que surgiu a dúvida se ele conseguiria pegar onda. Ele era um cara pesado, era difícil transportá-lo, mas gostava de superar as barreiras e foi… Ele pegou muito rápido, parecia que vinha do esporte e com o passar das vivências o cara se tornou um monstro na água”.

Desde então, sempre apareceu o “amigo de um amigo” com alguma deficiência que perguntava a Gustavo se não dava para fazer a pessoa pegar uma onda. “E naquela brincadeira de jogar a pessoa na água, fazer com que ela tivesse a primeira experiência com o mar, as coisas foram criando formato”.

Aos poucos Gustavo foi se aprofundando mais na proposta de ajudar pessoas por meio do surf. Até que foi chamado para dar aula em uma escolinha e “sempre havia alguém que tinha um familiar ou amigo com alguma limitação” e instigado, o atleta sugeria tentar fazer com que essa pessoa também tivesse contato com o mar. “Sempre existiu a resistência. Até que teve alguém que se interessou e eu fui dando continuidade ao trabalho. Após alguns anos, surgiu o interesse de cursar educação física, porque achei que conhecer o corpo fisiológica e anatomicamente agregaria ao meu trabalho”.

E assim, despretensiosamente, o projeto foi tomando forma. Até que em 2016, duas amigas o chamaram para fundar uma associação para ajudar crianças carentes. “Eu falei para elas que já existem muitos projetos assim pela Praia do Futuro, e são muito importantes, mas o meu desejo era fazer algo voltado para o público deficiente, com o qual eu já havia trabalhado. Mostrei a proposta e elas ficaram loucas e decidimos começar”.

Apesar de saber exatamente o que está fazendo, Gustavo pontua que a resistência das famílias é o principal obstáculo para que mais pessoas entrem no projeto. “Convencer as famílias a tirar esse familiar com deficiência de dentro de casa, daquelas quatro paredes e mostrar que ele é capaz, que ele pode se transformar e transformar alguém, ainda é a minha maior dificuldade, mesmo depois de muitos anos”.

O convencimento, de acordo com ele, é feito ao mostrar quem participa do projeto. “Atendo pessoas com paralisia cerebral, tetraplégico, pessoas sem algum membro, com síndrome de down, autistas e por aí vai. E são elas quem me ajudam ao mostrar que outra pessoas com deficiência também são capazes. Aqui o impossível se torna possível”.

Além da dificuldade de convencer as famílias, existem também problemas em conseguir pessoas capacitadas para ajudar nos atendimentos. “Como não temos nenhum benefício, é voluntário, às vezes se torna difícil estar ali. Mas eu sozinho consigo atender até duas pessoas por hora e por isso atendo por agendamento. Já fizemos algumas parcerias com faculdades e estudantes de educação física já vieram ajudar nos atendimentos, mas não é com frequência, mas eu sei que um dia isso vai ser”.

Mesmo com as barreiras, Gustavo encontra motivação para continuar nos detalhes. Não sabe ao certo se tenta convencer as pessoas que elas são capazes de ultrapassar os obstáculos ou se quer mostrar a si próprio que tem força para dar continuidade. “Mas não deixo de ter o propósito de me transformar e transformar a vida de alguém, tanto das pessoas que entram para o esporte como as que estão ao redor delas”.

A transformação vem nas sutilezas. São os relatos de quem não precisa mais tomar remédios tarja preta; os sorrisos de quem há muito não sorria; é quem deixou de ficar trancado em casa para conhecer o mundo e hoje vão à praia, aos shoppings, à praças etc. E essas pequenas grandes barreiras superadas, são para Gustavo, as maiores histórias do projeto.

“Continuar com A Maré Viva é enxergar a vida de outra forma, é viver cada momento intensamente. Refletir que quando penso que tudo está difícil para mim e olho para o meu amigo do lado, percebo que a minha dificuldade para ele não é nada. Isso dá aquela força para querer vencer e construir algo novo a cada dia e não cair na mesmice. É sempre poder dar um passa à frente”.

Para o futuro, Gustavo anseia expandir o projeto. Alcançar mais pessoas para ajudar e, consequentemente, expandir o número de atendimentos. Espera que a cidade se torne mais acessível para que as pessoas com deficiências “possam ser mais reconhecidas”. “Já passou da hora de ter iniciativas públicas para preparar a cidade e torná-la inclusiva”.

O surf é para todos

Luiz explica que os atendimentos buscam respeitar a individualidade biológica de cada um. “As pessoas chegam com muita curiosidade e procuramos colocar essa pessoa na água o mais rápido possível. Nosso contato parte aqui da escolinha, onde a gente passa a conhecer e saber das limitações. Investigamos um pouco da vida de cada um durante a troca de ideias e depois partimos para a prática. Na areia fazemos um treinamento de mobilidade, que varia de acordo com a limitação”.

Sabendo das dificuldades de cada um, Gustavo procura a “maré mais bacana” e vazia para os primeiros contatos. Ao perceber que o aluno já está familiarizado, ele vai aumentando as dificuldades para estimular os movimentos. “Depois que ele já está adaptado, qualquer maré é maré”.

O tempo de sair da areia e partir para o mar depende de cada um. O atleta pontua que a prática “tem que ser um movimento cauteloso” para não frustrar e nem causar nenhum dano a quem está iniciando. “Mas é aquela coisa, eu não preciso ter cinquenta minutos dentro da água para que a pessoa saia satisfeita. Às vezes o simples fato de dar atenção ou um abraço, já ajuda a resolver a problemática do momento. Precisamos entender isso e ter empatia com o próximo para poder inseri-lo na prática proposta”.

Para Gustavo o esporte inclusivo transforma pensamentos, o corpo, a família e a vida de quem pratica e de quem está ao redor. “Às vezes a gente passa com um dos alunos nos braços e as pessoas ficam olhando. Quando voltamos, eles nos param para dizer que ganharam o dia. Então a gente tá ali ajudando aquela pessoa e eu não sei se ajudo para me ajudar ou me ajudo para ajudar, não sei qual a forma correta, mas vidas são impactadas. É um negócio grandioso, não sei mensurar quantas pessoas estamos impactando, é impossível saber. Só sei que a vida vai seguindo”.

Os atendimentos são realizados por agendamento todas as terças e quintas-feira. Qualquer pessoa que se sinta limitada pode participar. Gustavo faz questão de deixar claro que o surf é para todos.

Serviço

A Maré Vida

Projeto de surf adaptado na PF Surf School (Praia do Futuro, Fortaleza-CE)

Telefone: (85) 988378608

Instagram: @amarevida

 

FOTOS*: Luiz Gustavo

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

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Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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