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Foi um clique: ele decidiu melhorar o próprio país

Com Luis Salvatore Por Leilane Freitas, Igor de Melo
28.nov
2018

Como mensurar o potencial transformador e todo o processo artístico que envolve a fotografia? Seu alcance vai muito além de escolher uma melhor pose e clicar em um botão. A arte de fotografar eterniza momentos, revela realidades pouco conhecidas, apresenta lugares inexplorados… Em tudo dependentes do olhar do observador, de quem está por trás da lente.

Durante a faculdade de Direito, Luis Salvatore decide sair em uma expedição pelo país com o objetivo de conhecer o Brasil além dos grandes centros sociais e documentar as diversas realidades do nosso povo. “Ainda na época do colégio eu me inquietava em conhecer pouco do Brasil. É claro que a gente estuda sobre o mundo, países, história mundial e até nacional, mas, efetivamente, eu percebia que dentro da escola a gente falava pouco da nossa própria história.”

Luis nasceu em São Paulo, cursou Direito e, desde muito cedo, teve contato com a fotografia graças ao avô Eduardo Salvatore, um fotógrafo modernista renomado no país. A ideia da expedição era satisfazer suas inquietações pessoais, mas também trazer os conhecimentos adquiridos para o ambiente acadêmico.

E assim o fez junto do departamento de comunicação da faculdade. “Esse projeto era chamado Trilha Brasil, e com ele começo a realizar pequenas viagens construindo um material fotográfico muito diferente dos padrões. Dou início por povos indígenas e aí começo a entender que isso poderia virar um sonho maior de fazer uma grande jornada pelo Brasil.”

Despertado seu olhar diferenciado para a realidade do país, ao fim do projeto ele se vê com duas opções: comercializar o trabalho ou trabalhar em prol das pessoas que conheceu durante sua pesquisa. “Obviamente eu escolhi o caminho mais difícil.”

O fotógrafo e advogado decidiu então somar as experiências que adquiriu ao longo da vida com o avô, os pais e a faculdade para criar um projeto que pudesse modificar realidades: em 2001 nasce o Instituto Brasil Solidário, que desde 2016 tem sua sede no Ceará.

“A partir da expedição nós desenvolvemos um método educacional através de ações interdisciplinares nas escolas. Gradativamente começamos com incentivo a leitura, mas percebemos que não é só isso que é deficitário no Brasil. Também tem questões ambientais e de acessos à saúde. Então ano a ano vamos incorporando ações sempre levando em consideração o currículo escolar e pensando em desenvolver uma escola dos sonhos.”

As viagens pelo Brasil, conhecendo as riquezas e os problemas que assolam grande parte do nosso país, despertou um olhar mais humano em Luis Salvatore. Isso, como ele mesmo diz, transformou sua vida e há 20 anos ele trabalha para construir novas possibilidades pelo país à frente do Instituto Brasil Solidário.

Entrevista

Vos – Onde o Instituto Brasil Solidário deu início às suas ações?

Luis – Nós começamos com as ações ainda em São Paulo, com formação de bibliotecas e distribuição de material escolar. Na época da expedição eu não conclui o trabalho inteiro, realizei uma parte dele. Porque você imagina, falar que vai conhecer todo o Brasil é muito difícil. Então eu realizei uma divisão, onde eu pesquisei o nordeste e o centro-oeste; originalmente o projeto ainda teria a Amazônia e a região sul.
Vós – E quando a relação com o nordeste se intensifica? Hoje até a sede central é aqui…

Luis – O projeto é tão intenso e tão grande que depois toda a parte social acaba vindo para o nordeste. E as amarrações que a gente faz com patrocinadores do projeto acabam sempre nos trazendo para essas regiões. Ficamos muito especializados no nordeste. E consegui culturalmente ajustar toda essa relação que hoje a gente chama de um formato intersetorial.

Vós – Por que escolheram o Ceará como atual sede do IBS?

Luis – Nesses 20 anos a gente já atuou em todas as regiões do país, não em todos os estados, mas na maior parte deles. Em 2016 mudamos para o Ceará, não apenas para focar em ações no estado, mas também pensando no nosso histórico que é muito grande no nordeste e imaginamos a capital, Fortaleza, como um Hub social. É uma cidade onde temos acesso a outros estados da região e é mais fácil trazer pessoas para receberem novas formações para ampliação do Instituto.

Vós – Como o IBS atua?

Luis – Nós pensamos em como fazer com que a escola seja um ambiente propício para educação no melhor sentido que a gente possa dizer. Uma educação contextualizada e alegre, que atenda as bases do currículo e as diretrizes nacionais de educação, porém com ações interdisciplinares. Então trabalhamos a leitura, educação ambiental, uso de tecnologias, prevenção da saúde, arte, cultura, educação financeira, tudo isso integrando as disciplinas comuns. Atendemos crianças e adolescentes fazendo ações em suas escolas. Temos um corpo administrativo e um corpo docente de educadores que fazem parte da história do Instituto. Então, em uma formação nossa, a gente junta pessoas que vêm de vários pontos do Brasil e muitos que foram beneficiários. Isso faz uma diferença muito grande na hora da prática porque o aluno se identifica muito com a história daquele professor ou do monitor que está ali fazendo o trabalho. Com isso a gente consegue fazer uma ação em rede, sempre trabalhando a questão do município como um todo. Temos seminários que envolvem até quatro municípios inteiros e aí a gente parte para uma ação efetiva em algumas escolas, dependendo do modelo e do financiamento. Depois essas escolas vão servir de base ou de inspiração para que o poder público se aproprie desse método e copie para as demais escolas municipais. É uma estratégia nossa trabalhar com escolas do Fundamental 1 e 2 para que o aluno chegue no ensino médio com aptidões e habilidades sociocognitivas.

Vós – Por que você escolheu trabalhar em benefício dessas comunidades?

Luis – Porque eu me deparei com um sentimento meio que de egoísmo da minha parte. Por ter feito imagens riquíssimas do Brasil, das pessoas, e depois eu chegar e somente comercializar isso para grandes revistas. Eu comecei a achar que isso não fazia sentido, eu ter feito imagens lindas de um país com diversos problemas e aquilo ser projetado apenas para mim. Enxerguei que poderia usar as fotos para sensibilizar pessoas, porque era um trabalho humano principalmente focado em convivência. Nunca cheguei numa comunidade simplesmente fotografando. Primeiro eu entendia, conversava, dormia, comia e as imagens iam naturalmente acontecendo. Fui me deparando com situações de dificuldades nesse grande Brasil e percebi que meu verdadeiro dever não era só mostrar, mas também pegar minhas habilidades na área administrativa e transformar isso de um projeto de descobrimento sociocultural em um projeto de desenvolvimento educacional e territorial.

Vós – Algumas pessoas que vivenciaram a atuação do IBS acabam voltando para trabalhar com você. Como você se sente observando as mudanças que as ações do IBS proporciona na vida de tanta gente?

Luis – Muitos projetos sociais proporcionam um tipo de ação que é um pouco mais assistencial, não todos, mas muitos. Onde você naturalmente promove um bem naquele momento, recebe algo interessante de retorno rápido, mas você gradativamente não acompanha a vida dessas pessoas. Nós criamos um projeto que talvez a grande ou a maior dificuldade dele é que ele cria relacionamento com os alunos, com gestor público, com as famílias, com a comunidade. Então nós temos uma relação de extrema confiança com as pessoas. Nós temos histórias que são acompanhadas há 10/ 15 anos e é muito gratificante. Você ouvir histórias de pessoas que hoje são adultos, com suas famílias que passaram por algum tipo de oficina oferecida pelo IBS e que hoje estão no mercado de trabalho, ou que estão realizando seus sonhos pessoais, é muito satisfatório. É uma coisa maravilhosa poder ter esse acompanhamento, e é claro que as tecnologias ajudaram muito para que isso acontecesse. Agora, no caso dos educadores, é incrível porque nós acreditamos de fato que a educação é o caminho para transformar o Brasil. Então nós temos situações de alunos que hoje são professores e temos muitos professores que foram beneficiários e que hoje são multiplicadores do instituto viajando pelo país inteiro para falar das áreas temáticas que a gente atua. E essas pessoas são a prova de um dos nossos slogans: que a educação pode sim mudar o Brasil, porque a gente dá um direcionamento, dá um olhar. Nós conseguimos até financiar bolsas de estudos nacionais e internacionais e essas pessoas têm muita vontade de transformar.

Vós – Como funciona a captação de recursos para execução dos projetos?

Luis – Capto investimentos com iniciativa privada, desenho os projetos com a comunidade e envolvo o poder público no sentido de multiplicação e expansão da metodologia.

Para conhecer e ajudar:

Brasil Solidário

Facebook.com/institutobrasilsolidario

Twitter: @brasilsolidario

 

Colaboradores

Leilane Freitas

Leilane Freitas

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Já se aventurou pelo mundo do teatro e da dança. Escrevia no jornal da escola mas ainda não sabia que escolheria isso como profissão. Acredita no jornalismo como uma maneira de mostrar o lado positivo dos pequenos detalhes da vida. Decidiu escrever porque, aparentemente, falar sozinha não parece ser coisa de gente em sã consciência.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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