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Menino debaixo de chuva

Por Jéssica Welma, Igor de Melo
20.mar
2019

Dia de chuva é dia de conversa boa no Ceará. Começa logo com um: “o céu tá bonito pra chover”. Minha avó materna, que mora em um pé de serra entre Caucaia e Maracanaú, olhava para o horizonte e dizia: “A barra da serra tá azul, é bem capaz de chover”. Ela aprendeu isso com os mais antigos e com o olhar diário para a natureza. Não tinha erro, lá se vinha a chuva.

Lá na Taquara, o tal pé de serra, era bonito ver a chuva chegando, às vezes de Fortaleza, às vezes do Maranguape…

— “Maracanaú já tá todo branco”, alguém dizia, em pé na calçada alta, olhando para o tempo.

Não estranhe, lá da Taquara dá para ver o mundo todo.

— Vó, posso tomar banho na chuva? — Eu corria para perguntar.

— Vai não que tá relampiando, é perigoso! — Ô, vó, mas os meninos já foram!— Eu tentava levar a vantagem dos primos que já viviam no meio da rua.

— Pois vai, menina!

Era bom demais. Corrida de biqueira em biqueira — era assim que chamávamos as bicas d’águas que aparavam as chuvas dos telhados. Bastava esperar caírem as primeiras águas para limpar as calhas, depois era só festa. As melhores ficavam na igreja, bem no meio da praça. Saía um menino, entrava outro. A chuva nas bicas caía com força no chão e se abria quase em flor de água.

— Vamo tomar banho na pedreira! — alguém dizia.

E lá se ia uma ruma de menino subir a serra para tomar banho nas cachoeiras que hoje nem existem mais. Uma obra de armazenamento do Governo do Estado destruiu tudo por lá.

Menino de chuva que se preze só acha o caminho de casa quando a chuva para. E digo mais, depois de botar cacareco para descer na corredeiras de água que se formam nas ruas.

Voltando para casa, alguém soltava: 

— Tu sabe a história do pintinho que se chamava Relão?

— Não.

— Quando chovia, Relão piava.

— Ô besteira! — E todo mundo caía no riso.

Acabava a chuva.

— Agora que vocês voltaram?! Chega tão roxo e engilhado! — dizia minha vó, olhando para os netos com os queixos batendo de frio.

Corria para quarto, trocava de roupa, sentava no sofá pra ver TV e ia comer biscoito com leite. Banho de chuva dá uma fome danada em menino!

Hoje, quando cai desses torós na Capital, eu ando com olhos atentos em busca de meninos e de biqueiras d’água nas ruas. A vontade mesmo é de sair correndo na chuva, de casa em casa, até a praça da igreja, sentindo a água cair com força na cabeça. Tempo bom.

Colaboradores

Jéssica Welma

Jéssica Welma

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Apaixonou-se por escrever quando mandou uma cartinha para o Papai Noel aos 5 anos de idade. Jornalista, vive procurando formas de narrar melhor a história das pessoas. Adora ouvir, especialmente relatos "de interior" (se tiver um bom causo para contar, a procure). Ama literatura, amarelo e ballet.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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