Vós

menu
Perfil

Mileide Flores: uma livreira por essência e militância

Com Mileide Flores Por Luiza Carolina Figueiredo, Igor de Melo
12.abr
2017

Bibliófilos advertem: a leitura causa reações nas pessoas. E ela pode ser desde um tempo aproveitado prazerosamente, quanto descobertas que vão constantemente moldar sua vida conforme você vá adicionando leituras ao seu acervo.

A primeira leitura consistente de Mileide Flores, 61, na época ainda Maria Socorro, a fez escolher a profissão de coração: geóloga. Outras leituras, alguns anos mais tarde, a fizeram descobrir a paixão pela militância em prol da leitura. Nascia uma livreira.

Hoje ela é Coordenadora de Políticas de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas/SECULT-CE e é uma daquelas pessoas em que a frase “minha vida daria um livro” se aplica perfeitamente. Mas ela acha diferente; acredita que não só a sua história, mas as de todas as pessoas dariam livros. Não à toa este é o tema da XII Bienal do Livro de Fortaleza, edição que coordena, é “Cada pessoa, um livro; O mundo, a biblioteca”.

Vós conversou um pouco com a livreira, passeando pelas páginas passadas e tentando dar uma espiada nas que estão por vir. Então, aproveite a leitura!

Entrevista

Vós – Como a leitura foi inserida na sua vida?

Mileide Flores – Eu já era filha e sobrinha de livreiro. A livraria da minha família [Livraria Feira do Livro] teve que fechar em novembro do ano passado, quando ela já completava 60 anos de existência. Sou cearense, de Fortaleza, mas fui criada até os meus oito anos no interior do Maranhão, numa cidade chamada Coroatá. Nessa cidade, não tinha absolutamente nada: não luz, a água ainda era de poço, mas nós tínhamos, nas noites, um areal e uma lua linda em que a gente brincava. O meu contato com a grande cidade era pela minha família de Fortaleza e através da livraria, que tinha a minha idade. Então, o meu irmão, que teve que sair cedo para continuar os estudos e era o homem da casa, sempre levava livros. Meu pai também era um grande leitor – ele tinha sido seminarista -, então a gente sempre teve livro dentro de casa.

Eu começo lendo quadrinhos. Sempre fui apaixonada pela Maga Patalógica, pelos Irmãos Metralha, e eles me fizeram ter aquela curiosidade infantil do mundo lá fora. Mas a minha leitura mesmo começa com Júlio Verne. Nunca fui a leitora de Monteiro Lobato. E eu coloco Júlio Verne como o grande responsável pela minha escolha profissional, de ser geóloga. E por “causa dele”, eu tive que travar lutas internas e em casa, porque meu pai queria que eu fosse administradora, mas o Verne ganhou essa “briga de braço” com Heitor Servadac, que é o livro que tenho até hoje na minha cabeceira; li na minha infância, adolescência e até hoje eu o busco e me encanto com ele. O meu livro preferido ao longo da vida.

Vós – Como a geóloga se tornou livreira?

Mileide – Não foi a geóloga que se transformou livreira… Foi o meu embate interno, como geóloga, com a profissão. Me formei em Geologia, na UFC, em 1980, e queria fazer o meu Mestrado no Rio de Janeiro. E eu sempre fui uma militante política e lutei por direitos. Fui pro Rio, já casada, querendo estudar, e a pessoa que eu queria que fosse o meu orientador chega pra mim e diz que eu não teria bolsa porque era casada e tinha quem me sustentasse. Então essa foi a minha primeira grande revolta, porque eu não conhecia ninguém, não tinha amigos para chorar junto comigo. Passei dois meses chorando e depois levantei a cabeça e disse que não sairia mais atrás da geologia já que a minha segunda opção de vida era ser mãe, e “o mãe” já estava aparecendo. Fiquei grávida, passei 13 anos cuidando da minha casa, dos meus moleques, exercendo a minha segunda função de vida e que eu sempre quis ser. Eu nunca tinha pensado em ser casada, mas sempre quis ser mãe. E, quando tive a oportunidade de ser, abandonei tudo pra ficar dentro de casa e disse que sairia quando o meu filho mais novo completasse dez anos. E foi assim que fiz. Nessa época, nós já tínhamos voltado para Fortaleza e o pai, que estava administrando a livraria disse que estava lá só e perguntou se eu não queria ficar lá com ele, e eu fui.

Quando eu volto, pego a livraria e começo a encontrar as contradições do Ceará, através da livraria. E quais são essas contradições? O Ceará tem alguns ineditismos, como a primeira Academia de Letras do País, a Secretaria de Cultura mais antiga, teve, já no século XIX, grande escritores nossos revelados internacionalmente, tem uma das bibliotecas mais antigas do Brasil. Então, isso começa a me causar certas incomodações de ser livreira num estado do ineditismo com o índice de leitores e de livrarias baixo, e eu começo a ler sobre a história do livro, da leitura, das livrarias do Estado do Ceará e da biblioteca. A livreira se torna livreira não com muito interesse no comércio. E esse é o grande problema do livreiro: se ele for apaixonado pela ação política da leitura, ele esquece um pouco da parte comercial, que igual a qualquer comércio – contas a pagar e a receber, entradas e saídas, prestação de conta com fisco… Mas o livreiro, quando tem o olhar mais crítico, de que ele não tem um produto como outro qualquer, ele se revela muito mais como ente político.

Vós – Foi nesse meio tempo que você se tornou Mileide?

Mileide – A adoção do nome Mileide veio na faculdade. Eu sou de um vestibular pra Geografia. Dois anos depois eu consegui a transferência para Geologia e, na turma, nós éramos seis mulheres e quatro Maria do Socorro. Chamava Maria do Socorro e quatro levantava. Então começaram a colocar apelido. E eu sempre fui muito magra, loura e olhos claros. E na época, além de Geologia, eu fazia a faculdade de Música, tocava piano e, em línguas, estudava francês. Aí começaram a encher meu saco, dizer que aquilo era uma educação britânica, essas coisas. Então saiu o filme do Robin Hood, da década de 1970, e disseram que eu parecia com a personagem Mileide. O que eu não acho! Em um ano, o Mileide tomou conta da minha casa e os meus pais começaram a me chamar de Mileide. E eu sempre digo: o meu nome, Maria do Socorro, foi colocado de forma errada porque, se depois de um anos, o pai troca o nome do próprio filho, é porque ele nunca gostou do nome que ele botou. Então eu assumi o nome Mileide.

Vós – Depos de assumir a livraria, você sempre esteve envolvida em várias atividades, como o Conselho Nacional de Política Cultural, o Plano Nacional do Livro e Leitura, a Vice-Presidente da Associação Nacional de Livrarias, o SindLivros, dentre outros, além de ser mãe. Como você dava conta de tudo isso?

Mileide – Em 2003, eu me inquietei com isso de ser mãe e militante política de alguma coisa. Eu era presidente do SindLivros, e a primeira presidente da base da Fecomercio mulher, fazendo parte da federação. E fui chamada, no dia 8 de março, pra falar sobre “A mulher e sua história de vida”. Entretanto, quando fui chamada pra falar, eu aceitei porque achei que o tema seria “a mulher e o sindicalismo”. Hoje eu já falo de mim, mas antes, há 14 anos, eu tinha uma timidez muito grande, porque sempre fui muito insegura dentro da minha própria caixa. Então escrevi a minha história, que contava justamente isso: como é que eu estava à tarde brigando pela minha categoria e à noite numa festa da federação com dois meninos adolescentes – pois, na época, o pai já era falecido. E dizia que, lá em casa, a gente tem esses espaços, o individual e o coletivo. E neste, nós sempre estamos juntos; não importa se é em casa, ou numa festinha, então a gente meio que dá conta. Claro que se conta também com o apoio da família, no momento em que você está ausente, ela está presente, mas a gente sempre soube se dividir, e eu sempre fui muito de agenda. Eu tinha agenda até para o horário de dizer “agora parei! Eu não sou mais coisa alguma, vou cuidar da minha casa, fazer bolo, cuidar de menino, varrer chão e passar roupa”. E tudo isso eu faço numa harmonia de vida, não me vejo em nenhum momento como se estivesse sendo a pessoa que é serviçal da casa por ter a terceira jornada de trabalho, pois ela sempre foi coletiva, mesmo quando o meu esposo era vivo. Então, dar conta disso, é dar conta da agenda que você traçou pra sua vida, a sua história. E gosto da minha história. Acho que ela é coerente.

Vós – Pra você o que é ser uma livreira? Como era a vida na livraria?

Mileide – Se o país conseguir perceber o quanto que ele ganharia de promoção cultural, de identidade, de cidadania, se ele investisse no livreiro, nós seríamos outro país. Se você imaginar que na década de 1960, nós fomos o único ponto de resistência dentro da ditadura e nos negam na existência dela… Mas a livraria a qual foi da minha família, na década de 1960, teve os livros queimados porque eles tinham a capa vermelha. A livraria se tornou um espaço onde as pessoas se encontravam para debater a situação de mundo, a situação política do país, aquilo que a gente hoje debate num bar e que o bar sempre foi um espaço pra isso. A livraria da família foi um ponto de resistência. Então o ser livreiro pra mim é a profissão que vou exercer até o dia em que entrar no meu caixão, porque acho que essa é a grande responsabilidade como militante na formação de um país de cidadãos, um país moldado para a compreensão e para o entendimento. E eu acho que o livreiro faz parte desse processo, ele não é apenas um comerciante de livro. Quando o dono de uma livraria é um livreiro, é capaz de você nunca ter me visto, entrar lá e perguntar qual o livro que eu tô lendo, qual livro eu gosto, ou qual livro eu indico e, se eu disser, é capaz de você comprar, apesar de você nunca ter visto aquele livro na vida. Esse é o livreiro, aquele que é capaz de perceber aquilo o que o outro quer e de ser verdade. Você pode até não gostar da indicação, mas é aberta uma linha de diálogo e de entendimento, de formação, e é isso o que nós perdemos no Brasil.

Vós – Quando a livraria fechou, você fez questão de publicar um texto de despedida. O que te motivou a escrevê-lo?

Mileide – Foi a livreira. Ela pode fechar um CNPJ. O que não é fácil. Mas é impossível ela deixar de exercer esse papel de formação. Por isso que eu disse: a família ainda fica à disposição e sempre continua na luta por um país de leitores. A história da livraria é muito bonita, no sentido da formação. ela começa numa banca de revista, ela viu o Cine São Luís nascer, ficava defronte a ele, e ali a gente lançou Jorge Amado, quando ele nem era muito conhecido.

Ela tem uma história de resistência. Ela sempre foi pequena, apesar de, em algum momento, ter se espalhado, foi a primeira livraria de shopping da cidade, quando do o Center Um foi inaugurado, nós que estávamos lá. Um livraria de referência. Nós éramos tipo um cachorrinho basset que, apesar de pequeno, ele late tão alto, implica tanto… E era como a gente via a livraria: um momento de resistência e de intelectualidade da família. E a gente ainda hoje gosta de entregar o cartão de visita como livreiros.

Vós – Com toda essa experiêcia, não é de se admirar seu nome ligado à Coordenadoria de Políticas de Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas. Mas como veio o convite?

Mileide – Pois é… a gente estava conversando, o Fabiano dos Santos, que antes era o secretário adjunto do Guilherme Sampaio [Secretário de Cultura na época], e eles estavam procurando uma pessoa para ocupar a copa e disseram: “Mileide, as pessoas que a gente encontra estão na universidade e acham não compensa sair pra ir pra Coordenadoria”, e aí eu disse “por que é que vocês não me convidam?”. Porque essa era uma experiência que eu nunca tive. Eu sempre fui a pedra; eu queria ser agora a vitrine. E eu acho que eu fui mais parceira da Secretaria da Cultura enquanto eu estava na sociedade civil, porque eu vivia aqui dentro, pedindo, reivindicando, fazendo um monte de coisa para aquela categoria da literatura, do que agora mesmo dentro da coordenadoria, porque me falta esse lado de reivindicação da sociedade. Então faltava isso pra mim, receber o tapa, afinal eu já tinha dado tantos. Aí ele [Fabiano] olhou pra mim e disse: “Mas vocês não recebem tanto assim”. Aí eu disse: “Se eu fosse guiada por razões financeiras, eu não teria sido militante, porque militante trabalha de graça. Lá, eu não vou trabalhar de graça, mas não vai ser o valor que vai definir se eu fico ou não. Se você confiarem, eu topo”. Fabiano sai, fala com Guilherme e 40 minutos depois ele pergunta se eu não toparia ter uma conversa à noite. Hoje eu até brinco: se todo mundo que assumir uma coordenadoria foi sabatinado durante duas horas como eu fui… E a primeira pergunta que ele fez: como é que você vê a Bienal?

Vós – e como será a Bienal?

Mileide – O clima da Bienal traz a possibilidade de as pessoas se contarem, se revelarem enquanto pessoas, de contar a sua história. O tema “Cada pessoa, um livro; O mundo, a biblioteca” foi escolhido porque a literatura, às vezes, causa um distanciamento das pessoas. Você tem, por exemplo, um grande número de pessoas que dizem que não gostam de ler sem nunca ter experimentado a leitura. Mas por que não gosta de ler? O que aconteceu durante esse tempo todo que a literatura se distanciou do seu leitor? Então, quando você vai analisar os estereótipos da literatura, ela sempre esteve associada a uma intelectualidade, a uma pequena classe que lia, não só a leitura decodificada da educação, mas também a leitura literária, do texto. Porém, quando se percebe que a literatura é você, que você é a obra-prima da escrita, que é quem inspira o escritor, que é o personagem das histórias contadas de forma nos poemas, contos, crônicas, romances… Se você é o personagem principal, por que se distancia? É uma autonegação? Não pode! Ao não poder a gente traz para dentro dos nossos acervos pessoais, porque no momento em que eu conto uma história, eu estou revelando a mim e estou revelando os meus passados. As pessoas me marcam e eu marco alguém. Então é isso: o acervo que as pessoas têm que a gente está querendo contar nessa narrativa nesses dez dias da Bienal do Livro de Fortaleza, que vão ser contadas pelos nossos convidados. Nem todos são escritores; são contadores de histórias.

Vós – O que de diferente a gente pode esperar dessa Bienal?

Mileide – A gente criou uma ação que se chama Bienal fora da Bienal. Ela é para aqueles que ou não vão porque não foi gerado ainda nenhum interesse de sair de casa para estar na Bienal, ou não vão porque estão cerceados de uma liberdade. Por exemplo, nós teremos um Bienal fora da Bienal num presídio, teremos outra em espaço de bairros de Fortaleza onde tem uma ONG que está tentando fazer um trabalho lá dentro e já está conseguindo fazer com que aquela população perceba a biblioteca comunitária que existe no seu bairro e que é bom tirar um livro para ler. É uma forma de a gente agradecer à sociedade civil por estar fazendo uma ação que, se a gente fosse colocar ao pé da letra, é uma ação de Estado. Também vai ter um escritor que vai à Praça do Ferreira conversar com os moradores de rua. Então, quando a gente diz as pessoas, é porque são realmente as pessoas; não importa a cor, onde ela mora, mas as narrativas cotidianas de cada uma delas representadas na Bienal do Livro.

Serviço

XII Bienal do Livro de Fortaleza
Centro de Eventos do Ceará (Av. Washington Soares, 999 – Edson Queiroz)
Data: 14 a 23 de abril
bienaldolivro.cultura.ce.gov.br

Colaboradores

Luiza Carolina Figueiredo

Luiza Carolina Figueiredo

Ver Perfil

Apesar de jornalista, sonha com ficção e, por isso, fica animada em ouvir os causos dos outros - quem sabe não tira inspiração para um futuro romance? Acredita que, se escrever de tudo um pouco, um dia vai conseguir a história que realmente quer. Leitora compulsiva, está sempre com um livro ou HQ nas mãos (ou na bolsa). É meio tímida, mas tem um bichinho tagarela dentro dela que, quando começa a falar, quase não para. E se a conversa for geek, então...

Igor de Melo

Igor de Melo

Ver Perfil

É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

Comentários

Quer conhecer mais histórias como esta?


Cadastre seu email abaixo para receber matérias, novidades, eventos, e outras informações na sua caixa de email.

fechar