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Histórias

Nos limites do Ceará, uma frutinha que transforma vidas para além da seca

Por Felipe Gomes, Igor de Melo

Acredita em Vós

15.mai
2017

Vós foi até Pereiro, a 334 km de Fortaleza, na fronteira com o Rio Grande do Norte, ver de perto como um projeto de uso responsável da água e o cultivo de acerola estão mudando a vida de agricultores da região

Na primeira mordida, o estranhamento: não tinha que ser doce? Ao segundo contato o paladar parece se acostumar. Por fim, já se espera até o formigamento na boca que, ao sentir o azedinho, parece travar as bochechas. Pequenininha, redonda, vermelha e uma das campeãs em vitamina C, a acerola é fruto, polpa, suco favorito de muita gente e, para alguns, é também transformação.

Bem antes da feira e do supermercado, a acerola, como tantos outros frutos, percorre distâncias que revelam Brasis distintos. Um desses caminhos, BR-116 afora, leva a uma terra onde tudo o que se planta dá. Um lugar de expressões que abraçam, de gente esperta e progressista, e sempre receptiva com quem chega. Lá a planta é mais verde, as frutas são mais doces, os sabores mais intensos. E a terra, mãe que é, vocaciona seus filhos para dela viver.

As curvas da estrada serra acima nos levam quase ao limite do Ceará. Na fronteira, Pereiro. Uma cidade que não parece fundada, mas plantada, regada e cuidada, tamanha a genuinidade de sua história.

Da terra, o começo. Da terra, o sustento

Foi a maior das tragédias nordestinas – a seca -, que levou o agricultor Manuel Pereira, por volta de 1777, a desbravar essas terras, até então inexploradas. Enquanto fundação, se inicia a partir do lugar onde hoje fica a principal igreja da cidade na sede do município. Mais de dois séculos depois, Pereiro ainda é feita de gente que vive do plantio, embora seu filho mais ilustre, o cantor e comediante Falcão, viva da graça.

O fato, é que, em maior ou menor escala, a grande maioria dos que habitam o município tem alguma relação com agricultura. Um cultivo que, diferente de outras partes do Brasil, é, em grande maioria, feito por gente simples e sem latifúndios a perder de vista.

É na agricultura familiar e de subsistência que a tradição da cidade perpassa gerações. De pai para filho. Década após década. Milho, feijão, fava e tantas outras culturas que enchem o prato e dão o sustento. Exceto, é verdade, quando os caminhos do município voltam a se cruzar com a seca.

Já contam seis anos. Tem menino novo que nem conhece chuva grossa. Nesse tempo, não houve um dia em que ao menor sinal de chuva a semente não estivesse pronta para ganhar a terra. Era neblina. Só tempo nublado. Esse ano parece que a coisa vai. Tem criança e adulto chorando. Os pequenos com medo – pensam que o mundo vai se acabar com os trovões e relâmpagos – e os grandes de alegria, da esperança renovada.

Homens como seu Chagas, agricultor, filho, irmão e pai de agricultores – embora seus filhos também tenham outras profissões. Ele, como tantos outros homens do município, passou os últimos anos esperando a chuva. Como em outros períodos de seca, foi difícil, mas dessa vez menos. E justamente por conta da acerola.

“Meu nome é Francisco da Chagas, tenho 56 anos e eu sou agricultor”

Era o rumo de São Paulo que seu Chagas tomava sempre que a chuva acabava. Entre dezembro e junho – período chuvoso – era hora de plantar e colher. Depois, era momento de partir. Os pés, acostumados com a maciez da terra e agora em contato com o asfalto, seguiam o rumo das notícias de emprego. “Era na construção civil e no que mais aparecesse”.

Ainda pequeno – lembra emocionado – o agricultor já tinha contato com essa dura realidade. Nos meses sem chuva o pai já fazia o trajeto. Nas estradas, conseguia trabalho como ajudante na abertura de novas vias. Era pago com legumes.

Mas nem só de lembranças tristes vive homem da roça. “Quando nós era pequeno, meu pai botava a gente (ele e os irmãos) em uma peneira, o que caísse num ia pra roça. O que ficasse em cima ia”, brinca.

A vida na roça também trouxe um casamento de anos, filhos, netos e a chance de mudar as privações nos meses sem chuva que parecia predestinado a se repetir. Seu Chagas ainda reserva um espacinho em sua plantação para o milho, o feijão, e para a fava, mas abriu espaço para um fruto e um projeto transformador.

Do fruto, renasce a esperança

O pé de acerola, diferente de outras culturas, consegue sobreviver em condições um pouco mais hostis. Apesar dessa característica, o desenvolvimento da planta e o nascimento do fruto são comprometidos. São meses a fio até que algo possa ser colhido. A escassez de chuva em diversos meses do ano e os longos períodos de seca pelos quais o Ceará passa de tempos em tempos, são agravantes para o processo de plantio da fruta.

De um lado, o solo e as condições de temperatura, perfeitas para produzir frutas com um sabor que só Pereiro pode dar. Do outro, as dificuldades com a seca e açudes vazios. No meio, homens como seu Chagas, padecendo diante da estiagem, e uma empresa de polpa de frutas que começava a investir em pesquisa. Daí nasce o Projeto Acerola.

Criado pela Nossa Fruta Brasil – empresa de fabricação de polpa de frutas com sede em Pereiro -, o Projeto Acerola consiste em uma técnica que permite que o pé da fruta possa florescer a partir de 22 dias depois das primeiras chuvas.

José Roberto Nogueira, um dos sócios da Nossa Fruta Brasil, explica que a ideia surgiu depois que foi observado que a raiz da planta ressecava durante o período sem chuvas e que isso comprometia todo o processo.
“Com pesquisa, nós chegamos a conclusão que com um mínimo de água, cerca de um litro por semana, colocadas diretamente na raiz, a planta estaria pronta para florescer poucos dias após o início do período de chuvas. O objetivo do projeto não é aguar para fazer o fruto nascer, mas para dar uma sobrevida durante a estação sem chuva”.

Depois das conclusões com a pesquisa, Roberto conta que surgiu a ideia de chamar a pequenos produtores rurais de Pereiro para junto do projeto. “Nós distribuímos as mudas de acerola, acompanhamos todo o plantio junto aos agricultores e garantimos o compromisso da compra. O impacto na renda desse agricultor é enorme e imediato”.

Sustentável – e na fábrica, cercado de todos os cuidados com a higienização -, o projeto, desenvolvido em parceria com a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), já beneficiou e transformou a vida de diversos agricultores da região, como seu Chagas, que lembra: “Agora que tem o projeto e a gente tem essa garantia, eu não preciso mais ir pra São Paulo, fico é aqui aguando a planta”.

Da terra, a cidade. Da cidade, a vocação. Da vocação, o homem, o fruto, a mudança. A ideia, segundo Roberto, é que a experiência do Projeto Acerola seja implantada em outras culturas. Que venha o futuro! A gente forte e batalhadora de Pereiro, como seu Chagas, vai estar pronta para plantar a transformação.

Colaboradores

Felipe Gomes

Felipe Gomes

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Soube desde de cedo que iria ser jornalista. Ainda é quase. Com as histórias de uma Fortaleza de outros tempos, contadas pela bisavó, aprendeu a ouvir. Entrou na faculdade para falar de coisas. Vai sair querendo falar de pessoas. Valoriza o olho no olho, admira o cinema francês e adora música.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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