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O ano mágico do Papai Noel

Por Jéssica Welma, Igor de Melo
24.dez
2018

“Os sinos anunciam os sons divinos

O mundo se prepara para as festas

As cidades coloridas com papel

Enfeitadas pra esperar Papai Noel”

(Papai Noel – Amado Batista, 1992)

No auge dos meus cinco anos de idade, perdi as contas de quantas vezes essa música se repetiu nos ensaios para a Noite de Autógrafos da minha turma da Alfabetização, na Escolinha Integrada Santa Teresa de Lisieux, em Maranguape (CE).

Estávamos todos empolgados porque diziam que haveria um Papai Noel “de verdade” no dia da apresentação, porque tínhamos escrito nossa primeira história em um livro e, claro, porque ia ter uma festa com todos os coleguinhas e familiares. Mas a minha ansiedade mesmo era pelo Papai Noel. Aquele ia ser o ano do Papai Noel.

E 1996 foi O ano. Sim, com um “o” maiúsculo mesmo. Mas, claro, aos cinco anos eu não tinha ideia disso. Meu nome é Jéssica Welma de Assis Gonçalves, nasci no dia 28 de fevereiro de 1991, às 11h20min, após uma aventura dentro de um carro, modelo Kombi, que percorreu estradas desde a Taquara, uma cidadezinha no pé da serra na Região Metropolitana de Fortaleza (CE), até uma maternidade na Capital.

Minha mãe nem conseguiu pegar minha mala com roupas. Chorou feito uma boba na maternidade porque acabei usando roupas emprestadas nas primeiras horas de vida. Uma tia resolveu o problema: “dizem que dá sorte”, confidenciou à minha mãe.

Deram sorte mesmo. Cinco anos depois, lá estava eu toda de vestido cor de rosa salmão, sapatos brancos, cabelos cheios de cachinhos após um dia inteiro com bobes na cabeça e gel com glitter para destacar o penteado. Eu era a mais nova da turma. Meus pais me matricularam no então chamado “Jardim 2”, mas a escola decidiu me mandar para a Alfabetização nos primeiros meses. Fui, então, aprender a ler e a escrever: a “brincar” com as palavras.

Entramos na festa em fila, sentamo-nos em cadeiras de plástico, do lado direito do palco. Os familiares ficavam na outra margem e, de frente para o palco, estavam os livrinhos de todas as turmas. Chegou a hora da apresentação!

“Os sinos anunciam os sons divinos / O mundo se prepara para as festas / As cidades coloridas com papel / Enfeitadas pra esperar Papai Noel / Os corações se abrem pro amor / No céu aparece um sinal / Um raio de luz vem numa estrela / Anunciando a noite linda de Natal…” Quando começou a estrofe seguinte, eis que apareceu o Papai Noel! “Sobre a neve, em seu trenó / Vai chegar Papai Noel / Com suas renas voadoras / Traz os presentes do céu…”

Quando acabou a apresentação, o Papai Noel se foi sem deixar presente para ninguém. Acho que aquele não era um Papai Noel tão de verdade assim. Ah, mas ainda não era a noite de Natal! Pelo menos, eu já sabia que o Papai Noel existia.

Em casa, minha mãe teve uma ideia: “vamos escrever uma cartinha para o Papai Noel?”. Eu já sabia escrever, que perfeito, era a hora certa de testar se eu tinha sido uma boa menina na Alfabetização. Eu bem sabia que tinha mentido sobre a minha idade ao assinar a história no livrinho da minha turma, mas era tão chato ser a mais nova! Papai Noel podia perdoar, né?! Nem estava tão longe de eu completar seis anos.

O que pedir, então? Um ventilador! Sim, um ventilador. Até hoje, 21 anos depois, ainda me pergunto qual criança pede um ventilador. Um ventilador! Por que não uma boneca, uma bicicleta, uma casa da Barbie…? Ora, ventilador era um luxo naqueles tempos. Talvez eu tenha sido uma das primeiras crianças a ter um ventilador lá na Taquara. Mas gastar habilidade de escrita para pedir ao Papai Noel um ventilador?! Recordo-me, porém, que minha história no livrinho da turma contava o dia em que uma menina ganhou uma minhoca de seu amiguinho, mas, quando ela a recebeu, a minhoca logo morreu, “e ela voltou para casa triste”. Era bem melhor pedir um presente sem vida mesmo, não era?

Pois bem, fui então dar cabo da empreitada de escrever a cartinha. Mamãe comprou um papel de carta que tinha um desenho de um gatinho em fundo rosa, parecia um gato de pelúcia. Eu não podia errar! Escrevi palavra por palavra, desenhando cada letrinha. “Querido Papai Noel…”

Três dias depois lá estava eu parecendo uma boneca novamente. Ia ser dama de honra de um casamento. De novo, estava com o vestido rosa salmão, os sapatos brancos e os cabelos cacheados encharcados de gel com glitter “para destacar o penteado”. Consigo até ouvir a voz da cabeleireira, Tereza, repetindo isso. Mas eu não estava preocupada de fato com o casamento, até quase perdi as alianças! O pensamento era no Papai Noel. Como ele ia entregar meu presente lá na Taquara? Era tão longe!

Era 23 de dezembro, então o Bom Velhinho ainda tinha tempo para “dar um jeito”. Ao final do casamento, meu pai disse que me levaria para casa dele, em Fortaleza. Agora tudo fazia sentido. Era mais fácil o Papai Noel me encontrar na Capital. Quando acabou a sessão de fotos, tirei o vestido e fui para a casa do meu pai, ansiosa.

A casa dele era simples. Eu dormia em uma rede na sala quando precisava ir para lá. Meu pai me disse que dormisse logo porque o Papai Noel podia chegar a qualquer momento. Mas ainda nem era Natal, pensei, então desconfiei da promessa. Nem desmanchei os cachinhos com glitter. Dormi assim mesmo!

No meio da noite, nem sei quanto tempo depois de dormir, ouvi a campainha. Será que era o Papai Noel? Fechei os olhos rapidamente porque, não sei por qual razão, achei que não deveria “pegar Papai Noel no flagra”. Resultado: adormeci de novo e perdi essa chance.

Acordei sem nenhuma lembrança do tal Bom Velhinho. Quando tentei balançar a rede, ela não balançou. Ah que surpresa, havia uma caixa enorme embaixo da rede! Lembrei-me da campainha! Foi o Papai Noel! Agora eu tinha um ventilador! Que menina de sorte!

Demorei tantos anos quanto o tempo de vida do meu presente para descobrir que o Papai Noel, na verdade, era Dário, melhor amigo do meu pai. Agora, o que até hoje eu realmente não entendi foi por que, desde então, não escrevi nova cartinha ao Papai Noel. De que me serviu aprender a brincar com as palavras? Coitado dele, eu morava longe. Se para deixar meu presente em Fortaleza, eu tive que ser a primeira das entregas na véspera de Natal, imagine se ele tivesse de ir lá na Taquara!?

1996 foi o ano mágico do Papai Noel. Porém, desde então, preferi considerar como mágico só o Papai Noel mesmo. Melhor deixar os anos serem “de verdade” (ou não).

Colaboradores

Jéssica Welma

Jéssica Welma

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Apaixonou-se por escrever quando mandou uma cartinha para o Papai Noel aos 5 anos de idade. Jornalista, vive procurando formas de narrar melhor a história das pessoas. Adora ouvir, especialmente relatos "de interior" (se tiver um bom causo para contar, a procure). Ama literatura, amarelo e ballet.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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