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O fio e a faca, o instrumento da vontade do cozinheiro

Por Adnilson Pinheiro
04.jul
2017

Dentre todas as armas de que um cozinheiro dispõe, talvez a mais poderosa seja a faca. Seu movimento cadenciado de vai-e-vem, cortando e voltando a cortar, nos encanta com um magnetismo difícil de resistir. É através dela que o cozinheiro transmite sua vontade para fora de si.

Na cozinha, a faca é o sacramento do amor.

Mas à medida em que é usada, a faca se desgasta, perde seu fio. Se cansa. Como é próprio de tudo o que existe, inclusive – e sobretudo – de nós mesmos. Cortando através da vida, exercendo nosso ofício, nossa arte, também nós perdemos o fio da vontade e, quando menos se percebe, já não cortamos através dos obstáculos com a mesma facilidade, com a mesma graça.

De repente nos pegamos querendo trocar de faca, numa solução simplória e imediata. Queremos fazer o que é mais simples, começar do zero em algo novo. Colocamos a culpa no instrumento ou, mais comumente, nos obstáculos que já não conseguimos cortar, e nos esquecemos de que o obstáculo é o caminho.

Da mesma forma, queremos trocar de emprego, de cidade, de família, de vida, e nos esquecemos de que são os obstáculos que definem a nossa jornada. Minha história é única não porque eu troquei de caminho sempre que vi uma pedra, mas porque eu fui o único a trilhar esse caminho, contornando e superando suas pedras.

Em vez de trocar nossas facas cegas pela promessa de outras, mais novas, que também se desgastarão, precisamos aprender a afiá-las. Submeter seu fio às pedras, justamente para que volte a cortar tanto quanto antes, ou até melhor. Aprender que o que mata o fio da minha faca não é tanto que ela se bata com as pedras, mas sim como ela o faz.

Assim também com o fio da nossa vontade. É preciso encontrar aquela pedra e aquele ângulo que nos devolverão a graça e a agilidade. É preciso lembrar de que essa faca, que agora queremos descartar, já foi valioso objeto de orgulho, possuidora de um fio tão afiado que era capaz de separar a vida da morte. É preciso lembrar que uma boa faca, daquelas que vale a pena ter, nos acompanha toda uma vida, através de momentos doces e salgados.

Haverá obstáculos, sempre. Coisas novas a se aprender e coisas antigas que já não servem mais. Mas tudo bem. Todo cozinheiro tem suas cicatrizes e sabe que, se sua faca lhe cortou, é porque está afiada. Horrível e maravilhosamente afiada.

Colaboradores

Adnilson Pinheiro

Adnilson Pinheiro

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Chef de cozinha apaixonado por sabores e palavras. Tentando criar uma ponte entre os dois.

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