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Histórias

O guardador de memórias do Mucuripe

Com Diêgo di Paula Por Marcela Benevides, Igor de Melo
19.fev
2019

“As velas do Mucuripe

Vão sair para pescar

Vou levar as minhas mágoas

Prás águas fundas do mar”

Palavra de origem tupi, Mucuripe pode ter diversos significados, como “Vale dos Mocós”, “rio dos gambás”, “rio dos bacurizeiros” ou, simplesmente, “lugar de gente alegre”. Já foi vila de pescadores com seu extenso território banhado pelo riacho Maceió; hoje é bairro da capital alencarina. As histórias e os laços afetivos do Mucuripe são tantos que estão registrados na literatura, na música e na memória de quem viveu ou vive agora na antiga vila dos pescadores.

E não são só os moradores mais antigos que preservam essa relação de afetividade e lembrança com o lugar. O maior guardador de memórias do Mucuripe é muito jovem. O turismólogo Diêgo di Paula é desde pequeno um colecionador, gostava de guardar das carteiras de estudante aos aparelhinhos de Tamagochi. Aos 22 anos, quando terminou o curso de turismo, começou a guardar as memórias do bairro onde nasceu e foi criado.

Já são oito anos registrando e arquivando as histórias do Mucuripe. No início não havia nenhuma pretensão, mas há três anos optou por consolidar o seu trabalho e repassar o conhecimento que vem adquirindo criando, o Acervo Mucuripe em 22 de fevereiro de 2017. “Consolidei mais o acervo dando nome a ele, porque antes não tinha, o acervo era só uma estante, e também com a força das redes sociais, porque acredito que se não fosse por elas tantas pessoas não teriam conhecido o projeto.”

O que antes era apenas uma estante acabou ocupando toda uma parte da casa de Diêgo. Nas agora mais numerosas prateleiras, livros, caixas, fotografias, cartões postais, matérias de jornais e documentos sobre projetos para o bairro vão costurando juntos a história do Mucuripe. “Recebo muita doação. Um jornalista perguntou através da página no Facebook se eu queria uma matéria sobre a construção de um planetário no farol, e essa é a matéria mais antiga que eu tenho, de 1976. Mas sempre aparece gente me perguntando se quero livros, muitas vezes raros, outras se quero fotos e por aí vai.”

O turismólogo-arquivista acredita que nos últimos três anos o acervo vem criando forma e crescendo por conta da curiosidade das pessoas. “Primeiro elas conhecem o projeto pela páginas e depois vêm conhecer pessoalmente. Começa no virtual e depois passa para o mundo real. E acho que o diferencial é esse, tirar um tempo para conversar porque a troca de experiência não tem preço, o acervo é isso.”

A proposta do projeto é tentar “resgatar a identidade (do bairro) que está um pouco perdida” por causa dos processos de transformações que ocorrem há um século. Dentre as mudanças, Diêgo cita a criação de novas ruas como um dos impactos diretos para a população. “Esses novos endereços implicam em desapropriação, aí vem a especulação imobiliária, o processo de gentrificação, onde rico pode morar mas o pobre tem que sair daquele lugar. E eu tento contar essa história da vila de pescadores que virou bairro, porque o Mucuripe era fora da cidade.

Como Fortaleza chegou até o Mucuripe? Com o porto. Então o porto rasgou ruas e avenidas até chegar ali próximo ao Serviluz. Ela chega trazendo serviços, outros usos e apropriação dos espaços, fica mais aberto para turistas e a população vai se afastando, sobe e ocupa o morro porque, já que não tinha como morar mais na rua da frente, que era a Beira Mar, ocupa o morro que é uma área livre e ainda próxima de onde se morava antes.”

Diêgo defende que é preciso desconstruir a ideia de que foi o “pobre quem ocupou o Mucuripe”, porque quem ocupou foi a especulação imobiliária, afastando a população enquanto ela tenta sobreviver na sua área.” Ele também pontua que tenta contar essa história da forma mais didática possível, para que dessa forma mais pessoas possam entender.

Além de tentar preservar e (re)construir o sentimento de pertencimento das pessoas com o próprio bairro, Diêgo levanta questões como a importância de preservar as origens indígenas do Mucuripe. “Desde a década de 1960 existe um fortalecimento do nome Pinzón e um enfraquecimento do nome Mucuripe. Por que falar e aumentar a área do colonizador no bairro e diminuir o outro bairro que tem nome indígena? A área do Mucuripe que era enorme ficou pequena, então, para quem estuda e conhece o bairro, sabe que isso choca.”

O guardador de memórias ainda ressalta que as diversas mudanças e criação de novas ruas e bairros atrapalha e cria uma nova história em cima de uma que já existe. “Quando perguntam onde está o farol velho do Mucuripe e dizemos que agora está no Cais do Porto e que o farol novo está no Vicente Pinzón, gera a dúvida ‘mas não era no Mucuripe?!’ Esse processo atrapalha e cria uma nova história e eu tento desconstruir isso contando a história de como era antes e de como as pessoas se reconheciam. O mapa oficial é oficial, mas o mapa afetivo é outra coisa. Usemos o afetivo.”


“Morar no Mucuripe é resistir”

O acervo de Diêgo não é o primeiro do bairro. Ele conta também a história do Acervo Cultural do Mucuripe – Padre José Nilson, criado por Vera Lúcia, ou Verinha, como foi conhecida pela comunidade. Verinha era artista plástica e passou mais de 60 anos lutando pela preservação da memória afetiva de quem mora na antiga vila dos pescadores.

O nome do primeiro acervo foi dedicado ao padre pois, de acordo com Diêgo, Verinha era secretária dele e ele durante anos ajudou a comunidade ao longo das transformações. “O padre veio para ficar um ano na comunidade e ficou mais de 50 anos.  Ele gostou muito do bairro, conseguia perceber as mudanças. Na época, junto com agentes sociais, ele dava suporte para que as pessoas que precisavam ‘sair do meio’ para que à modernização chegasse não fossem realocadas tão distantes, mas que ficassem dentro do bairro.”

Verinha era como uma líder comunitária. “Ela não estava dentro da associação, mas ajudava de outras formas”. Após o falecimento de Verinha, Diêgo entrou em contato com seu irmão e passou a cuidar da herança sobre o Mucuripe que  ela havia deixado. “O acervo dela era muito extenso e não estava guardado de forma correta, e como havia muita coisa antiga eu pedi para ficar e cuidar do que ela construiu.”

Para dar continuidade ao legado iniciado por Verinha, Diêgo faz o mesmo processo de arquivamento. Guarda tudo o que sai nos jornais sobre o bairro e registra as transformações por meio de fotografias. A diferença é que além dos papéis, ele pode arquivar tudo digitalmente. Coloca fotos antigas e novas nos perfis do Facebook e Instagram. Cada imagem vem acrescida de um fragmento da história do lugar. “Toda publicação que eu faço coloco uma descrição do que é, de quem fez a foto ou o texto. Recebo muita monografia, dissertação de mestrado etc. Por isso sempre procuro saber a fonte. Quando as pessoas não sabem, eu acabo não postando.”

O trabalho é feito apenas por Diêgo e até o momento ele está conseguindo fazer tudo sozinho. Mas sabe que em breve será mais complicado continuar sem ajuda. “O bairro tem um potencial muito grande, ele deixou de ser vila dos pescadores para se tornar bairro da cidade, então muita coisa foi registrada, até mesmo antes disso, e até agora eu consigo encaixar tudo aqui, mas uma hora não vai dar mais.”

Para facilitar a clipagem dos arquivos, ele só guarda o que tem relação direta com o Mucuripe. “Recebo livros e faço as doações para as bibliotecas comunitárias, porque recebo muitos que não são sobre o Mucuripe. Tento ter um foco, embora para se entender o que é o Mucuripe a gente precise entender o que é a cidade de Fortaleza, porque não dá pra dissociar já que ela fagocitou a vila. Fortaleza chega até o Mucuripe como chegou até a Messejana e a Parangaba.”

Nascido e criado ali, Diêgo não pretende sair do bairro. Dentre sues sonhos, está o de institucionalizar e viver da cultura. “Ainda não sei como poderia viver da renda do acervo, até porque eu não cobro e acho que não devo fazer isso, porque o conhecimento chega de graça pra mim e devolvo ele de graça para as pessoas. Mas como eu poderia expandir isso, institucionalizar, ainda não sei. Mas quero fazer isso dentro do território do grande Mucuripe.”

Ele ainda ressalta que não pensa em sair da região porque, além da vida tranquila, existem 10 projetos para a área onde ele reside, projetos de remodelação que direta ou indiretamente “abrem ruas e tiram calçadas” e Diêgo pretende resistir a todos eles. “Quero um espaço maior dentro do bairro para que eu consiga receber grupos maiores e possa preservar essa memória e passar isso adiante. Porque tudo que eu te falo aqui, são as minhas memórias e a de outros…”

Para Diêgo, definir o Mucuripe é uma tarefa complicada. Mas, entre tantas possibilidades, ele prefere dizer que morar no Mucuripe é resistir. “O bairro tem tido muita resistência, embora a força do capital seja mais forte do que isso. Ele também é sinônimo de mar. Hoje eu acho que as pessoas conhecem mais o Mucuripe da orla, mas eu consigo guiar algumas pessoas dentro do bairro para que elas possam perceber onde está a vida do lugar, onde está a identidade.”

“(…) O sorriso ingênuo e franco
De um rapaz novo e encantado
Vinte anos de amor”

 
 
 
 

Colaboradores

Marcela Benevides

Marcela Benevides

Ver Perfil

Ler e escrever são as duas coisas que mais a definem. Gosta de contar histórias sobre pessoas e lugares que inspiram a felicidade e a percepção de que a vida vai além das bolhas em que vivemos, e é na cidade que encontra a sua inspiração. Acredita que o jornalismo é um dos meios para promover a união entre culturas. Importante destacar: tem o sol em leão.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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