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Plural

O rolê da moda autoral e do empoderamento social

Com Zé Filho Por Leilane Freitas, Igor de Melo
11.out
2018

Não foi obra do acaso, mas sim do amor e dedicação que nasceu uma das marcas de moda com mais representatividade dentro da nossa cidade e que aos poucos começa a galgar um espaço fora do estado.

Com mais de 67 mil seguidores no Instagram e com uma loja fixa localizada na Avenida Monsenhor Tabosa, a Ahazando  nasceu há cerca de 6 anos e aos poucos conquistou um público jovem, ou pelo menos de espírito jovem e descolado.

A ideia de criar a marca veio do Zé Filho que desde muito cedo está envolvido com arte e criação. Foi na escola que começou a dançar, atuar e lá mesmo percebeu um encanto também por figurino e participava ativamente da confecção dessas roupas e adereços.

Zé começou a cursar teatro mas decidiu mudar o curso e deu início a faculdade de Design de Moda onde se formou e criou a Ahazando ainda no terceiro semestre. Junto de um sócio na época, desenvolveram estampas próprias e também vendiam algumas peças já prontas. Comercializavam os produtos onde dava. Em casa de clientes, terminais e paradas de ônibus e até no portão de entrada de prédios comerciais.

Hoje, a loja tem bastante destaque no mundo virtual e físico. A Ahazando se tornou um espaço não só para consumir uma moda sem o vício das grandes indústrias. A marca representa, hoje, diversos grupos de pessoas que por muito tempo se sentiram recriminados pela sociedade. As roupas criadas por Zé Filho e sua equipe não são produzidas para vestir, especificamente, nenhum tipo de gênero, mas para vestir pessoas que queiram expressar seus sentimentos e ideias através da vestimenta.

Entrevista

Vós – Como você começou no mundo da moda?

Zé Filho – Comecei fazendo figurino para as peças de teatro na escola, mas ainda não tinha ideia de que escolheria isso como profissão. Iniciei na faculdade de teatro, mas acabei deixando de lado e me dediquei mesmo a moda. E foi uma explosão na minha cabeça quando descobri a estamparia. Dentro da faculdade eu não tinha uma cadeira específica sobre isso, fui descobrindo esse mundo fora da faculdade, principalmente com a Ahazando.

Vós – Como a sua relação e da Ahazando com os clientes e seguidores?

Zé Filho – A gente acaba ajudando muita gente. Nós dialogamos sobre várias coisas e isso faz com que o outro retorne pra gente de alguma forma. Semanalmente, sem pular nenhuma, aparecem meninas falando pra gente sobre situações de abuso que elas sofreram, sexual, moral ou verbal. Dentro e fora de casa. E elas vêm até as nossas redes sociais ou até a nossa loja para pedir ajuda porque não tem coragem de contar para a família ou para os amigos. A primeira vez que isso aconteceu foi fácil? Não! Foi zero fácil. Ficamos assustados mas a mesmo tempo pensamos “A gente precisa conversar com essa pessoa e ajudar de alguma forma”. Então a gente foi atrás de contatos de psicólogo, psiquiatra que ofereçam o serviço tanto particular como gratuito e temos essas informações de onde elas podem ir. Já temos tudo formuladinho e organizado porque isso normalmente acontece e nos tentamos informar sobre os lugares onde essas pessoas podem conseguir ajuda psicológica, médica e social. Pra gente isso é foda. Ajudar a vida de uma pessoa, ajudar que ela continue viva e que não entre em algum tipo de colapso.

Vós – O Glitter fez muito sucesso no Carnaval de 2017 de Fortaleza. Como você criou esse evento?

Zé Filho –  A gente acabou criando um vínculo tão forte com os clientes que tanto eles passaram a fazer parte da minha vida como eu da deles. Tem gente que realmente compartilha de tudo com gente da Ahazando. No ano passado a gente realmente quis fazer um carnaval totalmente despretensioso. Não tínhamos ideia de que podia se tornar o que virou. Mas o glitter nasceu na varanda da nossa loja, em uma festa que deveria ser para 50 amigos e deu mais de 1 mil pessoas. Então, no fim de semana seguinte a gente já teve que ir para o Mercado dos Pinhões. E só foi aumentando a quantidade de pessoas que iam para o evento. No último dia de Glitter de 2017, tivemos um público de aproximadamente 8.500 pessoas. Esse ano, acabou extrapolando muito. a gente esperava o mesmo público do ano passado e tivemos praticamente o dobro, mais de 14 mil pessoas. Pra gente era inviável continuar. Então outro patrocinador assumiu o evento e fez. Só divulgamos que ia ter um dia antes. Hoje o Glitter meio que está em terceiro plano pra gente. Gostamos muito do que o Glitter proporciona, principalmente porque ele não fala de roupa. Ele fala de você se libertar, de ser quem você é, de diversidade e principalmente de todo mundo se respeitar. A mensagem que a gente quer passar é essa.

Vós – Por que esse interesse em mostrar e chegar às minorias?

Zé Filho – Porque eu acho que elas precisam ser escutadas. Eu acho que hoje a gente vive em mundo machista, misógino, homofóbico, racista porque ninguém quer dar voz a essas pessoas. E assim, quando a gente fala minoria é nomear um grupo de uma forma tão errado, porque é tanta gente. Tem muita gente que tá numa favela querendo ser escutada, tem bicha querendo falar coisas interessantes. Negros querendo falar sobre o que eles acreditam e a sociedade não deixa. A gente tapa e não deixa eles falarem. Lá na Ahazando a gente fala sobre esses assuntos. Sobre racismo, homofobia, machismo. A gente deixa essas pessoas falarem sobre o que elas pensam da vida. E assim muitas pessoas acabam se modificando e modificando o olhar do outro.

Vós – Como você vê a moda das grandes indústrias?

Zé Filho –  Eu acho que as pessoas falam demais para o que chamam de maioria porque ansiedade hoje é uma das coisas que mais vendem no mercado. As pessoas ficam ansiosas porque não estão tão magras, porque não estão da cor que é pra tá e isso vende, de fato. É um ciclo vicioso. Ninguém coloca na passarela uma mulher extremamente magra atoa. As pessoas delimitaram um padrão e esse padrão vende. E é isso! Você vê marcas que sei lá, o número 44 não veste nem a minha amiga que veste 40. Essas marcas faz com que suas consumidoras enxerguem a necessidade de emagrecer, é quase uma exigência para que ela caiba naquela peça. Então a gente cai nesse fluxo. Tem gente que emagrece, que faz bariátrica, porque querem caber nas roupas só. Esse não é o público que eu me interesso, acho que já tem muita gente conversando com eles. Eu prefiro dar atenção a quem ainda não tem.

Colaboradores

Leilane Freitas

Leilane Freitas

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Já se aventurou pelo mundo do teatro e da dança. Escrevia no jornal da escola mas ainda não sabia que escolheria isso como profissão. Acredita no jornalismo como uma maneira de mostrar o lado positivo dos pequenos detalhes da vida. Decidiu escrever porque, aparentemente, falar sozinha não parece ser coisa de gente em sã consciência.

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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