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Histórias

O sopro de tradição popular da Pifarada Urbana

Com Pifarada Urbana Por Flávia Bessa, Igor de Melo
13.dez
2019

O cinza dos prédios toma conta do horizonte e o barulho dos carros enche as ruas, mas em meio ao concreto da movimentada Avenida Pontes Vieira é possível também ouvir um som intenso ecoando sob as árvores do pequeno reduto verde do Parque Rio Branco. Todo domingo de manhã o sopro dos pássaros do parque se confunde com a melodia dos pifes do coletivo Pifarada Urbana.

Semanalmente a revoada musical reúne mais de vinte pessoas para praticar e celebrar a cultura popular. A ideia de juntar pifeiros e pifeiras para fazer uma ‘’pifarada’’ surgiu da inquietação dos amigos Vanildo Franco e Guilherme Cunha. Em Fortaleza já existiam alguns movimentos de tradição popular, mas nada com a proposta de promover encontros para tocar e repassar ensinamentos tendo o pífano como protagonista. Antes o instrumento só participava com um papel secundário dentro de uma história percussiva.

Pífano, pífaro ou pife. Múltipla em nomes e origens, a pequena flauta transversal carrega em sua história a ancestralidade da cultura indígena e da tradição popular do Nordeste brasileiro. E foi no meio do caminho entre o chão de praça dos reisados e da percussão na banda cabaçal que aconteceu o encontro entre os dois criadores do Pifarada Urbana. ‘’A gente se conheceu dessa coisa dos palcos, de tocar junto, de participar dos movimentos populares, cada um com o seu grupo. Eu na banda Dona Zefinha e o Guilherme com a Banda Flor da Aurora’’, conta Vanildo.

A iniciativa de reforçar essa ancestralidade cultural aconteceu como uma primeira reunião despretensiosa entre Vanildo e Guilherme no Parque Rio Branco. A escolha do lugar não foi por acaso: além de ser central para quem viesse de qualquer lado da cidade, a dupla também resolveu abraçar a causa da ocupação urbana, movimentando e dando visibilidade para um espaço que, até então, parecia esquecido.

A presença da Pifarada Urbana despertou um novo olhar (e os ouvidos!) sobre o parque, levando outros grupos a também se reunirem lá. O lugar acolheu e foi acolhido por clubes de livros, turmas de capoeira, ciclistas do Bike Anjo e pelo movimento Proparque. ‘’Será que se não estivéssemos aqui esse parque ainda existiria? A cidade pode ser um lugar maravilhoso, a gente é quem tem que fazer isso acontecer’’, reflete Guilherme.

Quando a Pifarada nasceu, em novembro de 2018, era período de combustão política e uma polarização de ideias tomava conta do clima. Nesse contexto de divisão entre as pessoas, o coletivo musical transformou-se em rede de apoio. Virou, também, uma questão social as pessoas estarem reunidas, todos os domingos, em torno do pífano e de toda a sua simbologia cultural. Vanildo observa que o grupo ‘’fala de política no sentido de posicionamento e consciência social, sobre onde esse instrumento está, de onde ele vem, aonde ele pode chegar e o que ele pode levar pras pessoas.’’

Desde os primeiros encontros, quem chegava no parque já virava participante da Pifarada. Os encontros sempre foram abertos tanto para quem tem vontade de aprender a tocar o pífano quanto para aquele que já toca profissionalmente. Com essa diversidade, não demorou muito até o grupo começar a montar seu próprio repertório e receber o primeiro convite de apresentação. Era época de pré-carnaval em Fortaleza quando a revoada se juntou pra animar o bloco do Hospício Cultural, no bairro do Benfica.

O grupo se assumiu como um movimento de valorização do pífano abraçando todas as possibilidades que envolvem o instrumento, como a dança, o canto e a percussão. “Somos um mergulho, estudo e imersão na cultura popular. O que nós fazemos é um reencontro daquilo que sempre foi nosso”. Nessa imersão, a metodologia adotada pelos dois amigos músicos atravessou o ato musical e partiu para o caminho da afetividade e inclusão. Tem lugar pra todo mundo, do adolescente de 12 anos até a idosa com 68 anos de vida. Quem tem experiência ajuda quem está chegando.

Vanildo e Guilherme desmistificam a linguagem convencional e seguem para a didática repassada pelos mestres das bandas cabaçais, baseada no contato direto. É sobre aprender o fazer fazendo. Simples, como Vanildo explica: “Eu vou te mostrar como é que segura o pífano. Numa troca, você pega o instrumento e eu corrijo a sua postura. Eu pego na sua mão e coloco do jeito certo. Assim é a prática da arte popular.”

A Pifarada Urbana virou espaço de empoderamento artístico por quem passa por ela. “Alguém que nunca teve nenhum vínculo artístico, quando se depara dentro de um grupo, fazendo apresentações, de repente se enxerga artista”, acredita Guilherme. Sendo a arte um instrumento de inserção transformador por si só, o contato artístico trouxe para os pifeiros e pifeiras uma nova dimensão de suas capacidades como indivíduos ativamente culturais.

Movidos pela vontade de fazer a arte popular circular por todos os cantos da cidade, o coletivo começou a realizar ações itinerantes em outros lugares de Fortaleza, principalmente em espaços mais marginalizados. Na cultura do pife, quem toca ensina ao outro, faz o instrumento, toca percussão e dança todos os ritmos. Por isso, além das apresentações musicais, os pifeiros começaram a conduzir oficinas de construção do pífano para quem queria tocar mas não tinha o próprio instrumento.

Com o pife na boca do povo, a Pifarada Urbana rodou a cidade e chegou até o Festival Cine Ceará, mas o convite veio com a proposta de apresentação que envolvesse apenas percussão. Então a dupla propôs algo mais cearense, mais “a nossa cara”: o pífano. Assim, o momento seria sonorizado com um instrumento genuinamente nosso, além de combinar mais com a ideia da interação de rua e da brincadeira com a pessoas. A organização topou. Enquanto o festival acontecia no Cineteatro São Luiz, a pifarada ficou responsável por animar as pessoas que estavam do lado de fora, na Praça do Ferreira.

Do início de tudo para cá, muita coisa já mudou para Vanildo e Guilherme. Em novembro os músicos celebram o primeiro ano de existência do Pifarada Urbana, avistando um novo rumo para o pífano na cena musical. ‘’Os artistas estão levando o pife para os palcos, subindo em grandes festivais de música e o utilizando como linha de frente, no lugar de destaque. Tudo isso vai refletindo na mudança da cabeça das pessoas’’, comemoram os dois pifeiros.

SERVIÇO

Pifarada Urbana

Encontros: Todos os domingos

Endereço: Parque Rio Branco – Av. Pontes Vieira, bairro Joaquim Távora

Horário: 09h – 12h

Facebook: @pifaradaurbana

Instagram: @pifarada_urbana

E-mail: pifaradaurbana@gmail.com

Colaboradores

Flávia Bessa

Flávia Bessa

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Escolheu a Comunicação Social, pois acredita no comunicar mais acessível e representativo. Encontrou no jornalismo, o caminho para a (re)construção dessa nova forma de informar. Uma comediante em ascensão, provavelmente sempre terá uma piadinha pronta pra contar (e rir sozinha).

Igor de Melo

Igor de Melo

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É fotógrafo profissional desde 2008. Já passou pela fotografia de esportes, cobertura social, fotojornalismo, publicidade, documental e autoral. Continua em todas. É apaixonado por esportes de ação, tatuagens, retratos e pessoas. Crê que vai conseguir contar as histórias que quer, surfar na Indonésia e viajar com a esposa.

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